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segunda-feira, 23 de julho de 2012

A LULA E A BALEIA



Representante firme e claro do cinema independente que possui sua base em um roteiro curto, polido e forte para retratar e destrinchar a organização e as relações familiares envolvendo seus protagonistas em uma teia de dramas, descobertas e revelações, sejam em caráter pessoal ou no âmbito geral do cenário.

Dirigido e roteirizado por Noah Baumbach, A Lula e a Baleia retrata os dias pré e pós separação de um casal formado por um escritor em crise e uma nova escritora que começa a fazer sucesso. Envolvidos neste meio estão os dois filhos do casal, onde um começa a descobrir namoros e problemas e o outro começa a descobrir seu próprio corpo e sua sexualização.

 Após a separação dos pais é que o filme começa a ganhar o corpo e seus contornos mais claros. A dúvida, o sucesso, o fracasso e principalmente sensações de ter podido fazer algo mais, ajudado mais ou menos e coisas assim começam a atormentar a vida destes quatro membros da família, ao mesmo tempo em que tentam seguir suas vidas. O roteiro de Baumbach acerta a mão, ao conseguir dosar muito bem os momentos dramáticos, com alguns momentos de humor ácido sem perder em nenhum momento o respeito pelo material ou pelo espectador. Cenas mais duras ou até mesmo mais incisivas conseguem sem manter sem qualquer elemento apelativo e não se mostra distante do escopo geral ou mesmo uma manobra de resolução fácil. Além disso, o roteiro faz várias alusões a clássicos da literatura, inclusive utilizando-os como exemplo e colocando-os como norte para as decisões dos personagens em alguns momentos, sejam elas diretas ou apenas indiretas, em uma mensagem muito mais do roteiro em si do que de algum personagem. Entre os vários dramas que assolam os personagens, destaque para as enganações que o personagem Walt (o filho mais velho interpretado por Jesse Eisenberg) se impõe, seja com um infeliz namoro, um pseudo intelectualismo ou usurpar composições (no caso Hey You do Pink Floyd).

Este tipo de filme exige um elenco afiado e que compre além da ideia central, a ideia individual de seus personagens, com suas idiossincrasias e moralismos, e nesse ponto a coisa consegue funcionar novamente com algumas ressalvas. Jeff Daniels e Laura Linney como o casal central mostram a falta de química necessária para o espectador aceitar a separação, porém se tornam muito chatos quando resolvem atuar sozinhos, se é algo proposital de Baumbach deu certo, caso contrário... Jesse Eisenberg firma muito bem seu personagem, porém a cada dia que passa me parece que ele só consegue interpretar este tipo de personagem. Owen Kline se situa muito bem como o filho mais novo, e mesmo tendo cenas complicadas a fazer, se mostra desinibido e bem coerente em sua atuação. Anna Paquin está ótima como a aluna do personagem de Daniels que se torna sua namorada, contudo não supera o ótimo William Baldwin no auge da caricatura para construir o professor de tênis que se torna namorado da personagem de Linney.



É um filme interessante, bem construído e que apenas esbarra em alguns momentos na sua própria falta de ambição. É inevitável a sensação de que Baumbach poderia ter explorado melhor os simbolismos do filme, assim como suas relações, mas não vamos prejudicar tudo por causa de um detalhe como este também.





(The Squid and The Whale de Noah Baumbach, EUA- 2005)



NOTA: 7,5

terça-feira, 19 de junho de 2012

CORIOLANO



Estréia de Ralph Fiennes na cadeira de direção, Coriolano adapta e transporta para a atualidade mais uma obra de Shakespeare. Assim como o desafio de se fazer tal ruptura não é algo novo, os problemas e os acertos de tal audácia continuam também os mesmos.

Assim como Baz Luhrmann em seu ótimo Romeu + Julieta e Michael Almereyda  em seu não tão ótimo Hamlet – Vingança e Tragédia, Fiennes opta por manter a linguagem clássica e erudita de Shakespeare, algo que já de início choca, ainda mais aqui, onde as cenas iniciais são de guerra constante. Esta manutenção da linguagem erudita, por mais que agrade pessoas de ouvidos abertos às nuances e belezas da língua, atrapalha na assimilação da ideia geral e do contexto mais coloquial devido ao excesso de metáforas e elementos poéticos, em outras palavras, como não estamos diante de um filme de época, onde o espectador já espera tal erudição lingüística, o negócio soa meio artificial e deslocado. No filme de Luhrmann acima citado, o aspecto romântico da fita segura esta artificialidade em baixa devido à poesia do próprio romance. Já no caso de Almereyda, a artificialidade é mais evidente, porém disfarçada também pela majestoso ambiente que a melhor peça de Shakespeare propõe. Todavia, Fiennes se vê de encontro com uma história totalmente trágica, com elementos políticos e diplomáticos que funcionavam na Roma Antiga, mas que atualmente não funcionam mais.

Banimento da cidade, patrícios, plebeus não condizem com o meio atual e deixa o espectador meio desconfortável quanto ao real sentido de tudo aquilo. O desenrolar é simples, e em alguns momentos as coisas se resolvem muito fáceis, enquanto que em outros o negócio rasteja. O início é muito lento e tedioso, e provoca uma correria no final, onde muitas coisas são atropeladas. Fiennes acaba perdendo um pouco a mão neste sentido, e não consegue um bom equilíbrio do enredo, onde temos um início extremamente maçante, uma meio empolgante e forte e um final corrido e com desfecho mal trabalhado.

Tirando estes elementos, e o fato de o filme se perder um pouco nos “romanismos” que a peça possui, Coriolano caminha até bem. Fiennes tem uma atuação incrível como Caio Márcio e Vanessa Redgrave encarna com muita força a mãe do personagem central. Mesmo Gerard Butler cuja qualidade da atuação nunca supera seu carisma é conduzido de maneira segura por Fiennes. Por sua vez, Jessica Chastain, o novo arroz de festa do cinema, está um pouco apagada em um papel de pouca relevância como a esposa devota do General Caio Márcio.

O trabalho é ousado e Fiennes pagou um pouco pela ousadia. Talvez um diretor mais experiente conduzisse melhor tal obra, entretanto, o início é sempre complicado, e Fiennes parece ter talento para a nova função que se propôs a assumir. Seu trabalho no final das contas é caracterizado por uma boa direção dos atores, mas por uma má distribuição do roteiro e por problemas de andamento. Logicamente, o ator que já nos propiciou grandes atuações em A Lista de Schindler, O Morro dos Ventos Uivantes, o Paciente Inglês e é conhecido do grande público por ter encarnado o maléfico Lorde Voldemort na saga Harry Potter terá muito a evoluir na função de diretor, contudo, parece ter talento e perspicácia, algo que nos leva a acreditar que no futuro filmes melhore virão. Coriolano não chega a ser um filme ruim, mas falta um algo a mais para elevá-lo às categorias áureas do cinema, e é exatamente este algo a mais que Fiennes terá que aprender.


(Coriolanus de Ralph Fiennes, Inglaterra - 2011)


NOTA: 5,5

segunda-feira, 4 de junho de 2012

JULGAMENTO EM NUREMBERG



Baseado nos julgamentos reais de colaboradores do nazismo ocorridos em Nuremberg na Alemanha poucos anos após o término da Segundo Guerra Mundial em 1945, este drama de tribunal do grande Stanley Kramer consegue com grandes méritos, não apenas reproduzir o clima dos tribunais de guerra, mas vai além e desenvolve válidos debates acerca de temas como a autonomia da nação sobre a lei, a soberania da mesma, a própria lei em si, além de adentrar em elementos complexos e que perpassam a humanidade até hoje; afinal apenas a Alemanha e seu povo são responsáveis por Hitler? Quanto o povo alemão sabia sobre as atrocidades praticadas pelo partido nacional-socialismo e o quanto devemos culpá-los de forma geral?

O roteiro do filme acerta em apenas apresentar as hipóteses acima colocadas, fazendo no máximo conjecturas acerca das mesmas nas figuras do advogado de defesa e da promotoria, contudo, nunca se verifica um como mais correto do que o outro, perpetrando com que tais questões apenas continuem pululando na mente das pessoas, levando-as às suas próprias decisões sobre o complexo e polêmico tema. Mesmo a decisão final em torno dos réus, não implica em uma tomada de posição, pois o roteiro e Kramer fazem questão de deixar bem claro que estamos diante de um julgamento de casuística e não de generalidade do nazismo na Alemanha.

