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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O GATO DE BOTAS


Criado pelo francês Charles Perrault no longínquo ano de 1697, o Gato de Botas sempre foi símbolo de lealdade e coragem. Contudo, não é este gato precisamente o assunto deste pequeno texto. Neste caso, o personagem central é aquele simpático mosqueteiro felino que apareceu pela primeira vez no segundo filme da franquia Shrek e que (seguindo a tendência da animação) ganhou um trabalho próprio. A Dreamworks não perdeu tempo e criou um ambiente bem favorável àquele que talvez seja seu mais carismático personagem.

O tom amarelado no melhor estilo Garfield está de volta, juntamente com seu figurino de tendências dumasianas com toques de Zorro e aquele sotaque de Don Juan que combina perfeitamente com um timbre de voz sedutor; não há como negar, o bichano é um charme só e possui um inigualável carisma. Tal caráter é extremamente explorado pelo filme, o que nos leva a afirmar claramente a seguinte premissa: se fosse um filme solo de um personagem diferente o resultado teria beirado o catastrófico.

O enredo da animação é pouco inspirado e se utiliza de outra fábula (João e o Pé de Feijão) para se formar. Falta inspiração para mudar um pouco o curso das coisas, o que torna o roteiro previsível demais. O vilão (que se “desvilaniza” depois) é um personagem incrivelmente chato. O ovo Humpty Dumpty (personagem também tirado de obras literárias infanto-juvenis e de mensagens folclóricas e culturais) é construído de tal forma que nos vemos diante de um dos mais intragáveis (no mau sentido) e desinteressantes personagens da animação recente.

Se o vilão e o roteiro fazem com que o filme derrape de forma muito forte, seu protagonista consegue segurar um pouco do outro lado da corda. Principalmente no início, ou seja, antes daquele ovo chato aparecer, o filme é uma boa piada atrás da outra, levando o espectador a momentos de puro riso. Quando foca no Gato o filme cresce, quando ele divide a tela com o ovo sua presença sofre uma ofuscação com a chatice de seu companheiro. Em suma, O Gato de Botas é um cabo de guerra disputado pelo carisma e a simpatia de seu protagonista contra a chatice do personagem Humpty Dumpty e a pobreza de roteiro. Para alegria, principalmente das crianças, o Gato vence mais uma, e conta com isso com uma sensacional trilha sonora e com coadjuvantes menores até interessantes como a gata Kitty Pata-Mansa e como um gato que só aparece de olhos arregalados e assustado com o que vê, soltando sempre um sonoro “oooohhhhh”.

Uma animação com grandes defeitos, mas que os supera calcados na força de seu protagonista. É óbvio que o filme poderia ter sido bem melhor, ainda mais por ter como protagonista um personagem tão carismático, todavia, O Gato de Botas cumpre o seu papel, tornando-se um bom entretenimento e um ótimo programa para crianças e para adultos que desejam relaxar e dar boas risadas.


(Puss In Boots de Chris Miller, EUA - 2011)


NOTA: 6,5

domingo, 25 de dezembro de 2011

A PELE QUE HABITO

Almodóvar revive o personagem do “cientista maluco” em um conto sobre a crueza e a dureza da busca pela vingança e do encontro de uma identidade própria. O resultado, assim como quase todos os filmes do diretor espanhol, é um filme superficial e banalizante, com um pequeno agravante: falta originalidade, ao contrário do que muitos andam dizendo por aí.

A Pele Que Habito é um Frankenstein moderno, não apenas no contexto geral da história, mas também pelos vários elementos de outros filmes e diretores usados por Almodóvar. Na parte artística, é possível notar sinais de Greenaway e de Hitchcock. Na condução e produção do contexto, temos elementos de O Segredo dos Seus Olhos. Contudo, o argumento central em si, a produção argumentativa, mesmo que com algumas diferenças, já foi abordada pelo cinema. Georges Franju com seu Os Olhos Sem Rosto e John Frankenheimer com seu O Segundo Rosto, já trataram da obsessão pela reformulação plástica, das conseqüências de tais movimentos e dos malefícios e benefícios de tais elementos. Por mais que se possa argumentar que tal situação é apenas um ponto de partida e que no fim geram consequências diferentes, a tão falada originalidade de Almodóvar perde um pouco de seu sentido.

