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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

AS AVENTURAS DE TOM JONES


Um dos mais contestados vencedores do Oscar de Melhor Filme, As Aventuras de Tom Jones pode ser descrito como uma comédia de aventura, que tem por intenção primordial se utilizar de um elemento pastelão para ironizar e ridicularizar os atos da nobreza e do povo britânico em geral do século XVIII, onde esta nobreza já se encontra em franca decadência por “n” motivos que não cabe discussão neste post.

A ideia, por mais que seja interessante, não tem nada de original. A quantidade de filmes que retratam a decadência e as frivolidades de nobreza britânica é imensa e engloba praticamente todos os gêneros do cinema. Sendo assim, Tom Jones se destaca apenas nos quesitos técnicos e nos movimentos de câmera do talentoso diretor Tony Richardson. Todavia, as qualidades do filme param por aí, e o restante se perde exatamente no ponto em que ele deveria criticar, colocando em linhas gerais, assim como a nobreza inglesa em sua maioria, As Aventuras de Tom Jones é um filme superficial, frio e em muitos momentos de gosto duvidoso, defeitos estes cruéis principalmente para uma comédia.

O figurino é exagerado, o filme é mal fotografado e possui um trabalho de maquiagem digno de circo. As boas situações e os elementos críticos do filme são substituídos pelas situações bobas e que apelam para a falta de inteligência do espectador, podemos até dizer que, no caso de Tom Jones, o filme comprou a ideia, e ao invés de crítico se tornou apologético, basta ver o desfecho, totalmente favorável aos personagens, por mais que os mesmos não tenham tido nenhuma perspectiva de mudança comportamental.

O roteiro é maldoso em algumas situações, chegando a apelar para a escatologia e humor desenfreado para tentar chocar o público. Além disso, Tom Jones é um dos filmes que menos possuem noção de andamento que eu vi nos últimos tempos. A fita perde minutos e mais minutos em momentos descartáveis, para correr como um velocista no final, atropelando tudo e causando um reboliço na cabeça do espectador, sem contar o fato de muitas coisas se resolverem sozinhas sem qualquer tipo de explicação.

Como pontos positivos, encontramos uma inspirada trilha sonora que faz várias menções a comédias de pastelão antigas, cheias de toques velozes e alegres e o esforçado elenco no geral, que tenta arrancar boas atuações de um roteiro que não os presenteia com bons personagens.

As Aventuras de Tom Jones é fácil, um dos mais fracos vencedores do Oscar de Melhor Filme, mas isso é apenas um ponto curioso, que traz uma mística de surpresa a quem assiste esta fita, afinal sempre se espera algo mais de um filme com este rótulo, algo que não acontece aqui. Muito mais que um fraco vencedor de Oscar, Tom Jones é um fraco exemplar do cinema como um todo, independente de prêmio ou não.


(Tom Jones de Tony Richardson, Reino Unido-1963)


NOTA: 4,5

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O GATO DE BOTAS


Criado pelo francês Charles Perrault no longínquo ano de 1697, o Gato de Botas sempre foi símbolo de lealdade e coragem. Contudo, não é este gato precisamente o assunto deste pequeno texto. Neste caso, o personagem central é aquele simpático mosqueteiro felino que apareceu pela primeira vez no segundo filme da franquia Shrek e que (seguindo a tendência da animação) ganhou um trabalho próprio. A Dreamworks não perdeu tempo e criou um ambiente bem favorável àquele que talvez seja seu mais carismático personagem.

O tom amarelado no melhor estilo Garfield está de volta, juntamente com seu figurino de tendências dumasianas com toques de Zorro e aquele sotaque de Don Juan que combina perfeitamente com um timbre de voz sedutor; não há como negar, o bichano é um charme só e possui um inigualável carisma. Tal caráter é extremamente explorado pelo filme, o que nos leva a afirmar claramente a seguinte premissa: se fosse um filme solo de um personagem diferente o resultado teria beirado o catastrófico.

O enredo da animação é pouco inspirado e se utiliza de outra fábula (João e o Pé de Feijão) para se formar. Falta inspiração para mudar um pouco o curso das coisas, o que torna o roteiro previsível demais. O vilão (que se “desvilaniza” depois) é um personagem incrivelmente chato. O ovo Humpty Dumpty (personagem também tirado de obras literárias infanto-juvenis e de mensagens folclóricas e culturais) é construído de tal forma que nos vemos diante de um dos mais intragáveis (no mau sentido) e desinteressantes personagens da animação recente.

