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quarta-feira, 23 de maio de 2012

MÁRTIRES



Esforcei-me muito para encontrar este filme de grande fama entre os fãs de cinema de meios mais alternativos e obscuros. Todo este esforço, pensava eu, deveria ser recompensado com um grande filme de horror, algo difícil de imaginar quando verificamos que na verdade Mártires é uma produção francesa, o que por si só, e baseado na história do cinema deste país, parece caracterizar uma contradição embutida. Contudo, a verdade é que após os pouco mais de 90 minutos da fita, esquecemos a questão da nacionalidade e passamos a entender de forma bem clara o motivo de tanta fama e de tanta admiração, já que Mártires é um dos grandes momentos do cinema de horror dos anos 2000.

O cinema europeu nunca foi um grande produtor de filmes de terror (com exceção da Itália, claro), porém, com a grande crise do gênero dos EUA, os europeus resolveram se aventurar por este meio, e alguns conseguem grandes resultados como o espanhol [REC] e este filme aqui, que se utiliza de elementos de tortura e sadismo, porém sem aquele elemento de pura violência de filmes como O Alberque, Os Estranhos ou Violência Gratuita. Em Mártires, muito mais que o simples torturar por prazer, existe um conceito, uma ideia que é utilizada como pretexto e como defesa para tais torturas. Não entrarei em pormenores da discussão sobre a validade e a percepção da ideia que norteia tais procedimentos, pois de tal maneira poderia revelar detalhes do filme que chateariam pessoas com a intenção de assisti-lo, todavia posso afirmar que a ideia é interessante e muito bem colocada, mesmo que em alguns momentos se torne pouco explicada e em outros um pouco acelerada para dar lugar a cenas mais brutas e viscerais.

Mártires possui qualidades raras em filmes de terror. O elenco está muito bem, responde em igual qualidade tanto nas cenas de terror quanto nas cenas com exigência de maior dramaticidade. O arco argumentativo do filme é ótimo e muito bem trabalhado, assim como a intercalação entre passado e presente e as representações alucinógenas dos personagens. Além disso, a brutalidade do filme se dá com pouca escatologia e com muita precisão, utilizando-se muito pouco de elementos de cunho mais gore e focando-se em uma mistura muito bem dosada de terror psicológico e terror físico. O diretor Pascal Laugier consegue desenvolver o argumento de uma forma muito correta, e sua mão pesada é essencial para o clima de sofrimento e de dor constante que o filme tem necessidade de mostrar. Nas cenas finais, ou seja, momentos das revelações chaves da fita, o clima é extremamente perturbador, e a situação da torturada é arrepiante, porém o filme não perde o foco, e continua em sua linha de necessidade deste elemento para o cumprimento de seu objetivo. Muito mais que torturar o espectador, Pascal Laugier consegue impor reflexões sobre as obsessões humanas e os limites práticos de suas buscas. Muito mais que teoria, Mártires mostra o ser humano não se contentando a especulações metafísicas e teológicas e o revela em tentativas práticas de elementos especulativos em sua essência.

Se Mártires possui um defeito, este com certeza é seu trabalho de maquiagem, que em alguns momentos se mostra extremamente falho, tirando toda e qualquer realidade da cena, e a transformando em algo incomodamente superficial, entretanto, optei por ignorar tal aspecto, por se tratar de um filme independente, de baixo orçamento, e que possui preocupações (sendo estas bem desenvolvidas) muito maiores e mais importantes.

Mártires não foi lançado no Brasil, o que dificulta o acesso dos fãs locais ao mesmo, contudo o remake americano (é claro que isto iria acontecer) deve aparecer por aqui para deturpar a obra original e torná-la bem menos potente e interessante, de tal forma, que fica aqui a minha dica: antes de ser infectado pela versão estadunidense, procure na internet ou com colecionadores a versão original e se surpreenda com um grande filme, que consegue superar os sustos baratos e as histórias estúpidas que normalmente caracterizam os filmes do gênero atualmente. Imperdível.


(Martyrs de Pascal Laugier, Canadá/França - 2008)



NOTA: 9,0

domingo, 20 de maio de 2012

DAUNBAILÓ



Cult por excelência, a comédia do famigerado Jim Jarmusch é uma das grandes experiências cinematográficas que vivenciei nos últimos anos. Lembro-me de há muito tempo atrás ter assistido a esta obra, contudo, sem perceber as nuances e toda a preciosidade que hoje, bem mais maduro, consegui perceber, em outras palavras, Daunbailó passou de um filme esquecido em minhas memórias para um de meus favoritos em apenas uma nova chance.