Prato cheio para os estudantes de direito (os interessados e não essa patifaria que assombra os estudantes de direito atuais em sua maioria), os debates ocorridos ao longo dos quase 180 minutos de duração da fita são soberbos e cheios de passagens clássicas, além disso, Kramer é extremamente feliz no tempo dos diálogos e no modo como intercala momentos mais leves, de cafés e bebidas com os pesados momentos de debate e de oratória proveniente dos julgamentos.

Contudo a terceira haste do clássico tripé direção-roteiro-atuação também funciona muito bem, algo essencial em um filme fechado, que não possui nenhum outro elemento de impacto além do modo como o elenco assume as passagens e os insere em suas interpretações. Burt Lancaster incorpora de forma impressionante a culpa e tristeza do magistrado réu Ernst Janning. Judy Garland e Montgomery Clift e Judy Garland colaboram com o status de coadjuvantes de luxo. Maximilian Schell rouba a cena e enche a tela de emoção em seus discursos imponentes na defesa dos réus nazistas enquanto Spencer Tracy mostra novamente a união fina entre força e carisma em uma atuação que exige um tipo especial de talento que somente os grandes atores como Tracy possuem. Por mais que eu ainda prefira sua atuação em O Vento Será Tua Herança, colaboração anterior de Tracy com o diretor Kramer é impossível negar a grandeza da atuação do veterano ator.

Um grande filme e que consegue ecoar sua grandeza por vários âmbitos da especulação e do conhecimento, seja ele cinematográfico, histórico, ético ou do direito, isto para nos mantermos apenas nos mais explícitos. Muito mais que um filme de tribunal, a obra de Kramer é um clássico, exatamente por ter conseguido, sem se tornar ideológico ou partidário, elencar quase que de forma geral as complexidades de um processo histórico como o de Nuremberg. Nas mãos de alguém descuidado, um filme como este poderia se tornar um grande desastre; felizmente o homem da câmera era Kramer e este perigo não chegou nem a rondar os sets de filmagem.


(Judgement at Nuremberg de Stanley Kramer, EUA - 1961)



NOTA: 8,5

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O ROLO COMPRESSOR E O VIOLINISTA



Média metragem feito para a conclusão de sua faculdade de cinema aos vinte e oito anos de idade, O Rolo Compressor e o Violinista é um excelente embrião da nobreza que, futuramente se transformaria o cinema deste gênio da sétima arte que atende pelo nome de Andrei Tarkovsky. Centralizando na inusitada amizade entre um garoto violinista e um motorista de um rolo compressor que realiza um trabalho perto da residência do já citado garoto, Tarkovsky já dá mostras de um talento acima da média. Logicamente que esta pequena e primeira obra ainda é crua e mostra um Tarkovsky mais vacilante, contudo a beleza poética e a simplicidade com que o assunto é tratado só poderiam vir de uma mente que entende a verdadeira síntese e propriedade do cinema, e sabe consequentemente organizá-la e projetá-la sem retirar sua parte mais nobre.

Tarkovsky varia de planos amplos para fechados, e utiliza-se da expressão dos atores e dos cenários para criar um clima fino, que consiga sintomatizar a relação de amizade que se constrói. O roteiro, muitas vezes baseado apenas nas imagens, é uma de beleza ímpar, e perpassa o espectador levando-o a uma análise de mais profunda de tudo o que se desenrola em cena. Utilizando-se das características marcantes de cada personagem, Tarkovsky realiza um movimento de assimilação entre público e filme, além de unir os dois personagens principais por estes elementos. Muito mais que uma simples amizade, os grandes momentos destes novos amigos, mostram-se exatamente no compartilhamento daquilo que cada um possui para oferecer, sendo no caso de Sergei (O Rolo Compressor) uma divertida “volta” na máquina de trabalho do mesmo e no caso de Sacha (O Violinista) uma suave música tocada em seu violino. A profundidade da amizade ultrapassa a vontade que cada um possui de conviver com a outra parte e se mostra totalmente desinteressada, desembocando em um triste, porém singelo final.

As interpretações merecem destaque, principalmente a do menino Igor Fomchenko que constrói um personagem simplesmente magnífico e que se enquadra exatamente naquilo que aparentemente era a intenção de Tarkovsky. As alterações de humor e as demonstrações de amizade partem das feições deste menino de forma intensa e simplesmente fenomenal.

Muito mais destacado pela beleza do que pela inovação técnica e estética que marcaria a obra posterior de Tarkovsky; O Rolo Compressor e o Violinista é uma obra obrigatória para os fãs de um cinema simples, belo e ao mesmo tempo marcante e pouco convencional. Uma história de amizade incrível, emocionante e que nos coloca frente a frente com os primeiros passos de uma dos maiores gênios da história do cinema. 


(Katok I Skripka de Andrei Tarkovsky, Rússia - 1960)


NOTA: 9,0

domingo, 22 de abril de 2012

CORAÇÃO DE CRISTAL



Werner Herzog é, ainda hoje, um dos grandes diretores que o cinema produziu. Dono de um estilo único, que mistura brutalidade com elementos poéticos para realizar grandes análises da natureza humana, o diretor alemão já nos presenteou com clássicos como Fitzcarraldo, O Enigma de Kaspar Hauser e o meu favorito, o estupendo Aguirre, a Cólera dos Deuses, todavia, Coração de Cristal é com certeza, entre os filmes do diretor que eu tive a oportunidade de assistir, o mais emblemático e o mais experimental trabalho de sua carreira.

O filme é extremamente simbólico e cheio de diálogos magistrais, que possuem em seu cerne, tanto elementos do teatro clássico quanto elementos poéticos de altíssimo nível. A fotografia é bárbara e a condução de câmera por parte de Herzog é algo para ser analisado em uma escala diferente. O diretor realiza inúmeros movimentos ao longo do filme, o que o torna um trabalho extremamente imprevisível. Herzog inverte planos, expande e retrai os mesmos ao seu bel-prazer, mas nunca de forma arbitrária, coloca a câmera em sua mão quando julga necessário e até verticaliza alguns planos, tudo com um toque clássico de alguém que realmente sabe o resultado que quer adquirir. Um exemplo claro dessa grandiosidade é a sequência final, que se passa em uma ilha e que dura alguns minutos, em que Herzog dá uma aula de direção e com ângulos e movimentos ousados cria planos maravilhosos e cenas inesquecíveis.

Apesar de possuir uma linearidade, Coração de Cristal possui vários fragmentos em sua execução, fragmentos estes que, por mais que possuam relação com o todo, se auto explicam através de aspectos existenciais e teses elaboradas em tons proféticos, materializando-se na pessoa do “vidente” Hias, responsável pela maioria dos grandes diálogos que o filme possui.

A busca da fórmula secreta do “vidro-rubi” perdida com a morte do único homem que a conhecia, faz com que um vilarejo se perca em obsessão e lamúria, pois os mesmos vivem desta especialidade. Personagens se alteram, definham, crescem, e tudo isto sem qualquer dano ou apelação ao alinhamento construído, ou seja, o desespero das pessoas com o alicerce perdido, o vislumbre de um futuro sem nada, culminando em atitudes e condições extremas dos personagens. Coração de Cristal é lento, pouco convencional, em alguns momentos desesperador e exige muita concentração do espectador, ou seja, é cinema de grande profundidade e de grande afetação. Visualmente e esteticamente experimental, é um filme único na carreira de Herzog, o que o torna pouco visto mesmo entre seus fãs, que na maioria das vezes são adeptos ao seu cinema mais “comum”.

Como última ressalva, vale o destaque de que, segundo o que eu li, Herzog utilizou técnicas de hipnose em alguns atores, principalmente nos coadjuvantes, para que os mesmo realizassem cenas em estado alterado, com a intenção de realizar o mesmo movimento no espectador, fincando sua presença através da loucura e do exagero imposto a estes atores e no final das contas, ele conseguiu, pois com o perdão do trocadilho, o filme é realmente hipnotizante. Obrigatório.


(Herz aus Glas de Werner Herzog, Alemanha - 1976)


NOTA: 9,5

segunda-feira, 26 de março de 2012

SENTIDOS DO AMOR


Para nossa sorte, nem só de cinema (espaço físico) vive o mundo da sétima arte. Cada vez mais, devido ao advento do cinema barulho e comercial, grandes filmes passam longe dos cinemas e repousam nas locadoras e lojas de DVD´s de forma desconhecida, sem pôsteres e em prateleiras nos fundos. Cada vez mais, você, que se julga um verdadeiro fã de cinema, deve bisbilhotar estas prateleiras, pois em alguns momentos cai em suas mãos uma obra como este Sentidos do Amor.