Se o vilão e o roteiro fazem com que o filme derrape de forma muito forte, seu protagonista consegue segurar um pouco do outro lado da corda. Principalmente no início, ou seja, antes daquele ovo chato aparecer, o filme é uma boa piada atrás da outra, levando o espectador a momentos de puro riso. Quando foca no Gato o filme cresce, quando ele divide a tela com o ovo sua presença sofre uma ofuscação com a chatice de seu companheiro. Em suma, O Gato de Botas é um cabo de guerra disputado pelo carisma e a simpatia de seu protagonista contra a chatice do personagem Humpty Dumpty e a pobreza de roteiro. Para alegria, principalmente das crianças, o Gato vence mais uma, e conta com isso com uma sensacional trilha sonora e com coadjuvantes menores até interessantes como a gata Kitty Pata-Mansa e como um gato que só aparece de olhos arregalados e assustado com o que vê, soltando sempre um sonoro “oooohhhhh”.

Uma animação com grandes defeitos, mas que os supera calcados na força de seu protagonista. É óbvio que o filme poderia ter sido bem melhor, ainda mais por ter como protagonista um personagem tão carismático, todavia, O Gato de Botas cumpre o seu papel, tornando-se um bom entretenimento e um ótimo programa para crianças e para adultos que desejam relaxar e dar boas risadas.


(Puss In Boots de Chris Miller, EUA - 2011)


NOTA: 6,5

terça-feira, 15 de novembro de 2011

RANGO


O cinema de animação sempre foi um dos mais propícios para homenagens, sejam elas de qual caráter for, contudo, talvez a mais explícita de todas elas aconteça nesta animação do experiente e versátil diretor Gore Verbinski, mais conhecido do público por ter sido o diretor dos três primeiros filmes da franquia Piratas do Caribe. Rango é uma ode ao cinema de faroeste que dominava o circuito e levava ao delírio platéias nos anos 50,60 e 70, mas que hoje é praticamente um gênero morto.

É exatamente este caráter de homenagem, ou pelo menos de dedicatória, que propicia tanto as qualidades como os problemas de Rango. O filme é leve, divertido, com personagens (incluindo seu protagonista) extremamente carismáticos (algo essencial para qualquer filme, mas principalmente para as animações) e de um leve bom gosto não encontrado em animações como Rio por exemplo. Verbinski faz um filme apaixonado, em que os clichês do gênero de faroeste (e são muitos) são explorados e encaixados ao longo da trama com muita simpatia e com muita simplicidade. O feno pelo deserto, o sol nascendo ao longe com as sombras dos cowboys (no caso aqui montados em papas-léguas acredito eu), aquele clima de coisa antiga, a música firmada em acordes de banjo, aquele sotaque de provinciano, tudo isto é explorado com muito profissionalismo e muito cuidado por Verbinski, já que, caso contrário, estes elementos poderiam caracterizar uma pieguice que o filme não possui.

Verbinski não é um grande diretor, mas ninguém pode negar que ele é versátil. O cara já fez filmes infantis (Um Ratinho Encrenqueiro), ficção científica (A Máquina do Tempo), Terror (O Chamado) e os já citados três primeiros filmes da saga do pirata Jack Sparrow entre outros, agrupando aqui um grau de experiência que ajuda bastante, principalmente na flutuação das construções dramáticas, que por mais que possuam suas bases nos pilares do faroeste, se alteram em alguns momentos.