Jim Jarmusch é conhecido principalmente no meio do cinema independente, e famoso por proibir que seus filmes sejam dublados quando lançados em países que não compartilhem da língua original da fita (se todos fossem iguais a Jarmusch...). Aliás, isso evita o espectador de assistir a esta obra dublada e perder o show que Roberto Benigni dá em sua interpretação, marcada principalmente pelo sotaque arrastado da mistura entre um péssimo inglês e um italiano fluente.

A dificuldade em se traduzir ipsis litteris o título original (Down By Law – algo como derrubados pela lei, ou algo assim), levou a distribuidora brasileira a “aportuguesar” o título, daí então saiu este neologismo Daunbailó, que no final das contas não significa nada e não antecipa absolutamente nada sobre o filme. Zack e Jack são dois homens um pouco perdidos da vida, que um dia vêem suas vidas terem uma grande reviravolta quando acabam presos em armadilhas. Na prisão, os dois acabam conhecendo Roberto, um imigrante italiano acusado de homicídio. Os três então resolvem fugir da penitenciária e começam a vagar a procura de uma nova vida.

É impressionante o modo como Jarmusch consegue moldar o tema de “prisão e fuga” de uma forma totalmente nova e empolgante. Mesmo as cenas trancafiadas nas celas da prisão são de uma gentileza e de uma esperteza acima da média. O grande trunfo para isso é a mão sutil e precisa de Jarmusch que sabe dosar muito bem comédia e o drama vivido pelos personagens, o aguçadíssimo roteiro, cheio de grandes diálogos e excelentes passagens (a cena em que Roberto - Roberto Benigni - sozinho realiza um monólogo enquanto assa um coelho em uma fogueira a beira de um pântano, relembrando sua família e seus tempos na Itália é hilário e totalmente impagável) e um elenco ótimo e bem adaptado aos personagens. Conhecido por A Vida é Bela e por seu escândalo ao receber o Oscar, Roberto Benigni nos brinda aqui com sua melhor atuação, merecendo, novamente neste texto, mais um elogio deste que vos escreve.

O preto e branco do filme é muito bem construído, e carrega consigo um tom de nebulosidade na vida dos personagens, afinal nada do que acontece com eles é muito colorido. Além disso, a colaboração do preto e branco deixa a obra de Jarmusch com uma beleza poética poucas vezes vista; como exemplo, temos o desfecho, filmado com o olho do espectador por Jarmusch enquanto os personagens seguem seus caminhos.

Muito mais que uma grande comédia, Daunbailó é um grande filme, e completamente obrigatório para qualquer fã de cinema. Acompanhar Jarmusch em um de seus melhores momentos guiar um Benigni extremamente inspirado na construção de uma obra muito bem apurada e que consegue ser única é algo que não escolhe momento e nem situação, simplesmente serve de qualquer forma.


(Down By Law de Jim Jarmusch, Alemanha/EUA - 1986)


NOTA: 9,0

segunda-feira, 14 de maio de 2012

NOITE DE ANO NOVO



Já faz algum tempo que várias comédias românticas tem apostado em uma fórmula básica: várias pequenas histórias, envolvendo vários personagens, que às vezes se cruzam e outras não e que possuem um elemento ou uma base argumentativa central, que norteia e que, muitas vezes de modo indireto, situa as ações de toda a proposta escrita do filme. Noite de Ano Novo é o mais novo (pelo menos até onde eu saiba) representante desta turma, que entre umas e outras, não produz grandes filmes, mas se mostra até mais interessante que a pieguice comum dos outros tipos de comédias de caráter romantizado.