Além disso, o roteiro tem vários buracos e situações que não se sustentam. Como (no caso do personagem de Banderas) uma vingança se torna uma paixão? Como a personagem Jan/Vera perde em apenas seis anos qualquer traço de masculinidade, já que qualquer pessoa um pouco mais atenta sabe que a coisa não é tão simples, o que torna a aceitação do argumento um nítido exercício de boa vontade. A frivolidade da película ganha força neste aspecto, já que na concepção de Almodóvar homens e mulheres se caracterizam apenas pelo elemento biológico, ou seja, para o fútil diretor espanhol a principal característica do homem é ter um pênis e realizar a penetração, enquanto que da mulher é ter uma vagina e ser penetrada. Confesso que eu não me surpreendo com tal concepção, pois tratamos aqui de um diretor que não possui capacidade intelectual para um vislumbre mais detalhado da existência humana, contudo fica a minha pergunta ao espectador: Como um ser que é seqüestrado, tem seu corpo todo alterado incluindo seu sexo e é mantido em cativeiro, não possui sequer nenhum conflito interno ou qualquer reação humana? Tudo é muito banal, além de ser sempre mantido no âmbito corpóreo-biológico sem qualquer intenção de profundidade.

O personagem de Antonio Banderas é o Macaco Louco. Com claras alusões ao personagem central de A Centopéia Humana, o ator espanhol constrói um homem sem propósitos e que se utiliza de sua técnica por puro exercício de masturbação. Movido inicialmente por vingança, o médico vivido por Banderas, em posteridade, se apaixona por sua criação com uma esfarrapada desculpa de “reconstruir” sua esposa morta e de aparência semelhante, contudo é nítido que o jogo aqui se firma do egoísmo de sua técnica, ou seja, é um homem sem humanidade e que se utiliza do corpo dos outros para louvar sua própria frivolidade. Não há esse elemento de busca de identidade que alguns colocam, e A Pele Que Habito é um movimento de Síndrome de Estocolmo com sadismo puramente vulgar, assim como várias de suas cenas.

Acho válida a tentativa de Almodóvar de mudar de gênero e se renovar, mesmo com a nítida dificuldade que o diretor possui nas cenas de suspense. O elenco, mesmo com um roteiro cambaleante se sai bem e pulsa bem os aspectos básicos da história. Outro bom aspecto da fita é a inebriante e funcional trilha sonora que mescla com muita capacidade vários gêneros da arte sonora.

A verdade é que Almodóvar novamente depende da boa vontade de seus ortodoxos fãs, pois A Pele Que Habito deixa a desejar quando analisamos o resultado final de seu conjunto. Ao tentar inserir simbolismos e reflexões em seu filme, o diretor espanhol só escancarou o quão superficial ele é; me deixando com a sensação de que talvez esteja aí o motivo pelo qual o mesmo é tão adorado pelo público atual. 


(La Piel Que Habito de Pedro Almodóvar, Espanha - 2011)



NOTA: 4,5

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

INDICADOS AO GLOBO DE OURO 2012!


Saíram os indicados ao Globo de Ouro 2012 e como é de praxe, quase nenhum filme estreou no Brasil ainda, sendo assim, e por meios alternativos, conforme for assistindo publicarei comentários por aqui, como já fiz com Meia-Noite em Paris por exemplo. Enquanto isso, segue a lista dos indicados:


Melhor filme - Drama:

"Os descendentes"
''Histórias cruzadas"
''A invenção de Hugo Cabret"
''Tudo pelo poder"
''O homem que mudou o jogo"
''Cavalo de guerra"

Melhor filme - Musical ou Comédia:

"50/50"
''The artist"
''Missão Madrinha de Casamento"
''Meia-noite em Paris"
''My week with Marilyn."