Ignore o título em português que tenta resumir o filme a um romance de Nicholas Sparks e se coloque na presença de uma inebriante obra, que consegue ser um romance, ser um belo filme, sem ser piegas e sem se esbaldar em clichês pré-determinados, infundados e que não enganam mais ninguém. Sentidos do Amor, do diretor escocês David Mackenzie, se utiliza de um mundo pré-apolíptico que vai se “apocaliptizando” ao longo da fita como um pano de fundo para o romance entre um chef (interpretado de forma intensa por Ewan McGregor) e uma epidemiologista (interpretada de forma igualmente forte por Eva Green). O mais interessante é o modo como o diretor desenvolve o romance e o coloca à prova dos acontecimentos ao redor do casal. Conforme o mundo vai desmoronando, o romance se enraíza, ultrapassando o simples amor romântico e se tornando praticamente um escape para toda a tragédia que os envolve no que toca ao restante de suas vidas.

O romance se desenvolve em meio a uma epidemia, que após acessos extremos de um determinado tipo de emoção (dor, raiva entre outros) gera a perda de um dos sentidos do ser humano, algo que inicia com o olfato, vai para o paladar e segue seu curso, sem qualquer vislumbre de cura ou de explicação para tudo aquilo. A grande sacada de Sentidos do Amor é não cair no caminho mais fácil de “embelezar” uma tragédia, somente pelo fato de a mesma propiciar (ou conviver com) a existência de um grande amor. Mesmo nos momentos mais belos do romance entre os dois, o clima da fita é sombrio, drástico e extremamente soturno, resultado de uma fotografia acinzentada, lúgubre e que parece expelir fuligem ao longo de toda a fita. A trilha sonora é precisa, e o roteiro consegue escapar (outro grande mérito) de momentos “songs of love” carregados e que tentam forçar um grande amor. Mackenzie acerta a mão, nos brinda com enquadramentos e cenas maravilhosas (com destaque para a união do casal, na imagem que estampa o pôster do filme no início deste texto) e constrói tanto um romance quanto uma catástrofe que segue seu curso de força extremamente natural, triste, porém natural, de tal forma, que no momento em que amor entre os protagonistas se torna o centro, você aceita e torce por isto, tamanha a simpatia que se adquire pelo amor do casal, mediante à tristeza do restante. Se um grande romance é aquele em que torcemos pelo casal principal, os momentos finais da fita corroboram a ideia e te fazem sentir o impacto deste surpreendente filme.

Da mesma forma que outros filmes que, por mais que tenham diferenças, seguem a mesma linha de tendência, como Ensaio Sobre a Cegueira, A Estrada e Não Me Abandone Jamais, o pessimismo e a dureza do filme podem não agradar muitas pessoas, pois a esperança aparece em pequenos detalhes, sendo que estes muitas vezes se mostram pouco seguros, contudo, é inegável o tom de qualidade, de audácia e de originalidade deste ótimo filme, que não estreou nos cinemas brasileiros e que corre o risco de nunca receber o reconhecimento que merece. Enquanto Crepúsculos e comédias estúpidas banalizam o amor e enchem de besteira a cabeça daqueles que vão ao cinema, Sentidos do Amor passa despercebido, chegando apenas às mãos daqueles que buscam um pouco mais no cinema do que mero entretenimento. Em resumo, se você ainda não sabe o que assistir no próximo fim de semana, ou no seu próximo fim de noite, aceite minha dica e capte toda a beleza desta incrível obra. Imperdível.


(Perfect Sense de David Mackenzie, Alemanha/Dinamarca/Reino Unido/Suécia - 2011)



NOTA: 9,0

terça-feira, 13 de março de 2012

CASSINO


Uma das mais aclamadas obras do mestre Scorsese é uma descida aos abismos do mundo pobre e desregrado não só da famosa Las Vegas, mas de todo o circuito envolvido em um mundo muito mais profundo que meras jogatinas e promiscuidades.

Cassino acompanha o desenrolar, o enrolar, o desenrolar e o enrolar de novo e assim sucessivamente de personagens envolvidos em tal meio, explorando suas idiossincrasias e exemplificando com formulações diferentes de cada um dos personagens, quais são os tipos de seres aos quais se transformam àqueles totalmente embrenhados deste âmbito e tudo aquilo que o mesmo pode proporcionar. Assim sendo, encontramos chefões de jogos e máfias, prostitutas, cafetões, simples apostadores, corruptos e por aí vai, todos eles analisados e apresentados com as características estéticas scorsesistas da potencial capacidade bestial do homem.

Scorsese consegue como ninguém, buscar e expor a capacidade que o homem tem de se tornar simplesmente uma besta, e explora tais elementos com uma inteligência única, se apoiando em elementos de temática violenta, porém que nunca se afastam de um forte realismo, por mais que em alguns momentos este realismo seja um pouco exagero. A câmera de Scorsese é sempre muito bem centrada e o desenvolvimento do roteiro é brilhante, por mais que demore alguns minutos acima do recomendável para funcionar. Além disso, estão presentes aqui o exótico gosto de Scorsese por figurinos exagerados e aquela perturbadora fotografia em tons avermelhados que parece nos impulsionar para dentro do ambiente do Cassino mesmo quando lutamos contra tal força.

Mesmo com seu habitual talento para dirigir e contar histórias de tal envergadura, nada funcionaria tão bem quanto funciona se não fosse o ótimo elenco. Robert DeNiro deve toda sua carreira a Scorsese, e aqui está novamente ótimo nas mãos do diretor. Sharon Stone nos mostra a melhor atuação de sua carreira em um papel difícil, porém feito com muita vontade, todavia o destaque maior vai para Joe Pesci, outro que cresce nas mãos de Scorsese, que nos brinda com uma atuação fenomenal e cheia de entusiasmo.

Cassino não é o melhor filme de Scorsese, mas desde sempre circulou entre os grandes, algo mais que merecido. Como filme propriamente dito já é um gigante, agora, como estudo do comportamento e da formalização humana, Cassino é mais uma obra-prima deste gênio do cinema chamado Martin Scorsese. Imperdível.


(Casino de Martin Scorsese, EUA/França - 1995)


NOTA: 8,5

terça-feira, 6 de março de 2012

NAPOLEON DYNAMITE


Tentar rotular ou simplesmente encaixar Napoleon Dynamite em padrões comuns do cinema é uma tarefa no mínimo dura e criteriosa. A originalmente comédia de Jared Hess acompanha a vida de Napoleon, um estudante do meio-oeste americano preso em um mundo de certo modo geek e que não consegue se relacionar em nada, mais absolutamente nada fora disso, melhor dizendo, sua dificuldade de relacionamento de transpõe até mesmo a membros daquilo que seria o seu meio, porém com algumas diferenças; em resumo, um jovem extremamente excêntrico e preso em si mesmo e em seu mundo particular. As coisas mudam um pouco, quando ele conhece Pedro, um clássico adolescente mexicano que migrou para os EUA. Clássico tanto na maneira, quanto no perfil que o filme dá ao personagem.

Em primeiro momento, Napoleon Dynamite parece uma comédia de adolescente de jargões comuns e pouco inventividade; contudo ao longo da fita o negócio descamba para um estilo muito diferente, que pode causar estranheza em muita gente, porém inegavelmente original. Com toques de drama, e poucas cenas realmente engraçadas (a melhor delas é com certeza quando Napoleon se apresenta para a campanha de seu amigo Pedro para presidente dos estudantes), Napoleon Dynamite apóia-se muita mais na ideia de ser diferente do que necessariamente ser engraçado, e o resultado final depende da inserção do espectador neste movimento do filme. Em outras palavras, muito mais que gostar de comédia, para gostar de Napoleon Dynamite você deve gostar de comédias excêntricas, que misture humor negro, muitas vezes sutil, toques de escatologia e abra mão, em sua grande parte, daquele humor explícito e vulgar da maioria das comédias atuais deste gênero.

A direção de Hess também é diferente para este tipo de filme. Ele usa muita mais elementos de road movie do que de comédia. A fita é repleta de planos vazios, e a câmera de Hess normalmente fica estática esperando as ações dos personagens passarem por ela. Se no roteiro a inovação de Hess ajuda a fita, na direção nem tanto. O filme perde agilidade, o que para uma comédia é algo ruim, e temos uma fita muitas vezes lenta e de pouca explosão, algo que faz com que seus curtos 82 minutos pareçam bem mais tempo.