Este tipo de comédia romântica funciona sobre alguns centros de força bem claros: o carisma das pequenas histórias, a capacidade do diretor de entrelaçar e dosar o quanto de tempo e de espaço cada uma destas histórias ocupará na trama e o quanto o elemento central interfere nestas mesmas histórias. Em Noite de Ano Novo, o elemento central é o fato de todos os personagens estarem envolvidos em algum tipo de sentimento, bom ou ruim, em relação à passagem do ano. Assim sendo, dentro deste âmbito, vários personagens e várias histórias se desenrolarão, sendo algumas boas e outras nem tanto. Entre as boas histórias, a minha favorita é a disputa entre dois casais para vencer um prêmio em dinheiro para o primeiro bebê a nascer no novo ano, se mostrando ao mesmo tempo engraçada e com um desfecho bonito e terno sem ser bobo. Além disso, destaco também a interessante química entre Ashton Kutcher e Lea Michele, que de modo sutil, acaba funcionando; o casal formado por Jon Bon Jovi (o próprio) e Katherine Heigl, o bom desempenho de Hilary Swank e a presença daquele talento natural, na pessoa de Robert De Niro, que somente os grandes atores possuem. Por outro lado, Sarah Jessica Parker continua um saco de atriz, o casal formado por Zac Efron e Michelle Pfeiffer (com uma atuação de peixe morto) é um porre e suas cenas são chatíssimas, além de Abigail Breslin como uma adolescente azucrinantíssima acompanhada de uma horrenda maquiagem.

A direção de Garry Marshall (o mesmo de Uma Linda Mulher e outras bobagens) é dosada e sabe intercalar bem as histórias, sem deixar que algumas sumam por muito tempo ou que outras apareçam demais, mesmo assim, algumas sub tramas poderiam ter sido melhor exploradas, como a da personagem de Halle Berry, que acaba ficando muito deslocada e a da relação entre os personagens de Robert De Niro e Hilary Swank, tornando-a muito periférica e sem o devido respeito. Ao terminar o filme, minha namorada inquirida por mim sobre sua opinião em relação ao tal me respondeu da seguinte forma: “para um domingo a tarde está bom”; e é exatamente isso que Noite de Ano Novo é um bom filme de entretenimento para aqueles momentos em que o espectador só busca relaxar. Não é um grande filme e muito menos uma obra inovadora, porém, não é melosa, nem apelativa e não subestima a inteligência do espectador, o que para uma comédia romântica atual já é um grande lucro. Se você  não se incomoda com este tipo de mais do mesmo e procura algo leve e sem grandes pretensões no mundo artístico e cinematográfico, este aqui lhe satisfará sem problema algum.


(New Year´s Eve de Garry Marshall, EUA - 2011)


NOTA: 5,0

segunda-feira, 7 de maio de 2012

FOOTLOOSE



Footloose – Ritmo Louco de 1984 é juntamente com vários outros filmes, incluindo outros do gênero mais voltado para o musical, um claro representante da juventude dos finais dos anos 70, dos anos 80 e das idiossincrasias da mesma. Peculiar como poucas outras épocas (talvez no máximo a juventude dos 50), a juventude acima citada era cheia de rebeldia e possuía um apreço por mudanças e vivências que moldaram grande parte das conquistas posteriores dos próprios jovens, e se, a juventude dos anos 90 (minha geração), não conseguiu dar prosseguimento a esta formulação foi por uma clara mudança de paradigma da própria sociedade que já não exigia tanta rebeldia, ou que a transformou em algo piegas. Fiz toda esta introdução, pois é exatamente neste aspecto o principal problema desta pífia refilmagem do clássico dos anos 80, ou seja, a juventude não precisa e, principalmente não quer e não se identifica com um Footloose.

Se nos anos 80 a dança e a música ainda representavam uma ala da juventude, e os mesmos viam nela uma chance de libertação, atualmente, quem olha para o cenário proposto pelo filme, se acalenta e se apega muito mais aos argumentos “arcaícos” dos líderes da pequena Bomont do que ao dos jovens. Pode parecer preconceito ou velhice precoce, mas com exceção de algumas danças que ainda se mostram como formas de arte e expressão corporal, a maioria das mesmas é pura depravação e o filme, infelizmente, acaba por escorregar aqui. A ideia de Footloose funcionou há quase 30 anos atrás, mas não funciona mais, fazendo com que o filme se torne desnecessário, despropositado e principalmente, frívolo e estúpido. O mérito que o filme tem de se manter, em grande parte, fiel ao original, é um tiro no pé, pois Footloose envelheceu, e se mantém vivo apenas através do saudosismo e da nostalgia nos fãs, não através de suas próprias qualidades.