Melhor ator - Drama:

George Clooney, "Os descendentes"
Leonardo DiCaprio, "J. Edgar"
Michael Fassbender, "Shame"
Ryan Gosling, "Tudo pelo poder"
Brad Pitt, "O homem que mudou o jogo"

Melhor atriz - Drama:

Glenn Close, "Albert Nobbs"
Viola Davis, "Histórias cruzadas"
Rooney Mara, "O homem que não amava as mulheres"
Meryl Streep, "A dama de ferro"
Tilda Swinton, "Precisamos falar sobre o Kevin"

Diretor:

Woody Allen, "Meia-noite em Paris"
George Clooney, "Tudo pelo poder"
Michel Hazanavicius, "The artist"
Alexander Payne, "Os descendentes"
Martin Scorsese, "A invenção de Hugo Cabret"

Melhor ator - Musical ou Comédia:

Jean Dujardin, "The Artist"
Brendan Gleeson, "O guarda"
Joseph Gordon-Levitt, "50/50"
Ryan Gosling, "Amor a toda prova"
Owen Wilson, "Meia-noite em Paris"

Melhor atriz - Musical ou Comédia:

Jodie Foster, "Carnage"
Charlize Theron, "Jovens adultos"
Kristen Wiig, "Missão Madrinha de Casamento"
Michelle Williams, "My week with Marilyn"
Kate Winslet, "Carnage"

Melhor ator coadjuvante:

Kenneth Branagh, "My week with Marilyn"
Albert Brooks, "Drive"
Jonah Hill, "O homem que mudou o jogo"
Viggo Mortensen, "Um método perigoso"
Christopher Plummer, "Beginners"

Melhor atriz coadjuvante:

Berenice Bejo, "The artist"
Jessica Chastain, "Histórias cruzadas"
Janet McTeer, "Albert Nobbs"
Octavia Spencer, "Histórias cruzadas"
Shailene Woodley, "Os descendentes"

Melhor filme em língua estrangeira:

"The flowers of war"
''In the land of blood and honey"
''O garoto da bicicleta"
''A separação"
''A pele que habito"

Melhor filme de animação:

"As aventuras de Tintin: O segredo do Licorne"
''Operação Presente"
''Carros 2"
''Gato de Botas"
''Rango"

Melhor roteiro:

Woody Allen, "Meia-noite em Paris"
George Clooney, Grand Heslov e Beau Willimon, "Tudo pelo poder"
Michel Hazanavicius, "The artist"
Alexander Payne, Nat Faxwon e Jim Rash, "Os descendentes"
Steven Zaillian e Aaron Sorkin, "O homem que mudou o jogo"

Trilha sonora original:

Ludovic Bource, "The artist"
Abel Korzeniowski, "W.E."
Trent Reznor e Atticus Ross, "O homem que não amava as mulheres"
Howard Shore, "A invenção de Hugo Cabret"
John Williams, "Cavalo de guerra"

Melhor canção original:

"Hello hello" (música de Elton John, letra de Bernie Taupin), "Gnomeu e Julieta"
"The keeper" (música e letra de Chris Cornell), "Redenção"
"Lay your head down" (música de Brian Byrne, letra de Glenn Close), "Albert Nobbs"
"The living proof" (música de Mary J. Blige, Thomas Newman, Harvey Mason Jr., letra de Mary J. Blige, Harvey Mason Jr., Damon Thomas), "Histórias cruzadas"
"Masterpiece" (música e letra de Madonna, Julie Frost, Jimmy Harry), "W.E."

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

OS GAROTOS PERDIDOS


Ser uma obra representante de um comportamento ou de uma maneira de vida de uma determinada época tem seus benefícios e seus malefícios. Nos benefícios inclui-se a sempre admiração daqueles que conviveram com tal comportamento, isso para citar apenas um, enquanto que nos malefícios, encontra-se o fato, sempre um pouco incômodo do rótulo de que “o filme envelheceu”. Os Garotos Perdidos abraça estes dois aspectos, contudo, consegue se manter um pouco acima dos benefícios e inibir um pouco os malefícios.

Não falamos aqui de uma grande obra de arte, nem sequer falamos de um grande filme, mas mexemos com um representante de uma das mais peculiares juventudes de todos os tempos, a dos anos 80. Ex-hippies, jovens aventureiros, jaquetas de couro, cabelos arrepiados alinhados a maquiagens às vezes rudes às vezes sutis, mas quase sempre presente, rebeldia e sentimentalidade contrastando o tempo todo, vampiros cruéis e maldosos (ao contrário da geração atual dos purpurinados seres da floresta) e aquele pseudo hard rock eletrizado pautado na utilização de baterias eletrônicas e teclados estridentes; todos estes aspectos entre outros estão na obra de Joel Schumacher e estiveram presentes durante muito tempo no imaginário dos jovens que viveram em tal época.