As atuações são ótimas e constroem os estereótipos (claramente proposital) de forma impressionantemente precisa, além de um intrigante trabalho de direção de arte, maquiagem e figurino de incrível mau gosto (também proposital). A trilha sonora em alguns momentos muito dura, faz seu papel, mas também colabora para o elemento road movie do filme.Além disso, tenho outra colocação: eu entendo que o fato de o filme se passar em Idaho merece tal aspecto, mas minha pergunta é se a fita precisava potencializar tanto o aspecto caipira da região, por assim dizer, algo que às vezes me soa um pouco exagerado demais (pois exagerado o filme já é por si só).

No final das contas, Napoleon Dynamite é um filme interessante, original e com boas sacadas, todavia, confesso que, devido a algumas opiniões que já ouvi sobre o mesmo eu esperava um pouco mais. É bom, porém nada fora de série como muitos dizem por aí.


(Napoleon Dynamite de Jared Hess, EUA - 2004)


NOTA: 6,5

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

BLOW UP - DEPOIS DAQUELE BEIJO



O primeiro filme do cineasta italiano Antonioni em inglês, Blow up, tornou-se logo uma das referências principais ao se atribuir grandes títulos ao diretor. Apesar do estilo de Antonioni sempre compor seus filmes com sutis, porém profundas críticas à sociedade (burguesa, moderna, etc.), Blow up, apesar de tê-las, vai além, existe algo transcende à simples vivência no mundo como sociedade. Ora, Antonioni vai para um campo de relação percepção-superficialidade.

Explico: num mundo onde o tédio e a angústia, ambos proporcionados pelo dinheiro ou a trivial vida moderna (que no caso, se constitui de uma Londres anos 60, idade de ouro do famoso trio sexo, drogas e rock’n’roll, como é explicitamente abordado no filme, mas não como foco principal, apenas como o contexto básico), existe então um peculiar desespero por se livrar de tais estados, dessa existência, culminando ao homem a ter dificuldades com sua própria realidade, com a sua percepção daquele mundo real (e tedioso), levando-o assim a momentâneos estados de felicidade, mesmo que seja através de estados e situações duvidosas sobre a objetividade da realidade.

Como já se disse, apesar de Antonioni focar neste filme um especial tema sobre percepção e, por que não, estados espúrios ao homem contemporâneo, o diretor parte da vida social (não sem ter uma definida intenção com isto)  em que o protagonista vive: Thomas é um fotógrafo famoso e muito bem de vida, rodeado de modelos sempre todas iguais querendo ser famosas (nas próprias palavras do personagem: vacas), uma realidade  que apesar de parecer muito boa, traz consigo as mesas coisas, as mesmas pessoas, consequentemente, o tédio, a infelicidade de ser/estar. Porém, um dia este estado muda, mesmo que rapidamente, em um momento em que Thomas fotografa duas pessoas se beijando em um parque. A cena para ele é deslumbrante, porém, a mulher que estava sendo fotografada insiste para que Thomas entregasse as fotos, que ninguém as visse. Extasiado com as fotos em mãos, Thomas insiste em revelá-las e ampliá-las (para se fazer jus a expressão blow up utilizada para aumentar fotos ou, num duplo sentido para a película, explosão).

Em um período de êxtase pelas fotografias, analisando-as enquanto se livra de um tédio profundo que se encontra, Thomas começa a enxergar pequenos detalhes nas cenas de suas fotos e então, cada vez mais as ampliando, chaga a conclusão de que há nelas uma cena de um assassinato: visualiza um corpo, um homem com uma arma, a mulher que pedira as fotos com uma aparente preocupação em suas feições. O desenrolar do filme se dá numa bela sequência lacônica sobre Thomas buscar saber mais sobre a situação, um sequência tênue entre o que ele pensa que está acontecendo, e assim, seus momentos interessantes, e o que realmente está acontecendo, o mundo concreto, pois o que sobra para Thomas é a duvida e novamente o tédio. E em nenhum momento o filme deixa transparecer o que realmente é, se há ou não um assassinato, um corpo. O espectador pode tanto comprar a ideia a partir de que Thomas tende achar, quanto a ideia de que não há nada, apenas imaginação, um escape do personagem para um estado mais excitante.

O filme é, então, o conjunto de um roteiro interessante e transposto em cenas que o deixa ainda mais interessante: há no ritmo de Blow Up um ar desinteresseiro e leve, entretanto, com uma temática inteligente e profunda, fazendo-o aqueles típicos filmes que não sai da sua cabeça por dias. E aliado à tudo isso, temos uma fotografia deslumbrante de cada cena, de cada detalhe, com retratos de um Londres fria e nublada e figurinos muito bem colocados; e méritos também da atuação de David Hemmings (como Thomas) que consegue levar o filme muito bem sozinho. Em suma, é um filme que deve ser assistido.


                   (Blow Up, de Michelangelo Antonioni, Inglaterra/Italia - 1966)


NOTA: 9.0

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS


Mulheres... é considerado por muitos o primeiro grande filme do amado diretor Pedro Almodóvar, contudo, é complicado para este ser entender o motivo pelo qual Almodóvar adquiriu o status que adquiriu tão quão é difícil aceitar o rótulo de grande filme para este trabalho ao qual dedicarei algumas linhas a partir de agora.

Almodóvar pode até ter algumas boas sacadas para a construção de argutos roteiros, porém isto o limita ao posto de bom roteirista, pois é nítida a dificuldade que o diretor possui para transpor boas ideais do papel para a telona, transformando-as assim em grandes cenas. O filme é morno, possui um ritmo cambaleante e em alguns momentos muito chato. Sua visão da sociedade espanhola e das mulheres em específico é degradante e seus exageros artísticos são no mínimo exagerados e irritantes a olhos de caráter mais sombreados.

Mulheres... opta por trilhar caminhos que podem ser considerados circenses em alguns momentos. Com seu elemento espalhafatoso no auge, Almodóvar transforma alguns personagens em verdadeiros palhaços com sua hiper-exagerada maquiagem. O táxi que aparece várias vezes no filme é de um mau gosto descomunal, e o tão falado experimentalismo artístico do diretor só aparece no figurino ora interessante, ora igualmente estabanado.

O elenco é o que se mostra mais interessante. Carmem Maura carrega bem o piano no papel de protagonista e constrói uma boa personagem, com audácia e com uma boa dose de equilíbrio quando necessário. Julieta Serrano também se sobressai como Lúcia, apesar de ter seu personagem caricaturado demais na parte final da fita pelos já citados exageros do diretor espanhol. Por outro lado, Maria Barranco sofre com sua Candela, muito mais pela fraca consistência argumentativa do personagem em si, do que propriamente por uma atuação ruim.

Como já resumidamente adiantado, o roteiro do próprio Almodóvar, é, em linhas gerais, até interessante. Possui uma boa ideia central e alguns bons desdobramentos, contudo, é suplantado pelos maneirismos do diretor e da pouca técnica que o mesmo possui na construção de um filme propriamente dito. De tal modo, Mulheres... torna-se uma boa ideia que quase deu certo, mas acabou se tornando mais frívolo do que deveria ser e menos sério do que deveria ser. Nenhuma boa ideia e nenhuma boa nuance consegue se salvar de uma execução sem punho e de uma imposição barata de psicologismos puramente parnasianos e sem qualquer fundamentação técnica ou até mesmo objetiva. Exagero por exagero, o circo se sai um pouco melhor, mas Almodóvar encontrou um público que aprecia isso e que o transformou naquilo que ele nunca foi e nunca será, ou seja, um bom diretor e fazedor de filmes em geral.

Ao contrário de Woody Allen, por exemplo, que eu respeito e entendo sua importância para a história do cinema, mas que por motivos de gosto pessoal não o dedico tanta admiração, Almodóvar é um fenômeno que eu simplesmente não entendo, e olha que este aqui é, dos filmes do diretor que eu vi aquele que menos me desagrada. Eu juro que tentei, mas pra mim, Almodóvar não dá.


(Mujeres Al Borde De Un Ataque De Nervios de Pedro Almodóvar, Espanha - 1988)



NOTA: 5,0

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A GAROTA IDEAL


Lars, cuja principal característica é uma timidez fora do comum e uma falta de capacidade de viver no meio das pessoas igualmente assombrosa, encontra refúgio em uma boneca de tamanho e feições reais, cujos verdadeiros fins seriam sexuais. Contudo, o personagem de Ryan Gosling (Lars) a assume como real, e passa a tratar a boneca como sua namorada, sem qualquer noção aparente da verdadeira realidade do ser que agora ele acolhe. Bianca (a boneca) não só deixa de ser uma boneca erótica, como passa a ser um membro da família, da comunidade e o principal eixo da vida deste solitário e distorcido jovem.