Como se não bastasse os problemas acima listados que são de ordem muito mais subjetiva, vamos aos problemas objetivos do filme, e estes são muitos. As cenas de dança são bem filmadas e coreografadas, até que sim; os atores dançam bem, assim como os apoios, claro, afinal são bailarinos, mas isso, para um filme que se pretende musical e quase que uma ode à dança é o básico do básico, mas e o restante? O filme tem cerca de 110 minutos, sendo que destes a minoria são cenas de dança. No momento em que os atores tem que atuar ao invés de dançar, a falta de talento é gritante. Na atual cena cinematográfica, encontrar atores completos como havia antigamente, que sabiam cantar, dançar, atuar e coisa assim é coisa rara, ainda mais entre jovens, assim sendo houve a opção de escalar bons dançarinos que são péssimos atores. Repare na cena em que a protagonista (Julianne Hough) tem que dramatizar em uma conversa com seu pai (o quadrado Dennis Quaid) e sua mãe (a sumida e cheia de botox Andie MacDowell) após apanhar do ex-namorado, exemplo claro da falta de capacidade dramática da atriz.

As roupagens mais atuais das músicas e dos números de dança não me agradaram, os protagonistas são fracos e não possuem o mesmo charme e carisma dos originais e o argumento central não funciona mais, ou seja, esta é mais uma refilmagem que não deveria ter sido, pois não agrada em nada e não acrescenta em nada aos fãs antigos e com certeza, não fará sucesso entre os potenciais fãs da atualidade. Ao contrário do original que é sempre lembrado, e se tornou um clássico apesar de suas visíveis falhas, este aqui cairá em um merecido esquecimento. 


(Footloose de Craig Brewer, EUA - 2011)


NOTA: 3,0

quarta-feira, 2 de maio de 2012

11-11-11



Se utilizar de uma data e de elementos da numerologia para tentar gerar uma premissa válida para um filme de terror/suspense não é, nem de longe, uma das grandes originalidades do mundo do cinema. Contudo, o diretor Darren Lynn Bousman, que possui no currículo os filmes de número II, III e IV da franquia Jogos Mortais, inovou a se utilizar de uma elemento mais realista e preciso quanto ao datamento do filme, lançando-o no dia correspondente e coisas assim, porém, a única coisa que este filme tem (teve na época do lançamento) de bom é o trabalho de marketing, porque o filme em si é uma lástima.

Há muito tempo eu não assistia a um filme que é contraditório em relação à sua premissa básica e norteadora do contexto. O filme defende em vários momentos o poder dos livros sobre as pessoas, mas abandona isso para finalizar seu andamento, e, além disso, o substitui por elementos retóricos e que não haviam sido sequer colocados até aquele momento. Como se não bastasse, o filme possui um psicologismo e um elemento religioso de nível muito baixo, e nem sequer consegue fomentar no espectador o interesse pelo elemento do número “11”, fazendo com que tudo aquilo pareça muito mais uma coincidência mesmo do que uma ação conectada, ou seja, erro primário de construção argumentativa. Os buracos são gigantescos, e a quantidade de joguetes mal encaixados e de remendos para gerar um possível andamento são visíveis e comprometedores. Chega a impressionar que Bousman tenha chegado a pensar que sua plateia fosse tão estúpida a ponto de não perceber tais circunstâncias.

Como se não bastasse, o filme é cheio de tentativas baratas de sustos que não funcionam de maneira alguma. A direção é bisonha em alguns momentos, errando feio na utilização das sombras e principalmente da iluminação (repare nas cenas chuvosas onde isso fica muito claro). A fotografia é exageradamente escura e parece querer esconder as imperfeições do filme, e pasmem, é claro que não consegue.

Por incrível que pareça, o que menos prejudica o filme são seus protagonistas, que possuem uma boa delimitação pessoal e são bem conduzidos pelos atores Timothy Gibbs (Joseph) e Michael Landes (Samuel). O trabalho dos dois, por mais que não se encaixem como primores interpretativos, comparados ao nível baixo do restante da fita se destacam.

Agora, é lógico que 11-11-11 não poderia fugir da moda pós O Sexto Sentido quase que dominante do gênero, em elaborar algum tipo de reviravolta mirabolante no final para surpreender o espectador. Eis então que Bousman se inspira naquilo que existe de mais cruel na produção artística dos seres humanos e nos mostra que “o buraco é mais embaixo”. O que já era ruim fica ainda pior, em um final estúpido, equivocado, deslocado e que não consegue se explicar, além é claro, como eu já disse, de contradizer toda a ideia até ali apresentada pelo filme.