Todavia, no caso de Rango, a mão que afaga é a mesma que apedreja. A falta de originalidade na construção argumentativa sempre foi um dos grandes problemas dos filmes de western, isso se não for o maior. Além de envelhecerem (como o próprio filme colocar, que aqueles personagens hoje são lendas), os filmes de faroeste conviverem com a falta de novas idéias, deixando os espectadores enjoados e com aquela sensação de que “tudo igual”. No final do auge do gênero, os faroestes não passavam de um enorme e interminável mais do mesmo, e Rango esbarra neste ponto. Além disso, o filme de Verbinski tem obrigações com seu próprio gênero, ou seja, as animações. De tal forma, um elemento mais infantil, e até mesmo uma lição de vida quase que necessariamente deve ser inserida em meio aos tiroteios e dos ventos carregadores de poeira que se misturam com a dura paisagem desértica. Verbinski não consegue fugir dos clichês de nenhum dos dois gêneros, e ainda perde a chance de criar algo novo com a união destes já citados dois gêneros. Em suma; com meia-hora de filme, você já praticamente desvenda todo o restante da fita, que ainda une a isto o fato de ser um pouco longa.

Desde que o cinema de animação se modernizou e passou a produzir de quinze a vinte filmes por ano, vindos de várias partes, 2011 talvez seja o pior ano para o gênero, que não produziu nenhum grande filme e muito menos encravou qualquer sequência ou projeção nas eternas memórias dos cinéfilos (não coloco aqui a animação francesa O Mágico, pois acredito que o foco seja diferente), contudo, em um ano onde o gênero está nivelado por baixo, Rango acaba ganhando certo destaque. Longe de ser um clássico, ou até mesmo um grande filme do gênero, Rango talvez seja uma das melhores animações do ano, só que infelizmente em um ano como este, tal elogio não quer dizer muita coisa.


(Rango de Gore Verbinski, EUA - 2011)


NOTA: 6,5

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

MUPPETS - O FILME


O primeiro longa de uma das mais famosas turmas de todos os tempos (dizer a mais famosa poderia se tornar uma grande pretensão) é também o mais completo e o mais correto dos longas já realizados por estes simpáticos seres. Não que os outros filmes que envolvam os Muppets sejam ruins, mas este aqui ainda é supremo, não sem méritos, que ainda hoje é considerado um clássico do cinema.

O filme é uma sessão de cinema, onde os Muppets assistem ao mesmo filme que o espectador, ou seja, um longa que conta a história de como tudo começou; desde a descoberta de Caco por parte de um produtor de Hollywood, enquanto este dedilhava em seu banjo e cantava com sua voz fanha e estranha as maravilhosas notas de Rainbow Connection (uma das grandes cenas musicais da história do cinema, e uma das mais belas canções já compostas para o cinema), o encontro um a um com os principais nomes da turma, até o ápice no final, com a assinatura de um contrato “dos ricos e famosos”, por um produtor de Hollywood interpretado por nada menos que a Lena Orson Welles, e o retorno, agora na voz de todos os Muppets de Rainbow Connection.

Existe um grande mérito no trabalho do diretor James Frawley, que é focar na construção dos personagens, muito mais que na turma em si, pois os Muppets se tornam um conjunto aos poucos, sendo que essa união mesmo acontece no final. Antes de se tornarem um; Frawley fixa pelo menos alguns minutos da película, em praticamente todos os Muppets (os principais pelo menos; como Piggy, Fozzie, Rowlf, Animal, Gonzo, Beaker e por aí vai) individualmente, para que possamos verificar as características de cada um, que em posteridade se tornarão a unidade conhecida como os Muppets. Não que os personagens perdem depois a identidade particular, mas ela se ofusca pela identidade dos Muppets; e, por se tratar de um filme que vai buscar as origens do “Grupo do Arco-Íris” (Tradução mal feita do título da canção já citada aqui), a opção de Frawley se mostra muito acertada.

Dirigir e atuar com bonecos é complicado, afinal você não possui o retorno imediato de um ator “normal”, contudo esse entrave não se torna um problema aqui, tamanha a destreza de Frawley na condução dos planos e do desenvolvimento do roteiro e do elenco, principalmente Charles Durning e Austin Pendleton que são os atores humanos que mais contracenam com os bonecos Muppets. Vale destaque, além da já citada participação de Orson Welles, a participação do gênio da comédia Mel Brooks, do ator James Coburn e do ainda meio jovem Steve Martin.

O carisma dos Muppets, aliado a um detalhado trabalho, pautado principalmente em um carinho com aquilo que se estava produzindo, contribuiu; não só para que o filme entrasse para a história do cinema, mas cravou de vez no imaginário das pessoas esses bonecos, alguns bem definidos, outros nem tanto, mas todos muito presentes e queridos, e os trouxe para um meio do qual não saíram mais, haja vista o fato de que outro longa da turma está prontinho para estrear nos cinemas.