A sinopse básica de A Garota Ideal não é a grande sacada do filme. O grande aspecto, e aquilo que norteia toda a fita, é a psicologia inserida nas relações entre as pessoas e a boneca. Por ordens da psicóloga de Lars, as pessoas à sua volta passam a aceitar a boneca e a tratá-la como uma pessoa ao invés de repeli-la. A inversão real-ideal transforma uma comédia de poucas pretensões em um filme muito interessante, cheio de boas piadas, completamente não-apelativo e bem original, algo cada vez mais raro no gênero das comédias.

A fita de utiliza de uma psicologia inversa para apresentar o amor incondicional pelas pessoas. Lars é tão querido pela comunidade, que a mesma abraça Bianca com o carinho de um ser humano normal. Com um humor bem brejeiro e aquele de coisa caipira (sem tom pejorativo), vemos o nascer, o desenrolar e o fim de uma relação entre Lars e os outros por intermédio de um ser não - vivo, pelo menos em termos biológicos. Toda a criação de Lars reflete em suas relações, e no final das contas, aparece como um escape do personagem para sua aparente solidão. Logicamente, que um aprofundamento maior no âmbito total da fita nos colocaria em meio a uma análise mais precisa, mas algo aqui me parece nítido, que é a falta de visão que algumas pessoas possuem de sua própria importância. Assim como em A Felicidade Não Se Compra de Frank Capra (dadas às devidas diferenças que não nos cabem neste momento), encontramos um personagem amado pelas pessoas e que se esconde disto, anulando sua crença própria, tanto que é preciso algo externo (ou inventivo interno?) para reviver tal questão.

Em termos mais cinematográficos, A Garota Ideal derrapa na construção de alguns personagens que em alguns momentos se mostram deslocados da realidade da comunidade (o irmão de Lars é um exemplo), mas possui um roteiro leve, gentil e muito gracioso, onde as piadas fluem, e, mesmo sem a existência de gargalhadas, diverte com qualidade e inteligência, algo que é no mínimo digno de nota. O ar de filme independente está por toda a parte, desde as singelas construções cinematográficas até a pouca inspirada parte artística que mesmo podendo ser mais bem fixada, não chega a prejudicar a fita. Gosling está perfeito no papel, e se dedica de forma única a um personagem difícil e cheio de minúcias; contudo acredito que o ator deve ter se divertido como poucos em tal construção.

Talvez a complexidade e as diversas alternativas psicológicas do filme exigissem que eu dedicasse mais tempo à análise desta fita neste espaço, contudo acredito ter resumido bem o contexto da questão; sendo que qualquer outra interpretação ou mais ampla análise fica por conta do espectador, afinal a graça de um filme como este é a geração de tais perspectivas. Uma comédia diferente, inteligente e engraçada, em outras palavras, um ótimo trabalho.


(Lars and the Real Girl de Craig Gillespie, EUA - 2007)



NOTA: 8,0

sábado, 26 de novembro de 2011

LUZ DE INVERNO


Integrante da clássica e aclamada Trilogia do Silêncio do genial cineasta sueco Ingmar Bergman, Luz de Inverno faz uma descida às catacumbas das dúvidas de fé que envolvem um pastor e de certo que envolvem todos aqueles envolvidos em uma pequena cidade da fria Suécia. Através de grandes diálogos, atuações exuberantes e a já conhecidíssima visão cinematográfica de Bergman, Luz de Inverno se mostra uma ótima análise do ser humano perdido e sem confiança nas bases que sempre carregou.

O filme se passa quase todo em ambientes fechados e se apóia na claramente em seu roteiro. Ainda bem, e como já é de praxe, os roteiros dos filmes de Bergman são simplesmente espetaculares (com raras exceções) e Luz de Inverno segue esta tradição. Com diálogos primorosos, inteligentes, sensatos e muito provocativos em alguns momentos (como uma das cenas finais na conversa entre o pastor e um tipo de sacristão que questiona a ênfase da liturgia cristã no sofrimento físico de Jesus em sua paixão), Bergman consegue mais uma vez envolver o espectador em uma análise profunda do ser humano. Como de costume, o diretor sueco se envolve no elemento subjetivo de seus personagens e lida com suas crises existenciais de maneira respeitosa e não como estupidez ou rejeição.

O personagem do pastor é um elemento clássico da história humana, onde temos o rompimento da fé nas bases criantes de si próprio, ou seja, rui-se aquilo que o transforma naquele indivíduo “x” e não “y” provocando uma crise de identidade. Além disso, Bergman se utiliza do escopo geral, para postar uma situação de um mundo sem a figura de Deus, sem a fé, sem a atribulação do divino para guiar a vida humana. Novamente, como ninguém mais conseguiu na história do cinema (com exceção de Tarkovsky talvez), Bergman cria um grande filme em sua parte propriamente cinematográfica, sem esquecer-se dos inseparáveis movimentos filosóficos e existenciais que perturbam e circundam o homem durante toda a sua vida.

Contudo, vale dizer que Bergman pesa a mão como poucas vezes foi visto em sua vasta cinematografia. Luz de Inverno é um desfile de questionamentos, de problemas e de incertezas, o que o transforma em um filme denso, pesado e lento, elemento que converge com a dura paisagem do congelante inverno sueco. Extremamente reflexivo e de assimilação quase nada usual, Luz de Inverno, mais que vários outros filmes do diretor, não é nem um pouco recomendado para se assistir em família como elemento relaxante de uma tarde de domingo ou de uma noite de sábado.

Recomendado apenas para fãs que optam por um cinema não comercial e que conseguem realizar um bom exercício de paciência, Luz de Inverno se mostra como um belo filme, porém com uma função mais questionadora e cognoscente do que propriamente uma função de entretenimento, o que venhamos e convenhamos não é nenhuma novidade levando-se em conta a filmografia de Bergman.


(Nattvardsgästerna de Ingmar Bergman, Suécia - 1963)




NOTA: 8,0

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O CONCERTO


Em 1998, o cineasta romeno Radu Mihaileanu lançava um dos grandes filmes dos anos 90, chamado Trem da Vida, ao qual eu só teria acesso poucos anos atrás. Fato este que contribuiu para meu interesse por este O Concerto, que chegou há pouco tempo no Brasil e colocou em minha mente cinéfila uma nova certeza: eis um diretor que passarei a acompanhar com mais carinho.

O filme parte de um argumento central que beira o absurdo: um ex-maestro da orquestra do Teatro Bolshoi da Rússia, que foi demitido de seu posto junto com sua orquestra pelo governante soviético Leonid Brezhnev por defender músicos judeus, “rouba” um fax do diretor do Teatro Châtelet em Paris que convidava a orquestra do Bolshoi para um concerto. Sem comunicar a verdadeira orquestra do Bolshoi o “Maestro” reunirá novamente sua orquestra e partirá para a França.

Mihaileanu constrói uma falsa sinopse, já que no fundo este elemento de confusão do filme é o pano de fundo para uma história terna e sensível sobre o poder da música, o poder da perseverança e em alguns momentos até uma fixação pela perfeição que beira a loucura. Além disso, temos um elemento de “grito de liberdade” inserido no filme que pode até passar despercebidos a olhos mais desatentos, mas que flutua por ali com um sussurro de todos os povos (incluindo os russos) que foram oprimidos e martirizados pela antiga União Soviética. O retorno do antigo Bolshoi destituído pela antiga URSS entre outros aspectos é uma clara alusão de povos que ainda estão se levantando e se reerguendo depois de um longo período de queda e sofrimento.

Deve-se, entretanto uma leve ressalva; já que para construir a sua história Mihaileanu não tem nenhum pudor em se apoiar por situações em alguns momentos muito coincidentes, ou seja, tudo acontece perante muitas coincidências, e sem muita construção lógica, no sentido pragmático da coisa. Além disso, o flerte com situações espalhafatosas e algumas cenas que beiram a “comédia pastelão” pode fazer com que o espectador não leve esta obra tão a sério como ela merece, já que, por mais que a mesma seja uma comédia e goste disso, seu fundo de seriedade é de muito brilho e até mais presente do que a própria comédia. Mesmo assim, Mihaileanu não perde a mão e constrói um filme que é sério, trata de um assunto sério, mas se caracteriza como comédia, pois suas veias cômicas se convergem entre as cenas, criando mesmo entre o absurdo e o espalhafatoso algo correto.

O elenco é excelente, a trilha sonora é simplesmente monumental, o trabalho artístico é muito detalhado mesmo que na maioria do tempo discreto e a construção do argumento, mesmo com certos desvios para o inusitado com fundo de comédia, é bem formulado e possui um grande mérito ao optar pelo simples é um momento crucial do filme, ao invés de tentar uma reviravolta tão comum atualmente, que se espera o segundo e não o primeiro, o que torna o final da fita até certo ponto incomum, porém muito feliz do ponto de vista da construção argumentativa.