Uma tragédia cinematográfica que me propiciou apenas um grande medo: o de uma sequência aproveitando o vindouro dia 12-12-12, o que nos levaria a lamentar demais o fato de que a profecia maia só se cumprirá no dia 21-12-12 (repare que 21 é 12 ao contrário hehehe). Lamentável.


(11-11-11 de Darren Lynn Bousman, Espanha/EUA - 2011) 


NOTA: 2,0

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O ROLO COMPRESSOR E O VIOLINISTA



Média metragem feito para a conclusão de sua faculdade de cinema aos vinte e oito anos de idade, O Rolo Compressor e o Violinista é um excelente embrião da nobreza que, futuramente se transformaria o cinema deste gênio da sétima arte que atende pelo nome de Andrei Tarkovsky. Centralizando na inusitada amizade entre um garoto violinista e um motorista de um rolo compressor que realiza um trabalho perto da residência do já citado garoto, Tarkovsky já dá mostras de um talento acima da média. Logicamente que esta pequena e primeira obra ainda é crua e mostra um Tarkovsky mais vacilante, contudo a beleza poética e a simplicidade com que o assunto é tratado só poderiam vir de uma mente que entende a verdadeira síntese e propriedade do cinema, e sabe consequentemente organizá-la e projetá-la sem retirar sua parte mais nobre.

Tarkovsky varia de planos amplos para fechados, e utiliza-se da expressão dos atores e dos cenários para criar um clima fino, que consiga sintomatizar a relação de amizade que se constrói. O roteiro, muitas vezes baseado apenas nas imagens, é uma de beleza ímpar, e perpassa o espectador levando-o a uma análise de mais profunda de tudo o que se desenrola em cena. Utilizando-se das características marcantes de cada personagem, Tarkovsky realiza um movimento de assimilação entre público e filme, além de unir os dois personagens principais por estes elementos. Muito mais que uma simples amizade, os grandes momentos destes novos amigos, mostram-se exatamente no compartilhamento daquilo que cada um possui para oferecer, sendo no caso de Sergei (O Rolo Compressor) uma divertida “volta” na máquina de trabalho do mesmo e no caso de Sacha (O Violinista) uma suave música tocada em seu violino. A profundidade da amizade ultrapassa a vontade que cada um possui de conviver com a outra parte e se mostra totalmente desinteressada, desembocando em um triste, porém singelo final.

As interpretações merecem destaque, principalmente a do menino Igor Fomchenko que constrói um personagem simplesmente magnífico e que se enquadra exatamente naquilo que aparentemente era a intenção de Tarkovsky. As alterações de humor e as demonstrações de amizade partem das feições deste menino de forma intensa e simplesmente fenomenal.

Muito mais destacado pela beleza do que pela inovação técnica e estética que marcaria a obra posterior de Tarkovsky; O Rolo Compressor e o Violinista é uma obra obrigatória para os fãs de um cinema simples, belo e ao mesmo tempo marcante e pouco convencional. Uma história de amizade incrível, emocionante e que nos coloca frente a frente com os primeiros passos de uma dos maiores gênios da história do cinema. 


(Katok I Skripka de Andrei Tarkovsky, Rússia - 1960)


NOTA: 9,0

domingo, 22 de abril de 2012

CORAÇÃO DE CRISTAL



Werner Herzog é, ainda hoje, um dos grandes diretores que o cinema produziu. Dono de um estilo único, que mistura brutalidade com elementos poéticos para realizar grandes análises da natureza humana, o diretor alemão já nos presenteou com clássicos como Fitzcarraldo, O Enigma de Kaspar Hauser e o meu favorito, o estupendo Aguirre, a Cólera dos Deuses, todavia, Coração de Cristal é com certeza, entre os filmes do diretor que eu tive a oportunidade de assistir, o mais emblemático e o mais experimental trabalho de sua carreira.