Se você ainda não encontrou o “Grupo do Arco-Íris”, não perca mais tempo, vá até a locadora mais próxima, ou melhor, vá até a loja de DVD´s mais próxima e compre o filme, o assista várias vezes, dedicando cada vez a um personagem diferente e se delicie com uma das grandes mágicas que o cinema produziu, se unindo assim de forma inevitável “aos apaixonados, aos sonhadores e a mim”. Inesquecível. 


(The Muppet Movie de James Frawley, EUA/Reino Unido - 1979)



NOTA: 9,0

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A ESPADA ERA A LEI


Uma das mais sutis, belas, simples e singelas obras dos estúdios Disney, A Espada Era a Lei sobrevive hoje como um clássico que alegra muito mais fãs saudosistas do que públicos saudosistas, algo que, aliás, acontece com a maioria das animações mais antigas, quando não existiam animações computadorizadas, e as histórias destas antiguidades se baseavam em números musicais e lições de aprendizagem, que em primeiro momento tinham o intuito de atingir as crianças, mas que levavam os adultos correnteza abaixo também.

A Espada Era a Lei tem sua base nas lendas arthurianas, e conta a história do pequeno Arthur, este sendo ainda treinado por um Merlin que sabia que o mesmo estava predestinado a algo grande, porém sem saber o que, antes de retirar a lendária Excalibur da pedra onde esta dormia e se tornar Rei da Inglaterra e líder dos Cavaleiros da Távola Redonda. A animação não adentra na vida de Arthur depois de tornar rei, se tornando então um prólogo sobre a preparação do mesmo e da Inglaterra antes de acolher seu lendário monarca. De tal modo, e por se manter apenas na infância do personagem, o filme não se utiliza da lenda para se firmar, se utilizando apenas de seu próprio roteiro e de sua querela mais “independente” para se sustentar, algo muito bom para a intenção da fita.

O filme é muito leve e muito divertido, nos remetendo ao que a Disney sempre teve de melhor, ou seja, aquele humor simples, vindo de personagens e piadas espontâneas e que levavam os espectadores ao delírio. O maior exemplo disso é a alegria e a magia do estabanado e simpático Merlin. Como se o velho mago lendário não fosse ele, por si só, extremamente engraçado, ele ainda conta com as trapalhadas de seu assistente Arquimedes, uma coruja muito astuta e ao mesmo tempo muito engraçada. Os dois com certeza seguram, em grande parte sozinhos, a bronca do longa inteiro. Os números são poucos, porém bem encaixados e bem feitos, ajudando o filme em seu andamento.

A clássica lição de moral dos filmes mais antigos da Disney está bem presente aqui, e de muitas formas, mas a que mais se repete, se torna um problema para a assimilação atual da fita, já que a tal lição simplesmente envelheceu. Eu sei que alguns discordarão de mim quanto a isto, afinal as frases dos mesmos para os perfis do Facebook, Orkut e MSN dizem o contrário e aceitam ideias parecidas com a deste filme, mas qualquer pessoa que aprofunde um pouco mais a análise sabe que isto se trata de uma das várias hipocrisias da era digital. Qualquer pessoa mais atenta e mais analítica em relação ao mundo e à juventude atual, conseguirá entender o problema que um filme que frisa “a supremacia do estudo e da inteligência sobre a força física e ao apelo passional” enfrentará. Tal premissa, inúmeras vezes repetida por Merlin no intuito de ensinar o pequeno Arthur só colabora para o caráter “envelhecido” da fita. Isso não é um defeito do filme, mas é o preço que ele paga por ainda sobreviver a uma sociedade com um defeito.

A animação tem poucos problemas; sendo um deles seu formato argumentativo que poderia ter uma dinamicidade maior, levando-se em conta principalmente o fato de se tratar de um filme basicamente infantil. Outro problema que a fita possui este já um pouco mais sério é a falta de carisma de seu protagonista, já que o pequeno Arthur é muito simples e sem muita audácia ou personalidade, sendo facilmente engolido por qualquer outro personagem da trama, mesmo quando estes são nitidamente coadjuvantes como seu padrasto Sir Ector, seu irmão de criação Kay ou a malvada e clássica madame Min. Tais problemas prejudicam um pouco a fita, porém não tiram o brilho de uma bela animação e nem a rebaixam de seu status de clássico em seu gênero.