Entretanto, até este momento, O Concerto se encaixaria como aquele bom trabalho que cumpria seu papel muito bem, mas sem aquele “algo mais” dos grandes filmes, fato que começa a mudar faltando cerca de catorze minutos para seu término. A cena final (que eu não vou contar, lógico) é simplesmente uma das melhores cenas que eu vi nos últimos anos. Ao som do Concerto para violino e orquestra em Ré Maior, Op. 35 de Tchaikovsky, Mihaileanu passeia com sua câmera, amarra todos os pontos do roteiro e finaliza seu filme de uma maneira simplesmente majestosa, intercalando passado e presente em um belíssimo trabalho de edição. O diretor romeno insere uma dose tão grande de sentimento aqui, que é impossível não se extasiar com o que se passa na tela. São quase catorze minutos daquilo que o cinema pode nos proporcionar de melhor e de mais prazeroso. O filme em si já valeria seu dinheiro, mas o final é com certeza a garantia de um bom investimento. Um bom filme com um majestoso final. Mihaileanu mostra de vez que é um grande diretor e em O Concerto ainda vem acompanhado de Tchaikovsky, o que me leva a realizar a seguinte pergunta: Você ainda tem alguma dúvida de qual será o seu próximo filme?


(Le Concert de Radu Mihaileanu - Bélgica/França/Itália/Romênia/Rússia, 2009)



NOTA: 8,5

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O FANTASMA DA ÓPERA


Um dos musicais de maior sucesso da história da Broadway e uma das histórias mais conhecidas e admiradas em todo o mundo, O Fantasma da Ópera, baseado no livro de Gastón Leroux, aproveitou-se do efeito Moulin Rouge na indústria dos musicais para tentar causar o mesmo impacto, ou pelo menos tentar transpor, com qualidade, um sucesso dos palcos para a telona. Dirigido por um Joel Schumacher (conhecido por assassinar Batman em dois filmes, onde um é bem fraco e o outro uma grande piada, entre outros) acima da média, mas com atuações pífias e um roteiro extremamente superficial, a versão musical na telona bate na trave e sai em tiro de meta, deixando o grito de gol para uma próxima oportunidade.

A influência de Luhrmann é visível, tanto na condução de Schumacher quanto na construção argumentativa e cenográfica, não se limitando apenas a Moulin Rouge, mas buscando elementos até de outros filmes do diretor australiano como o original Romeu + Julieta. Buscar respaldo em coisas boas, normalmente traz coisas boas, e isso se repete aqui, já que Schumacher se supera e surpreende na direção. Enquanto os atores surpreendem pela frieza nas cenas, Schumacher enche a tela com uma paixão nunca vista anteriormente em seus filmes. A câmera pulsa o tempo todo, e em alguns momentos parece até tentar gerar um efeito de desfibrilador para galvanizar a falta de vontade de seu elenco. Se O Fantasma da Ópera possui algo de surpreendente e de vibrante, com certeza é a direção de Schumacher, como exemplo, é só tomarmos a melhor cena do filme, um baile de máscaras sensacional com bailarinos e ótimos cantores interpretando a clássica Masquerade do musical original.

Além disso, Schumacher possui o respaldo de um bom figurino, uma trilha sonora excelente (o que é essencial para um musical) e uma fotografia estupenda, lamenta-se apenas o fato de o restante do filme ser exatamente o oposto do esforço do diretor. A cenografia, por exemplo, é extremamente exagerada e em alguns momentos destoa totalmente do ideal central da fita.

O elenco principal, escolhido a dedo pela capacidade de cantar, se mostra uma escolha ruim na parte interpretativa, fazendo com que tenhamos bons cantores que não conseguem unir esta qualidade com uma boa interpretação. Patrick Wilson (que já é ruim por natureza) atua de forma robótica e não consegue causar nenhuma emoção e nenhuma simpatia no espectador. Emmy Rossum brilha na tela devido ao já citado ótimo trabalho de fotografia e a uma boa utilização de luzes e sombras por parte de Schumacher, mas apesar disso, e apesar de cantar muito bem, está totalmente apática e sem vida no papel. As cenas entre Raoul (Wilson) e Christine (Rossum) são incrivelmente inertes e desprovidas de qualquer emoção. No papel do Fantasma, Gerard Butler (que ficaria famoso posteriormente por sua interpretação do rei espartano Leônidas em 300) é o “menos pior” do elenco de protagonistas, porém, isso se deve muito mais aos seus atributos físicos que ajudam na criação do personagem do que pela sua capacidade de atuar; mesmo assim, as cenas entre Christine e o Fantasma são mais interessantes e fortes do filme.

O roteiro, outro ponto baixo do filme, patina muito, e não consegue desenvolver nenhuma relação entre os personagens, transformando o esforço de Schumacher, em sua maioria, num emaranhado de relações mal explicadas, mal construídas e mal desenvolvidas. Com diálogos fracos, e passagens complicadas para um filme cantado em pelo menos 90% de seu andamento, o roteiro peca por apostar no elemento auto-explicativo das canções, pois por mais que as mesmas exerçam bem seus papéis, as amarras entre elas, é função da construção argumentativa, e isto simplesmente não acontece, ou seja, sem amarras, tudo parece um monte de capítulos sem conexões e sem funcionalidades fazendo com que o império da superficialidade se assente ali e praticamente não exista uma linha condutora de andamento.

Muito se esperava desta adaptação, que se mostra interessante em alguns aspectos, porém muito pecadora em outros. No final das contas, uma história como esta, com a fama que tem e com o charme que tem, merecia algo um pouco mais satisfatório no campo dos musicais (afinal, existem outras várias adaptações de O Fantasma da Ópera, das quais algumas se mostram muito interessantes). Não é um filme ruim, mas poderia ser bem melhor, ainda mais se levando em consideração o potencial artístico e público que a história possui intrinsecamente.

 
(The Phantom Of The Opera de Joel Schumacher, EUA/Inglaterra- 2004)
 
 
NOTA: 6,0

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

MELANCOLIA


A imaginação do polêmico diretor dinamarquês Lars Von Trier parece não conhecer muito bem a palavra “limite”. Depois de atormentar mentes e espalhar simbolismos e movimentos bruscos em seu “Anticristo”, Von Trier retorna com este drama/ficção sobre duas irmãs que de repente passam a conviver com a ideia de que um planeta chamado Melancolia poderá colidir com a Terra causando a destruição do mesmo. Se Melancolia não possui o mesmo ocultismo e o mesmo caráter polêmico de Anticristo, ele se mostra um filme muito mais maduro, e até mesmo mais fácil de interpretar, pois ao contrário de seu trabalho anterior, Melancolia é mais aberto a interpretações precisas, além de abandonar um pouco todo aquele subjetivismo arraigado de Anticristo.

Segundo o filósofo holandês Baruch de Espinosa, a melancolia é o sentimento triste que mais se aproxima da morte, pois representa o estado máximo da não-potência de vida, ou seja, o melancólico abandona toda potencialidade para a vida alegre e se embanha em tristeza profunda. Sendo assim, é claro que Von Trier nomeia o planeta de melancolia para mostrar que ela é a responsável pelo estado de espírito de seus personagens, ou pelo menos, a materialização dela. De tal modo, e mais precisamente na segunda parte do filme, temos claramente três personagens que convivem e possuem três claras características que se apresentam mediante a possibilidade “melancólica” de construção, ou seja, em uma situação de destruição, de melancolia, de niilismo (no sentido etimológico da palavra), existem três possibilidades de se comportar, onde temos: o otimista (Kiefer Sutherland) que não aceita a situação até o momento em que ela se mostra empiricamente real, e que propositalmente no filme é o primeiro a morrer; a desesperada (Charlotte Gainsbourg) que simplesmente “entra em parafuso” só com a possibilidade do fim de tudo, e toma atitudes impensadas e que se mostram inúteis e a conformada e pessimista (Kirsten Dunst) que aceita o fim e termina seus dias vivendo a melancolia que o mesmo proporciona. Todavia, Von Trier, com seu pessimismo habitual, parece querer dizer que independente de sua posição, o fim é o mesmo. Uma vida melancólica é a resposta a um mundo melancólico e que acabará de modo melancólico.