O filme é extremamente simbólico e cheio de diálogos magistrais, que possuem em seu cerne, tanto elementos do teatro clássico quanto elementos poéticos de altíssimo nível. A fotografia é bárbara e a condução de câmera por parte de Herzog é algo para ser analisado em uma escala diferente. O diretor realiza inúmeros movimentos ao longo do filme, o que o torna um trabalho extremamente imprevisível. Herzog inverte planos, expande e retrai os mesmos ao seu bel-prazer, mas nunca de forma arbitrária, coloca a câmera em sua mão quando julga necessário e até verticaliza alguns planos, tudo com um toque clássico de alguém que realmente sabe o resultado que quer adquirir. Um exemplo claro dessa grandiosidade é a sequência final, que se passa em uma ilha e que dura alguns minutos, em que Herzog dá uma aula de direção e com ângulos e movimentos ousados cria planos maravilhosos e cenas inesquecíveis.

Apesar de possuir uma linearidade, Coração de Cristal possui vários fragmentos em sua execução, fragmentos estes que, por mais que possuam relação com o todo, se auto explicam através de aspectos existenciais e teses elaboradas em tons proféticos, materializando-se na pessoa do “vidente” Hias, responsável pela maioria dos grandes diálogos que o filme possui.

A busca da fórmula secreta do “vidro-rubi” perdida com a morte do único homem que a conhecia, faz com que um vilarejo se perca em obsessão e lamúria, pois os mesmos vivem desta especialidade. Personagens se alteram, definham, crescem, e tudo isto sem qualquer dano ou apelação ao alinhamento construído, ou seja, o desespero das pessoas com o alicerce perdido, o vislumbre de um futuro sem nada, culminando em atitudes e condições extremas dos personagens. Coração de Cristal é lento, pouco convencional, em alguns momentos desesperador e exige muita concentração do espectador, ou seja, é cinema de grande profundidade e de grande afetação. Visualmente e esteticamente experimental, é um filme único na carreira de Herzog, o que o torna pouco visto mesmo entre seus fãs, que na maioria das vezes são adeptos ao seu cinema mais “comum”.

Como última ressalva, vale o destaque de que, segundo o que eu li, Herzog utilizou técnicas de hipnose em alguns atores, principalmente nos coadjuvantes, para que os mesmo realizassem cenas em estado alterado, com a intenção de realizar o mesmo movimento no espectador, fincando sua presença através da loucura e do exagero imposto a estes atores e no final das contas, ele conseguiu, pois com o perdão do trocadilho, o filme é realmente hipnotizante. Obrigatório.


(Herz aus Glas de Werner Herzog, Alemanha - 1976)


NOTA: 9,5

segunda-feira, 16 de abril de 2012

MIKEY


Qualquer fã de filmes de terror já se interessaria por este filme só pela frase de chamada na capa do DVD: “Lembre-se, Jason e Freddy já foram crianças também”. Uma chamada de efeito que busca referências nos dois maiores ícones do cinema de terror, além de dois dos maiores assassinos da história do cinema em geral. Como se isso não bastasse, isto é feito para apresentar um filme sobre um menino de oito anos, em outras palavras, nada de adultos ensandecidos matando tudo e todos; já que em Mikey, e percebe-se isso logo na primeira sequência, o assassino é a criança.

O grande barato é o fato de o filme dispensar explicações estúpidas sobre os motivos que levam a criança a cometer tais crimes, limitando-se apenas aos clichês do órfão que passa de família em família. Em nenhum momento o filme tende a explicações psicológicas de falta de amor dos pais ou traumas e coisas assim, sendo que as citações a este tipo de situações são extremamente manipuladas pelo personagem infantil. O menino é mal e ponto, não há tentativas atuais “politicamente corretas” e moralistas para tentar manter a criança em um esquife impenetrável de pureza. O filme só trabalha com a ideia que trabalha, por que foi produzido em uma época que aceitava tal possibilidade, contrastando com a época atual, onde médicos, psicólogos e seres afins tentam “isentar” pessoas simplesmente más e que cometem crimes de acordo com a sociedade, através de apelações e argumentos muitas vezes mal explicados, retóricos e dogmáticos.

A atuação do jovem Brian Bonsall como Mikey é bárbara, e tenho certeza que não gerou nenhum trauma ou seqüela no menino a interpretação de tal personagem (ou alguém vai querer vir com o papo furado de que os problemas que o mesmo teve com a polícia por agressão ou violação de condicional vem daqui?). O roteiro é bem amarrado e algumas cenas são de uma felicidade rara (como a cena da mesa de jantar), contudo, o filme poderia ter uma direção menos vacilante e uma trilha sonora mais bombástica. Todavia são pequenos empecilhos perante um filme perturbador, intrigante, em alguns momentos extremamente empolgante e que trabalha com boas idéias e perspectivas, mesmo que as mesmas sejam abomináveis perante à ideia cristã-moralista da pureza e bondade eterna das crianças. Aliás, provavelmente este moralismo cristão exagerado impediu o filme de ser lançado no Brasil, ou seja, dificuldade de acesso de novo, algo cada vez mais comum para não-fãs de filmes de super heróis, Transformers ou Crepúsculos da vida.