Um ótimo trabalho, que sobrevive até hoje com o rótulo de ter sido o último filme dos estúdios Disney a ser produzido enquanto seu fundador, Walt Disney, ainda estava vivo. Curiosidades e situações à parte, A Espada Era a Lei vale cada minuto do tempo dedicado a apreciá-lo, admirá-lo e entendê-lo; afinal de contas, nenhum filme sobrevive (e sobrevive bem) quase cinqüenta anos (o filme completará cinqüenta anos em 2013) à toa. Busque suas qualidades, viva seus conselhos e aprecie seu humor e assim, você estará embrulhado em um grande filme, muito mais que isso, você se tornará cúmplice de uma grande obra.


(The Sword In The Stone de Wolfgang Reitherman, EUA - 1963)




NOTA: 8,5

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

SEM LIMITES


Imagine a simples hipótese da existência de um medicamento ou droga que expandisse a capacidade cerebral do ser humano ao seu máximo, sem qualquer tipo de restrição? Não é necessário ser um grande neurologista para saber que uma situação como esta geraria a pessoa possuidora de tal droga uma responsabilidade muito grande. É a partir deste centro e de outras minúcias que o diretor Neil Burger (o mesmo de O Ilusionista) conduz um thriller até certo ponto bem clichê, mas que consegue se sair bem melhor do que a capa sugere.

A fita gira em torno do personagem de Bradley Cooper, um escritor falido, que ao encontrar seu ex-cunhado, recebe deste uma pequena pílula que teria a capacidade de expandir o alcance do cérebro. A partir disto, como é de praxe neste tipo de filme, o personagem de Cooper presencia assassinatos, corre de conspiradores e se vê envolto a tudo aquilo que se pode imaginar com algo deste tipo, seja positiva ou negativamente. O aspecto ficcional acontece no momento em que se insere aqui uma tentativa de explicação dos efeitos que tal droga poderia causar fato que é totalmente desconhecido por nós.

Contudo, acredito que o interessante do argumento da fita é o fato de não desprezar totalmente o ser humano em si. A droga expande o cérebro, mas o ser humano que está inserido ali também interfere, o que faz com que frase do início do filme tenha bastante valor: “se a pessoa já for inteligente, ajuda”. Mesmo com toda essa tecnologia envolvida, o personagem de Cooper só consegue usufruir de todos os benefícios da droga, por que percebe em um momento que deve também pensá-la e não apenas usufruir dela.

Em termos técnicos o filme é clichê. Burger não é um inovador e nem um mestre na arte de fazer cinema. As cenas de ação permeiam entre os chassis da trilogia Bourne com elementos mais arcaicos. A edição rápida e precisa ajuda a criar a tensão, assim como um excessivo movimento de closes do diretor, que em muitos momentos chega a soar irritante. A trilha sonora é barulhenta e incessante e a fotografia tem um aspecto esfumaçado, quase que para criar um clima mórbido e até apocalíptico, mesmo que o filme não tenha nada em relação a tal elemento.

Cooper deixa um pouco em segundo plano seu lado “garanhão” que o está transformando em guru das comédias românticas e cria um bom personagem, com carisma adequado e que carrega bem todos os tipos de situação, inclusive as que exigem mais capacidade dramática. Elimine certo elemento cafajeste que aparece em um limiar de transição do personagem e temos um ótimo trabalho de um ator que ainda precisa provar que é bom. O elenco de apoio com o dinossauro Robert de Niro e a talentosa Abbie Cornish firma um ótimo apoio ao protagonista.

Burger filma com vontade um bom entretenimento, que se não bebe do poço da originalidade (acho que já escrevi essa frase antes por aqui), se sai mais inteligente e mais interessante do que sua capa ou até mesmo seu título aparenta. Funciona muito bem para aquela descompromissada sessão de cinema do sábado à noite, mesmo que seu efeito dure um pouco mais que isso.