A primeira parte do filme é dedicada à construção do personagem melancólico, onde, em uma noite, a personagem de Dunst deixa o emprego, o marido e quase toda a família por não encontrar sentido em tudo aquilo, isso por que se tratava da noite de seu casamento. A sacada de Von Trier é brilhante, pois se utiliza daquele que é considerado um dos maiores momentos de felicidade dos homens (o casamento), para a partir dele, mostrar a pateticidade e o vazio da vida humana. A melancolia e a personagem que a representa estão prontas para a sequência da fita.

Tecnicamente, o filme segue as linhas mais atuais de Von Trier, com aquela fotografia cintilante e brilhante na linha tarkovskyana, câmera quase sempre na mão, com aquela aproximação e aqueles ângulos inclinados que o diretor usa muito bem, cenas marcantes e fortes (como a cena final que é espetacular) e uma trilha sonora contrastante, no caso de Melancolia a utilização do tema de Tristão e Isolda de Richard Wagner, que ao mesmo tempo acompanha o filme e o distancia da mesmice linear. Entretanto, Von Trier parece mais concentrado e consegue unir tudo isto e ligá-los ao roteiro de uma forma muito mais incisiva e contundente que seus últimos trabalhos, o que transforma Melancolia no melhor filme do diretor desde a dupla Dançando no Escuro/Dogville.

O elenco carrega o piano de forma excepcional, com destaque para a inspirada interpretação de Dunst que encontra aqui o melhor papel de sua carreira e para sua companheira de elenco Gainsbourg, que novamente se destaca pelo feeling que dedica ao personagem e pela incrível capacidade de atuação principalmente em cenas extremas e de forte embarco dramático. O elenco de apoio é muito bom e conta com nomes como John Hurt e o ótimo Stellan Skarsgard, além de um Kiefer Sutherland surpreendente, em uma atuação muito acima da sua baixa média habitual.

Polêmico ou não, excêntrico ou não, sádico ou não, a verdade é que Von Trier é fácil, um dos mais inspirados, criativos e originais cineastas da atualidade, fato que torna cada filme seu um espetáculo a parte, esbanjando inteligência e instiga no espectador. Melancolia é um exercício cinematográfico e intelectual de grandioso nível, o que o candidata seriamente a uma das vagas entre os melhores filmes de 2011, provando mais uma vez o descomunal talento que Von Trier possui para criar filmes, ou melhor, para criar obras-primas.


(Melancholia de Lars von Trier, Alemanha/Dinamarca/França/Suécia - 2011)


NOTA: 9,5

terça-feira, 18 de outubro de 2011

AS 10 CENAS QUE EU DEVO ASSISTIR ANTES DE MORRER - Pt1

Para que o Pablão não chegue aos finalmentes e literalmente me mate por deixar de contribuir com o blog resolvi voltar com as 10 cenas que mais gosto no cinema, aquelas que consigo assistir cinqüenta vezes sem que elas percam o efeito de novidade. Faço isso até por uma necessidade de catálogo, para guardá-las no celular como kit de sobrevivência contra eventuais acidentes aéreos, principalmente aquelas catástrofes que deixam a gente como único sobrevivente numa ilha deserta. A principio postaria todas juntas, mas como escrever o pouco e o mínimo não está entre as minhas principais qualidades literárias será uma cena por vez mesmo.


10. La Dolce Vita (Federico Fellini, 1960)



Poucas cenas são tão gostosas de assistir quanto da belíssima Anita Ekberg subindo um rodopio de escadas em “La Dolce Vita”. Nesta ela interpreta Sylvia – uma atriz americana de sucesso em excursão por Roma – que desperta uma paixão dessas de deixar cansado no Marcelo Mastroianni. E faz isso com uma liberdade selvagem de floresta, de criança, de chuva em janela de quarto, de jabuticaba fruta mascada no pé, de sonho bom, se rindo toda rouca ao galgar cada degrau pretendido. Os homens, os paparazzi, os sorveteiros, os jornaleiros, os correntistas que lhe perseguiam nesta fantástica jornada vão desistindo um a um, vencidos pela energia dessa mulher de infinitas tempestades. Anita, mais do que beleza em cabelos loiros cor-de-prata, transbordava a virtude essencial da própria vida: era livre. “Carpe Diem”, uma frase que os próprios romanos repetiram incansavelmente em seus momentos gloriosos, parecia existir somente neste momento de mundo e apenas para descrevê-la por entre as avenidas e azaléias da cidade museu.

A despedida de sua personagem é talvez a maior quebra de mitos do cinema: ao voltar para o hotel com Mastroianni ela encontra na calçada o namorado violento embriagado que, balbuciando qualquer coisa, lhe dá uma bofetada na cara. Anita então transforma o rosto. O tempo parece engatilhar pois seu coração dispara décadas. O corpo adquire o cansaço de corpo, está finalmente entregue à dura passagem dos anos, a dura passagem dos amores, a dura passagem das tragédias e saudades desses amores. E por de trás daquela criatura que aparentava ser genuinamente livre e incontrolavelmente feliz surge uma mulher submissa, triste, sem romance e principalmente humana. Desaparece a atriz, a baita gostosa inconquistável, a deusa onírica de todos os momentos anteriores. O frágil castelo de cartas construído meteoricamente em torno dela é soprado e rompido. Ao vê-la correndo humilhada para o saguão do hotel Mastroianni, que antes a devorava em cada olhar e suspiro, sorri com um profundo carinho para nunca mais reencontrá-la. Muitos (para não dizer todos) consideram “La Dolce Vita” um retrato da decadência e da superficialidade humana, mas particularmente nunca o encarei dessa forma. No final somos todos mais tímidos, gagos, solitários, perdidos, inseguros e tristes que aparentam estas fantasias que os outros vestem na gente. Descobrir isso não é descobrir a decadência no outro, mas o motivo para vida ser tão doce quando se está junto de qualquer pessoa.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

VENCER


Obra de cunho político com elementos de biografia, que perpassa praticamente duas décadas da conturbada Itália do início do século passado, traçando trejeitos que vão desde a Primeira Guerra, Tratado de Latrão até o ápice da ditadura fascista de Benito Mussolini, tudo isto sob a ótica e o olhar de Ida Dalser, controversa personagem da contemporânea história italiana, por seu caso com o ditador supracitado. Vencer inicia-se na década de 10 quando Mussolini ainda era um jovem ativista do partido socialista que se inclinava à frente de barricadas e confrontos citando frases batidas de Bakunin e Proudhon com a esperança de criar um país melhor. Após isso, presenciamos as alterações na vida do futuro ditador até sua atualização na função máxima de um país e todo o entrave de seu caso com Ida.

Escandaloso ou não, a verdade é que Ida foi responsável pelos primeiros passos de Mussolini em uma realidade maior que um simples idealismo jovem pautado na rebeldia e na visão utópica de “um mundo melhor”. Por mais que Ida tenha se apaixonado por este furor e por esta jovialidade de Mussolini, foi em forma de casal que os dois deixaram a fantasia e passaram para a realidade e Vencer traça tal movimento, passando de um amor vibrante para uma dura realidade de perdas e sofrimento. Eu em particular, aprecio muito este tipo de cinema documental que alterna cenas fictícias com imagens de época reais, e especialmente o diretor Marco Bellocchio acerta ao abrir mão de um Mussolini personagem a partir do momento em que o mesmo passa da posição de ativista para ditador supremo. A partir deste momento, toda imagem que temos de Mussolini na fita são reais e representam o verdadeiro ditador de apelido Duce. Como se não bastasse Bellocchio ainda é muito feliz na recriação da época e utiliza muito bem as luzes e sombras, criando em alguns momentos um clima meio sombrio para as situações.

O roteiro bem aguçado, duro e forte, alterna uma acronologia com um elemento jornalístico muito preciso, fazendo com que a fita exija do espectador uma atenção constante e em alguns momentos até desgastante. Contudo, o resultado final é muito bom, e a união entre ficção e documentário, entre roteiro de pauta e periódico (com direito a manchetes no centro da tela e em efeitos de aproximação e desaparecimento entre outros) forma um contexto conciso, tornando Vencer um dos melhores momentos do cinema italiano dos últimos tempos. Cenas brilhantes e magistrais desfilam pela tela, como a conversa frente a frente entre Ida e os médicos psiquiatras e freiras, o enquadramento costal perfeito como momento de solidão da personagem Ida enquanto a mesma se encontra desolada “pendurada” nas grades do manicômio onde está internada, ou ainda o momento em que Ida assiste ao filme O Garoto de Chaplin e desaba em lágrimas por se identificar com a película.