Fica aqui novamente uma dica para cinéfilos que possuem facilidade para fuçar na internet e encontrar tais obras, para aqueles que não possuem tal facilidade, resta ter um amigo com essa facilidade e que ele consiga tal filme pra você, e por aí vai, o que venhamos e convenhamos é algo bem triste, pois priva muitas pessoas do acesso a filmes muito interessantes, categoria que Mikey se encaixa facilmente.





(Mikey de Dennis Dimster, EUA - 1992)




NOTA: 8,0

segunda-feira, 9 de abril de 2012

FLORESTA NEGRA


Atualmente parece surgir no cinema e no entretenimento em geral uma onda de transformar aqueles clássicos contos de fadas que povoaram gerações e mais gerações em obras mais assustadoras e insinuantes. Só no campo dos seriados temos dois claros representantes desta temática; Grimm e Era Uma Vez, série às quais não assisti nenhum capítulo, mas que tive a oportunidade de me deparar com os resumos de seus episódios e daí retirar este meu comentário. Além disso, no próprio cinema, tivemos o desastroso A Garota da Capa Vermelha no ano passado e neste 2012 assistiremos (ou não) ao lançamento de duas novas versões da clássica história de A Branca de Neve, contudo, não acredito na possibilidade de nenhuma das duas serem superiores a esta surpreende adaptação do conto compilado pelos Irmãos Grimm.

O diretor Michael Cohn cria uma incrível roupagem para esta adaptação. Tudo é muito obscuro, muito misterioso, muito penumbroso. O suspense é forte e circunda todo o filme, caminhando ao lado do mesmo de seu início até os momentos do ótimo desfecho. As poucas deturpações na história ajudam o espectador a se identificar com o clima proposto, porém, o grande acerto do diretor é eliminar ou suplantar elementos da história original que a transformam em um conto infantil, fazendo com que a fita ganhe em “público idade”. O príncipe encantado aqui não é bem lá um poço de bondade e pureza, e os sete anões são substituídos por uma espécie de grupo de renegados e marginalizados, dos quais vários possuem seus rostos deformados ou cicatrizados.

O elenco está muito bem, desde o grupo desconhecido de coadjuvantes, passando por uma concisa atuação do normalmente burocrático Sam Neil e desembocando na ótima atuação de Sigourney Weaver como Lady Claudia, ou para associá-la ao conto original, como a Madrasta.

Floresta Negra (não vou nem comentar o título em português) é sim um filme de terror, e de terror psicológico, muito mais puxado para o suspense do que para o terror explícito, e muito mais do que sustos, o filme se apóia nas relações pouco harmoniosas e humanas entre os personagens, e no incrível elemento perturbador proporcionado pelo ótimo trabalho artístico, com destaque para a belíssima fotografia em tons azulados e uma ótima maquiagem. Contudo, como ressalva, vale comentário o pouco capricho com os efeitos especiais em algumas cenas, que, se causados pela falta de dinheiro se torna algo perdoável, todavia, se o motivo for a incompetência dos profissionais responsáveis pelos mesmos, não há razão alguma para se esquivar de tal percepção, nada que estrague o bom resultado final, mas é nítido que o trabalho nesta parte específica da obra está abaixo do restante.

Um filme muito interessante e que deveria ter recebido um reconhecimento maior, o que infelizmente não aconteceu. A fita se perdeu na passagem do VHS para o DVD e não foi lançada no Brasil neste segundo formato (pelo menos não em grande tiragem e que pudesse gerar um fácil acesso à mesma), característica que o transforma em um trabalho de difícil acesso, ainda mais para aqueles espectadores que já não suportam mais os chiados e tremidas clássicas de uma VHS. Entretanto, VHS ou não, esqueça por alguns momentos a Branca de Neve de sua infância e se coloque em um conto de mesma estrutura, porém com uma roupagem totalmente diferente. 