(Limitless de Neil Burger, EUA - 2011)


NOTA: 6,5

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

ZÉ COLMEIA - O FILME


Cinqüenta e três anos se passaram desde a criação de um dos personagens de maior sucesso da igualmente bem-sucedida empresa de cartoons dos gênios William Hanna e Joseph Barbera. Se Zé Colmeia em si nunca foi um de meus personagens favoritos, sempre encontrei em Catatau um personagem ao qual dedicava grande afeição. Essa afeição pela “voz da razão” e pelo eterno companheiro do grande urso pardo especialista em roubar cestas de piquenique no fictício parque Jellystone, já me causou grande tristeza, devido ao problemático longa lançado em 2010, o que me leva a pensar e a tentar adivinhar o quão ruim deve ter sido a sensação dos grandes fãs que a animação possui.

O parque Jellystone está ameaçado devido ao inescrupuloso prefeito da cidade que quer fechar a atração para transformá-lo em um novo complexo urbano. Assim sendo, Zé Colmeia e Catatau unem forças com o guarda-chefe do parque (Tom Cavanagh) e com uma aspirante a documentarista que tenta produzir um filme sobre a excentricidade de Zé Colmeia (Anna Faris). Se a sinopse não concentra nenhuma novidade, o longa apenas ratifica e potencializa tal característica.

O roteiro do filme é de uma infantilidade e de uma falta de criatividade, que é impossível não se atentar ao fato de que, mesmo as crianças, não encontrarão aqui, algo que as agrade. A fita é cheia de passagens imediatistas, mal desenvolvidas, sem emoção e com um estoque de piadas limitadíssimo. O negócio é tal mal desenvolvido, que não consegue nem levar a fita a durar os clássicos noventa minutos, parando o assassinato ao espectador em torno dos setenta e cinco minutos.

O carisma de Catatau e de Zé Colmeia ainda existe afinal isto é algo dos personagens e que independe da técnica de animação ou do meio onde se inserem, todavia, este adjetivo é aqui sufocado por situações clichês, romances baratos, crises existenciais ridículas e uma “teoria da conspiração” totalmente fora de sintonia. Até mesmo a lição de moral e o elemento politicamente correto que quase sempre aparecem em filmes infantis é batido e mal desenvolvido (como é de se imaginar, existe todo um aspecto pró ambientalismo no filme).

Como se não bastasse a dificuldade do roteiro e da produção, a técnica aqui utilizada é a de animação live-action, técnica que mistura pessoas e animações computadorizadas (estilo Alvin e os Esquilos). Eu não tenho nada contra a técnica, entretanto, acredito que a mesma desagrada muitas pessoas, o que dificulta ainda mais a assimilação do filme pelos amantes da sétima arte. Como se não bastasse, fãs mais ortodoxos tendem a torcer o nariz para tal “modernização” dos personagens gerando assim mais um grande problema para a fita: além de não possuir qualidade suficiente para angariar novos fãs, o filme afasta os antigos devido à sua forma, já que conteúdo aqui é quase nulo.

Antes de finalizar este curto texto, faço uma importante ressalva: é necessário, para qualquer espectador, não abandonar o histórico do cartoon. Zé Colmeia e Catatau são lendários e permeiam o imaginário e o sentimento nostálgico de muitas pessoas, assim sendo, é importante frisar que o desenho continua com seu charme e sua importância mesmo após este tiro na água. Logicamente que o filme em si não respeita e nem leva em conta todo este histórico, e é por isso que esta ressalva é tão importante, afinal tenho certeza que o espectador não quererá cometer o mesmo erro que os energúmenos que fizeram isto aqui. Zé Colmeia e Catatau são eternos, enquanto que este filme não passa nem perto disso.


(Yogi Bear de Eric Brevig - EUA/Nova Zelândia, 2010)


NOTA: 2,5

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

MORTE NEGRA


Épico medieval que mistura, além dos elementos já clássicos do gênero, um toque muito forte de suspense e, por que não, elementos que beiram o terror. Contando com Sean Bean (o Boromir de O Senhor dos Anéis) como único mais ator “badalado”, Morte Negra se utiliza destes elementos para contar a história de um grupo de cavaleiros cristãos que recebem a missão de adentrar a uma aldeia, que misteriosamente não se encontra padecendo sobre o terror da chamada Peste Negra, e que buscam em um jovem monge o guia (no sentido turístico da palavra) para alcançar tal localização.