O elenco é formidável, com uma ótima atuação de Giovanna Mezzogiorno como Ida em uma personagem difícil, e um trabalho perfeito de Filippo Timi interpretando Mussolini como jovem e seu filho em posteridade. Timi se destaca nos discursos e no modo como capta os trejeitos do ditador e os reproduz com fineza, algo que pode ser verificado no próprio filme a partir do momento em que as cenas reais do ditador perpassam nossa retina e corroborando o nosso ponto acima colocado.

Um filme que de certo modo já nasceu cult, ainda mais por tratar de um tema nebuloso e pouco explorado, e fazer isto de uma forma original e muito interessante. Um trabalho forte, bonito e muito bem conduzido, que mesmo se alongando um pouco demais, consegue preencher todas as lacunas e responder a todas as perguntas a que se propõe. Para uma pessoa que não se considera um apreciador nem do cinema italiano e nem do cinema francês (a fita é uma co-produção dos dois países), encontrar uma boa produção como este é bem raro, mas de vez em quando acontece.


(Vincere de Marco Bellocchio, França/Itália - 2009)


NOTA: 8,5

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O MISTÉRIO DE NATALEE HOLLOWAY


Em maio de 2005, ao fazer uma viagem de férias junto com suas colegas do recém finalizado Colegial (Ensino Médio para nós aqui) pela ilhota de Aruba, conhecido recanto de férias, jogos e diversões (lícitas ou não) para turistas, a jovem estadunidense de dezenove anos Natalee Holloway simplesmente desaparece depois de sair embriagada de uma festa na companhia de três rapazes recém-conhecidos pela mesma. Tem-se início então um dos maiores e mais intrigantes casos de desaparecimento dos últimos anos, caso que se arrasta até os dias de hoje, sem uma conclusão precisa, um culpado firme, e até mesmo sem a localização do corpo da jovem, ou da própria jovem, já que a mesma não foi dada como morta pelas autoridades americanas (coincidentemente, li uma notícia esta semana de que o pai da jovem pediu para que a filha fosse declarada oficialmente morta).

O desaparecimento da jovem é envolto a mistérios, histórias, conspirações e falsas certezas, vindo da família ou até mesmo das autoridades. A verdade, é que devido ao não “achamento” do corpo da mesma pouca coisa de concreto se tem. O Mistério de Natalee Holloway é baseado em um livro escrito pela mãe da jovem, que além de contar o seu drama pessoal, tem certo caráter de auto-ajuda (pelo menos baseado nas informações que eu tive, pois eu não li o livro). O primeiro problema já está descrito logo acima: o filme não possui uma intenção com a verdade nua e crua, ou mesmo com uma investigação firme do caso, mas com a visão de uma mãe, ou seja, parcial.

Minha intenção aqui não é distorcer e nem ficar de acordo com o crime, agora é nítido que existe um endeusamento da desaparecida e uma visão puritana da mesma, que não condiz com uma jovem que deixa as amigas para entrar em um carro com três desconhecidos em um lugar desconhecido. O filme insinua claramente, por exemplo, que Natalee foi drogada pelos três rapazes, fato que nunca foi comprovado, entre outros aspectos.

Bom, não tenho a intenção de realizar um debate do caso, ou até mesmo passar mais informações sobre o mesmo, pois não é a proposta do meu texto, sendo assim, passarei a análise do filme propriamente dito, e para adiantar um pouco a carroça, ela não tem como ser muito positiva.

A fita falha em convergir o argumento real com a ficção; quero dizer o seguinte, os bons filmes baseados em fatos reais, normalmente possuem uma preocupação quase que intrínseca ao mesmo, de mostrar ao espectador que, mesmo baseado em uma história real, existe uma dramaticidade excessiva utilizada para o andamento do filme; coisa que aqui não acontece. O filme é muito, mas muito lateral. Não possui nenhuma intenção de reaver suas premissas, e desfila dramalhotes sem qualquer pudor. O mistério de Natalee Holloway quer claramente enfiar por osmose no espectador a ideia de um crime hediondo, e isentar a jovem de qualquer parcela de culpa, seja esta causada por frivolidade e vontade da mesma, ou até mesmo por uma inocência imaculada. Em resumo, o filme é ideológico, e baseia sua ideologia em uma pedra solta.

O filme tem baixo orçamento e é nitidamente independente, o que traz várias limitações técnicas, desde uma fotografia um pouco tímida, até uma utilização de cenários e iluminações muito ruins. O elenco é inexperiente e muito fraquinho, e conta com uma atuação simplesmente irritante de Tracy Pollan no papel da mãe de Natalee que se desespera para encontrar a filha. O negócio é tão forte, que você não se comove com o drama da mãe, mas pega aversão à mesma, tamanha sua imprudência e inocência, assim como pelos exageros da atuação de Pollan.

O Mistério de Natalee Holloway já nasceu determinado e se ruir. O único ponto que o filme poderia ter de interessante, que é a história do desaparecimento e uma investigação sobre o mesmo é inibido por um argumento frágil e parcial, baseado em uma visão que não convence muito, e que em alguns momentos aporrinha o espectador de um modo até bem forte. Crime a parte, problemas policiais a parte, famílias envolvidas a parte, o desaparecimento de Natalee Holloway, por se tratar de um dos grandes casos policiais dos últimos, merecia algo um pouquinho melhor. Sejamos sinceros, algo bem melhor.


(Natalee Holloway de Mikael Salomon, EUA - 2009)


NOTA: 3,5

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

MAURICE


Romance de época que retrata a descoberta da homossexualidade e da própria sexualidade em si de um jovem estudante inglês, e em posteridade adulto, do início do século XX. O filme é dirigido por James Ivory, após o grande sucesso de seu Uma Janela Para O Amor, e segue linhas bem específicas, ou seja, segue uma caminhada em torno da organização e proliferação dos ideais e das burocracias da sociedade3 inglesa da época.

Muito mais que tratar de preconceito ou do diferente, Ivory foca na descoberta, na apropriação de algo difícil como parte de si mesmo e na admoestação da situação por parte do próprio personagem e do geral onde o mesmo vive. O desenrolar início parece seguir um caminho mais romântico, onde o foco seria mais a relação entre dois personagens e não a descoberta de um em si, fato que se altera com o desenrolar da fita, mostrando que na verdade o filme é sobre Maurice e não Maurice e seus agregados por assim dizer.

Os filmes de Ivory, por adentrarem de forma muito forte na forma da sociedade inglesa da época acima colocada, acaba quase sempre tomando para si a frieza própria desta mesma sociedade, em outras palavras, os filmes de Ivory quase sempre não envolvem o espectador na trama, e o deixa meio deslocado. Maurice não é muito diferente. Toda aquela pompa, aquele “nariz empinado” da sociedade inglesa do início do século passado está muito bem retratado ali, com figurinos belíssimos, uma fotografia estupenda, cenografia de encher os olhos entre outros aspectos, que por mais que comunguem bem o contexto do filme são puramente técnicos. Todavia, se compararmos com os outros filmes de Ivory, Maurice pulsa melhor e tem mais expressão, fato que é feito de carona com a grande atuação de James Wilby no papel do protagonista.

O segundo, todavia se mostra negativo, já que Maurice peca no roteiro. O detalhismo e preciosismo de Ivory na parte técnica e na direção não se repetem no tratamento do roteiro. Maurice atropela algumas situações, não explora muito bem alguns aspectos importantes para o filme (como o despertar do romance entre Maurice e Clive, personagem de Hugh Grant), e não se aproveita de boas e originais sacadas, como os quadros e situações que envolvem a hipnose. O romance da parte final entre Maurice e Scudder (muito bem interpretado pelo jovem Rupert Graves) é como um galho separado, e no final das contas não condiz com o bom realismo que a fita constrói ao longo de suas primeiras partes. A temática homossexual está bem em foco atualmente, o que pode gerar um ressurgimento desta obra de Ivory, pouco conhecida no Brasil, mas não altera o modo um pouco intelectual como a película vê a questão. Em Maurice, o homossexualismo, em vários momentos, aparece muito mais como escape do tradicionalismo, do que como opção sexual propriamente dita.

No final das contas, Maurice é um filme bem palatável, entretanto, falta-lhe aquilo que separa os filmes comuns dos grandes filmes, aquele “boom’ que espanta e que choca o espectador, gerando um grande problema, já que Ivory possuía todos os ingredientes na mão e não soube usá-los. Assim sendo, por mais forte que algumas de suas reflexões possam soar, por mais atual que sua temática seja e por mais que tecnicamente o filme beire à perfeição, Maurice não consegue superar o status de “mais um”, e se segura através de elementos periféricos enquanto que os cabais deixam um pouco a desejar.


(Maurice de James Ivory, Reino Unido - 1987)



NOTA: 6,5