Ser cult é ser aclamado e adorado por grupos de pessoas e possuir sua marca através deste mesmo público, sem necessidade de perfeição técnica ou artística; logo Os Garotos Perdidos é cult, e dos grandes ainda. O filme gira em torno de uma mãe divorciada e seus dois filhos, quando estes se mudam para uma cidade costeira nos EUA famosa pela quantidade de crimes que ali se passam. Contudo, o motivo não são pessoas comuns, mas uma gangue formada por vampiros. O problema começa quando o filho mais velho desta mãe solteira (interpretada por Dianne Wiest) se torna um iniciante deste grupo. A partir deste argumento, que é até bem morninho, Schumacher consegue desenvolver um bom filme, respeitoso com a geração e com os estereótipos que ali aparecem. Sua direção, apesar do peso habitual, é consciente e encaixada. O roteiro possui situações bem estúpidas e apela para formulações exageradas (como os irmãos caçadores de vampiros e seus comportamentos fortes que terminam em fraqueza e piadas), mas é agradável no estilo ímpar com que constrói a história dos personagens e os relacionamentos entre os mesmos. A trilha sonora tem um efeito meio enevoado e consegue criar um bom clima de horror e suspense, sempre aliada ao bom uso das luzes e dos efeitos visuais (a névoa misteriosa que surge em várias cenas do filme ganha o maior crédito desta parte).

Todavia, não é preciso um olhar muito apurado para perceber que o filme deu uma envelhecida. A agitação inofensiva, o romance puritano, o palavreado e o estilo propriamente dito já não fazem mais parte de nenhum cotidiano, menos ainda da juventude atual. As músicas do filme soam muito antigas, assim como a caracterização dos próprios vampiros, que nos dias atuais possuem sua literatura clássica suprimida por concepções menos maléficas, por assim dizer. Em outras palavras, no atual “público alvo”, Os Garotos Perdidos passa batido, e sobrevive apenas na nostalgia daqueles que o vivenciaram ainda em épocas de juventude. É um filme fadado ao esquecimento e que passará a fazer parte apenas de coleções e de estantes de saudosistas da sétima arte e da contracultura underground. Assistir a Os Garotos Perdidos é literalmente um exercício de nostalgia. 

Não chega a ser um representante clássico do horror e nem da mitologia vampiresca, afinal o filme não assusta e nem chega a gerar sensações angustiantes, algo tão necessário aos filmes do gênero; porém é um bom e divertido passatempo, que se tornou cult e ainda sobrevive com pernas próprias, mesmo que estas estejam cada vez mais curtas. 




(The Lost Boys de Joel Schumacher, EUA - 1987)




NOTA: 6,5

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

BLOW UP - DEPOIS DAQUELE BEIJO



O primeiro filme do cineasta italiano Antonioni em inglês, Blow up, tornou-se logo uma das referências principais ao se atribuir grandes títulos ao diretor. Apesar do estilo de Antonioni sempre compor seus filmes com sutis, porém profundas críticas à sociedade (burguesa, moderna, etc.), Blow up, apesar de tê-las, vai além, existe algo transcende à simples vivência no mundo como sociedade. Ora, Antonioni vai para um campo de relação percepção-superficialidade.

Explico: num mundo onde o tédio e a angústia, ambos proporcionados pelo dinheiro ou a trivial vida moderna (que no caso, se constitui de uma Londres anos 60, idade de ouro do famoso trio sexo, drogas e rock’n’roll, como é explicitamente abordado no filme, mas não como foco principal, apenas como o contexto básico), existe então um peculiar desespero por se livrar de tais estados, dessa existência, culminando ao homem a ter dificuldades com sua própria realidade, com a sua percepção daquele mundo real (e tedioso), levando-o assim a momentâneos estados de felicidade, mesmo que seja através de estados e situações duvidosas sobre a objetividade da realidade.

Como já se disse, apesar de Antonioni focar neste filme um especial tema sobre percepção e, por que não, estados espúrios ao homem contemporâneo, o diretor parte da vida social (não sem ter uma definida intenção com isto)  em que o protagonista vive: Thomas é um fotógrafo famoso e muito bem de vida, rodeado de modelos sempre todas iguais querendo ser famosas (nas próprias palavras do personagem: vacas), uma realidade  que apesar de parecer muito boa, traz consigo as mesas coisas, as mesmas pessoas, consequentemente, o tédio, a infelicidade de ser/estar. Porém, um dia este estado muda, mesmo que rapidamente, em um momento em que Thomas fotografa duas pessoas se beijando em um parque. A cena para ele é deslumbrante, porém, a mulher que estava sendo fotografada insiste para que Thomas entregasse as fotos, que ninguém as visse. Extasiado com as fotos em mãos, Thomas insiste em revelá-las e ampliá-las (para se fazer jus a expressão blow up utilizada para aumentar fotos ou, num duplo sentido para a película, explosão).