(Snow White: A Tale Of Terror de Michael Cohn, EUA - 1997)


NOTA: 7,5

segunda-feira, 26 de março de 2012

SENTIDOS DO AMOR


Para nossa sorte, nem só de cinema (espaço físico) vive o mundo da sétima arte. Cada vez mais, devido ao advento do cinema barulho e comercial, grandes filmes passam longe dos cinemas e repousam nas locadoras e lojas de DVD´s de forma desconhecida, sem pôsteres e em prateleiras nos fundos. Cada vez mais, você, que se julga um verdadeiro fã de cinema, deve bisbilhotar estas prateleiras, pois em alguns momentos cai em suas mãos uma obra como este Sentidos do Amor.

Ignore o título em português que tenta resumir o filme a um romance de Nicholas Sparks e se coloque na presença de uma inebriante obra, que consegue ser um romance, ser um belo filme, sem ser piegas e sem se esbaldar em clichês pré-determinados, infundados e que não enganam mais ninguém. Sentidos do Amor, do diretor escocês David Mackenzie, se utiliza de um mundo pré-apolíptico que vai se “apocaliptizando” ao longo da fita como um pano de fundo para o romance entre um chef (interpretado de forma intensa por Ewan McGregor) e uma epidemiologista (interpretada de forma igualmente forte por Eva Green). O mais interessante é o modo como o diretor desenvolve o romance e o coloca à prova dos acontecimentos ao redor do casal. Conforme o mundo vai desmoronando, o romance se enraíza, ultrapassando o simples amor romântico e se tornando praticamente um escape para toda a tragédia que os envolve no que toca ao restante de suas vidas.

O romance se desenvolve em meio a uma epidemia, que após acessos extremos de um determinado tipo de emoção (dor, raiva entre outros) gera a perda de um dos sentidos do ser humano, algo que inicia com o olfato, vai para o paladar e segue seu curso, sem qualquer vislumbre de cura ou de explicação para tudo aquilo. A grande sacada de Sentidos do Amor é não cair no caminho mais fácil de “embelezar” uma tragédia, somente pelo fato de a mesma propiciar (ou conviver com) a existência de um grande amor. Mesmo nos momentos mais belos do romance entre os dois, o clima da fita é sombrio, drástico e extremamente soturno, resultado de uma fotografia acinzentada, lúgubre e que parece expelir fuligem ao longo de toda a fita. A trilha sonora é precisa, e o roteiro consegue escapar (outro grande mérito) de momentos “songs of love” carregados e que tentam forçar um grande amor. Mackenzie acerta a mão, nos brinda com enquadramentos e cenas maravilhosas (com destaque para a união do casal, na imagem que estampa o pôster do filme no início deste texto) e constrói tanto um romance quanto uma catástrofe que segue seu curso de força extremamente natural, triste, porém natural, de tal forma, que no momento em que amor entre os protagonistas se torna o centro, você aceita e torce por isto, tamanha a simpatia que se adquire pelo amor do casal, mediante à tristeza do restante. Se um grande romance é aquele em que torcemos pelo casal principal, os momentos finais da fita corroboram a ideia e te fazem sentir o impacto deste surpreendente filme.

Da mesma forma que outros filmes que, por mais que tenham diferenças, seguem a mesma linha de tendência, como Ensaio Sobre a Cegueira, A Estrada e Não Me Abandone Jamais, o pessimismo e a dureza do filme podem não agradar muitas pessoas, pois a esperança aparece em pequenos detalhes, sendo que estes muitas vezes se mostram pouco seguros, contudo, é inegável o tom de qualidade, de audácia e de originalidade deste ótimo filme, que não estreou nos cinemas brasileiros e que corre o risco de nunca receber o reconhecimento que merece. Enquanto Crepúsculos e comédias estúpidas banalizam o amor e enchem de besteira a cabeça daqueles que vão ao cinema, Sentidos do Amor passa despercebido, chegando apenas às mãos daqueles que buscam um pouco mais no cinema do que mero entretenimento. Em resumo, se você ainda não sabe o que assistir no próximo fim de semana, ou no seu próximo fim de noite, aceite minha dica e capte toda a beleza desta incrível obra. Imperdível.


(Perfect Sense de David Mackenzie, Alemanha/Dinamarca/Reino Unido/Suécia - 2011)



NOTA: 9,0