Em um período de êxtase pelas fotografias, analisando-as enquanto se livra de um tédio profundo que se encontra, Thomas começa a enxergar pequenos detalhes nas cenas de suas fotos e então, cada vez mais as ampliando, chaga a conclusão de que há nelas uma cena de um assassinato: visualiza um corpo, um homem com uma arma, a mulher que pedira as fotos com uma aparente preocupação em suas feições. O desenrolar do filme se dá numa bela sequência lacônica sobre Thomas buscar saber mais sobre a situação, um sequência tênue entre o que ele pensa que está acontecendo, e assim, seus momentos interessantes, e o que realmente está acontecendo, o mundo concreto, pois o que sobra para Thomas é a duvida e novamente o tédio. E em nenhum momento o filme deixa transparecer o que realmente é, se há ou não um assassinato, um corpo. O espectador pode tanto comprar a ideia a partir de que Thomas tende achar, quanto a ideia de que não há nada, apenas imaginação, um escape do personagem para um estado mais excitante.

O filme é, então, o conjunto de um roteiro interessante e transposto em cenas que o deixa ainda mais interessante: há no ritmo de Blow Up um ar desinteresseiro e leve, entretanto, com uma temática inteligente e profunda, fazendo-o aqueles típicos filmes que não sai da sua cabeça por dias. E aliado à tudo isso, temos uma fotografia deslumbrante de cada cena, de cada detalhe, com retratos de um Londres fria e nublada e figurinos muito bem colocados; e méritos também da atuação de David Hemmings (como Thomas) que consegue levar o filme muito bem sozinho. Em suma, é um filme que deve ser assistido.


                   (Blow Up, de Michelangelo Antonioni, Inglaterra/Italia - 1966)


NOTA: 9.0

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS


Mulheres... é considerado por muitos o primeiro grande filme do amado diretor Pedro Almodóvar, contudo, é complicado para este ser entender o motivo pelo qual Almodóvar adquiriu o status que adquiriu tão quão é difícil aceitar o rótulo de grande filme para este trabalho ao qual dedicarei algumas linhas a partir de agora.

Almodóvar pode até ter algumas boas sacadas para a construção de argutos roteiros, porém isto o limita ao posto de bom roteirista, pois é nítida a dificuldade que o diretor possui para transpor boas ideais do papel para a telona, transformando-as assim em grandes cenas. O filme é morno, possui um ritmo cambaleante e em alguns momentos muito chato. Sua visão da sociedade espanhola e das mulheres em específico é degradante e seus exageros artísticos são no mínimo exagerados e irritantes a olhos de caráter mais sombreados.

Mulheres... opta por trilhar caminhos que podem ser considerados circenses em alguns momentos. Com seu elemento espalhafatoso no auge, Almodóvar transforma alguns personagens em verdadeiros palhaços com sua hiper-exagerada maquiagem. O táxi que aparece várias vezes no filme é de um mau gosto descomunal, e o tão falado experimentalismo artístico do diretor só aparece no figurino ora interessante, ora igualmente estabanado.

O elenco é o que se mostra mais interessante. Carmem Maura carrega bem o piano no papel de protagonista e constrói uma boa personagem, com audácia e com uma boa dose de equilíbrio quando necessário. Julieta Serrano também se sobressai como Lúcia, apesar de ter seu personagem caricaturado demais na parte final da fita pelos já citados exageros do diretor espanhol. Por outro lado, Maria Barranco sofre com sua Candela, muito mais pela fraca consistência argumentativa do personagem em si, do que propriamente por uma atuação ruim.

Como já resumidamente adiantado, o roteiro do próprio Almodóvar, é, em linhas gerais, até interessante. Possui uma boa ideia central e alguns bons desdobramentos, contudo, é suplantado pelos maneirismos do diretor e da pouca técnica que o mesmo possui na construção de um filme propriamente dito. De tal modo, Mulheres... torna-se uma boa ideia que quase deu certo, mas acabou se tornando mais frívolo do que deveria ser e menos sério do que deveria ser. Nenhuma boa ideia e nenhuma boa nuance consegue se salvar de uma execução sem punho e de uma imposição barata de psicologismos puramente parnasianos e sem qualquer fundamentação técnica ou até mesmo objetiva. Exagero por exagero, o circo se sai um pouco melhor, mas Almodóvar encontrou um público que aprecia isso e que o transformou naquilo que ele nunca foi e nunca será, ou seja, um bom diretor e fazedor de filmes em geral.

Ao contrário de Woody Allen, por exemplo, que eu respeito e entendo sua importância para a história do cinema, mas que por motivos de gosto pessoal não o dedico tanta admiração, Almodóvar é um fenômeno que eu simplesmente não entendo, e olha que este aqui é, dos filmes do diretor que eu vi aquele que menos me desagrada. Eu juro que tentei, mas pra mim, Almodóvar não dá.


(Mujeres Al Borde De Un Ataque De Nervios de Pedro Almodóvar, Espanha - 1988)



NOTA: 5,0

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

MEIA-NOITE EM PARIS


Tudo parecia caminhar rumo a uma fase assombrosa para o outrora gigante Woody Allen. O diretor acumulava fracassos e filmes de baixa qualidade, sendo estes admirados apenas por aqueles tocados por alguma nuance do mesmo, ou pela insistência em um ídolo do passado. Todavia, um dos grandes divertimentos do cinema é a capacidade que ele proporciona a diretores, atores e envolvidos na construção geral dos filmes de retornar ao auge, ou pelo menos de proporcionar aquela clássica “volta por cima”. Meia-Noite em Paris é a volta por cima de Allen.

A fita é leve, deslizante e muito redondinha, o que beira um elemento sublime em seus pontos mais apoteóticos. O roteiro de Allen é muito inspirado e se transforma no ponto alto do filme com uma originalidade e astúcia dignas das grandes obras do já consagrado diretor. Owen Wilson faz uma espécie de roteirista comercial que almeja se tornar um “escritor de verdade” e está em Paris de passagem com sua noiva interpretada por Rachel McAdams. Todo dia, ao soar da meia-noite, o personagem de Wilson se transporta para a Paris dos anos 20, onde encontrará célebres personalidades da época, além de um novo amor. Se a ideia em si já é original e interessante, imagine a mesma desenvolvida de forma concisa e cheia de mecanismos de admiração.

Allen se utiliza deste roteiro para realizar um questionamento sobre o descontentamento humano com o seu presente e a conseqüente admiração de um passado não-vivido. A proposta de Allen se mostra simples: a vida é insuficiente, e como o futuro é incerto, buscamos aquilo que nos falta, em um passado que admiramos. Tal elemento, segundo Allen, não é especificidade do homem do século XXI, mas de todos os homens, basta ver, que no filme, conhecemos homens dos anos 2000 que preferem os anos 20, pessoas dos anos 20 que preferem o final do século XIX e outros do final do século XIX que preferem a época da Renascença, em outras palavras, o problema do homem é a insuficiência de seu presente.

Concordando ou não com esta tese, é difícil não se maravilhar com um diálogo entre Hemingway e Fitzgerald, com a dica do personagem de Owen Wilson para o jovem Luís Buñuel na criação de um filme, com um eufórico Dalí ou com uma mesa de bar no final do século XIX onde se encontram juntos nada mais nada menos que Toulouse-Lautrec, Paul Gauguin e Edgar Degas. Allen brinca com o tempo de uma forma impressionante até mesmo para seus não-fãs e consegue levar o espectador a todas as épocas de uma forma muito interessante, além de apresentar seus respectivos personagens de forma resumida (afinal estamos falando de um filme e não de um livro de história de Paris), porém muito cativante.

Entre seus defeitos, Meia-Noite em Paris peca um pouco na superficialidade das relações entre os personagens, possui uma trilha-sonora um pouco enjoativa e se esquece de alguns personagens ao longo de sua duração, sendo que estes poderiam acrescentar bastante à trama, casos do próprio Dalí de Adrien Brody ou do “pedante” Paul do sempre ótimo Michael Sheen. Owen Wilson empresta aqui uma grande atuação, muito acima do seu próprio talento nato e Kathy Bates enche a tela de graciosidade com sua ótima Gertrude Stein, para destacar apenas dois do elenco, que no geral está muito bem.

Os fãs de Allen estão vibrando com este filme, e não por acaso, já que este é o melhor trabalho do diretor em muitos anos, o que nos faz pensar na seguinte questão: Seria Woody Allen um ex-diretor em atividade que ainda possui lampejos esparsos de talento ou seria Woody Allen um gigante que passou por uma longa má fase? Bom, esta é uma pergunta que apenas os próximos filmes do diretor responderão, nos restando apenas esperar.


(Midnight in Paris de Woody Allen, EUA/Espanha - 2011)




NOTA: 8,5

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A GAROTA IDEAL


Lars, cuja principal característica é uma timidez fora do comum e uma falta de capacidade de viver no meio das pessoas igualmente assombrosa, encontra refúgio em uma boneca de tamanho e feições reais, cujos verdadeiros fins seriam sexuais. Contudo, o personagem de Ryan Gosling (Lars) a assume como real, e passa a tratar a boneca como sua namorada, sem qualquer noção aparente da verdadeira realidade do ser que agora ele acolhe. Bianca (a boneca) não só deixa de ser uma boneca erótica, como passa a ser um membro da família, da comunidade e o principal eixo da vida deste solitário e distorcido jovem.

A sinopse básica de A Garota Ideal não é a grande sacada do filme. O grande aspecto, e aquilo que norteia toda a fita, é a psicologia inserida nas relações entre as pessoas e a boneca. Por ordens da psicóloga de Lars, as pessoas à sua volta passam a aceitar a boneca e a tratá-la como uma pessoa ao invés de repeli-la. A inversão real-ideal transforma uma comédia de poucas pretensões em um filme muito interessante, cheio de boas piadas, completamente não-apelativo e bem original, algo cada vez mais raro no gênero das comédias.

A fita de utiliza de uma psicologia inversa para apresentar o amor incondicional pelas pessoas. Lars é tão querido pela comunidade, que a mesma abraça Bianca com o carinho de um ser humano normal. Com um humor bem brejeiro e aquele de coisa caipira (sem tom pejorativo), vemos o nascer, o desenrolar e o fim de uma relação entre Lars e os outros por intermédio de um ser não - vivo, pelo menos em termos biológicos. Toda a criação de Lars reflete em suas relações, e no final das contas, aparece como um escape do personagem para sua aparente solidão. Logicamente, que um aprofundamento maior no âmbito total da fita nos colocaria em meio a uma análise mais precisa, mas algo aqui me parece nítido, que é a falta de visão que algumas pessoas possuem de sua própria importância. Assim como em A Felicidade Não Se Compra de Frank Capra (dadas às devidas diferenças que não nos cabem neste momento), encontramos um personagem amado pelas pessoas e que se esconde disto, anulando sua crença própria, tanto que é preciso algo externo (ou inventivo interno?) para reviver tal questão.

Em termos mais cinematográficos, A Garota Ideal derrapa na construção de alguns personagens que em alguns momentos se mostram deslocados da realidade da comunidade (o irmão de Lars é um exemplo), mas possui um roteiro leve, gentil e muito gracioso, onde as piadas fluem, e, mesmo sem a existência de gargalhadas, diverte com qualidade e inteligência, algo que é no mínimo digno de nota. O ar de filme independente está por toda a parte, desde as singelas construções cinematográficas até a pouca inspirada parte artística que mesmo podendo ser mais bem fixada, não chega a prejudicar a fita. Gosling está perfeito no papel, e se dedica de forma única a um personagem difícil e cheio de minúcias; contudo acredito que o ator deve ter se divertido como poucos em tal construção.

Talvez a complexidade e as diversas alternativas psicológicas do filme exigissem que eu dedicasse mais tempo à análise desta fita neste espaço, contudo acredito ter resumido bem o contexto da questão; sendo que qualquer outra interpretação ou mais ampla análise fica por conta do espectador, afinal a graça de um filme como este é a geração de tais perspectivas. Uma comédia diferente, inteligente e engraçada, em outras palavras, um ótimo trabalho.


(Lars and the Real Girl de Craig Gillespie, EUA - 2007)



NOTA: 8,0