Qualquer pessoa que se lembra um pouco de suas aulas de história, sabe que Peste Negra foi o nome pelo qual ficou conhecida a peste bubônica, após (e durante) a pandemia que assolou boa parte da Europa no século XIV. O contexto do filme é este: uma Europa devastada, suja, pútrida e com sua população morrendo ou de peste ou de medo de tudo aquilo se tratar de um castigo divino (é interessante levar em consideração que, além da Peste, outra coisa que dominava a Europa era a Igreja Católica unitária).

O filme trabalha bem com o contexto, e o mais interessante é que em nenhum momento ele deixa de ser contexto. Morte Negra não é um filme sobre a Peste Negra, nem sobre o medievo em si, mas sobre um embate, sobre um aspecto delicado, difícil e que gera interpretações e colocações de variados modelos, falamos do embate, mais que clássico no medievo, entre paganismo e cristianismo. É difícil citar ou trabalhar todas as nuances abordadas pelo filme, mas o fato é que, Morte Negra consegue atribular de forma muito eficiente este confronto. De um lado, enviados cristãos que tem como missão combater uma aldeia que, por não ter sido atingida pela peste, é vista como demoníaca, ou seja, aquele clássico “ser diferente” tão combatido por instituições dominadoras.

Morte Negra não é um filme ateu, nem pagão, e sim deísta, e visivelmente (como é explícito no final) anticristão, pelo menos, daquele cristianismo absurdo e violento praticado pela Igreja Católica na época analisada. Vale ressalva, que mesmo com tal caráter, a crítica a posições x ou y, parte muita mais da interpretação do espectador do que propriamente de um elemento explícito no filme. O roteiro de Dario Poloni consegue flutuar e se infiltrar em todas as perspectivas possíveis, e demonstrar aspectos positivos e negativos em todos, algo que é muito complicado, e que uma tomada de partido no final não corta o mérito.
Tecnicamente falando, o filme está bem longe de ser original, ou de acompanhar a força de seu roteiro (que, quando foge do argumento central, também cai em situações fáceis). O figurino e a cenografia são visivelmente limitados (culpa de um baixo orçamento), e as atuações de alguns coadjuvantes beiram o amadorismo. A direção do desconhecido (pelo menos para mim) Christopher Smith é comum, e se utiliza de flashes, movimentos e cortes que buscam muito mais uma aventura épica do que uma reflexão temática como o roteiro permite, o que faz com que Morte Negra acabe se tornando um filme acessível a todos, mesmo que a maioria fique estagnada na exterioridade da direção de Smith.

Confesso que me surpreendi com a capacidade argumentativa deste filme, o que não o torna um filmaço, mas o torna reflexivo; algo cada vez mais raro hoje em dia. A verdade é que Morte Negra exige uma análise muito mais historiográfica e filosófica do que propriamente cinematográfica, porém, como este não é o intuito chave do blog, acredito que os pequenos entraves que citei sejam suficientes para despertar a curiosidade para um filme pequeno, que estreou no Brasil direto em DVD e que se sai muito melhor que a capa ou a sinopse. Muito mais que lido ou comentado (sobre o mesmo), Morte Negra é um filme que deve ser visto. Uma boa surpresa.


(Black Death de Christopher Smith, Alemanha/Reino Unido - 2010)


NOTA: 7,5

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

THOR


Um filme igual para um herói diferente; esta talvez seja a melhor forma de definir o petardo do clássico diretor Kenneth Branagh e sua iniciativa em filmes que são diretamente comerciais. Se levarmos em consideração que Branagh, é considerado por muitos (inclusive por mim), como a versão moderna de Sir Laurence Olivier, pela capacidade de transpor Shakespeare para o cinema; Thor é, além de totalmente incomum para o diretor, é algo que poderia ter sido evitado.

Branagh está nitidamente desconfortável. Seus movimentos de câmera são lentos para um filme de ação, e falta time ao diretor para este tipo de produção, o que faz com que o filme fique um pouco dramático em excesso. Os efeitos especiais são legaizinhos e o filme é bem colorido, às vezes um pouco demais, às vezes contrastando bem com a fotografia, o que nos leva a crer que, devido ao não domínio de Branagh no gênero, estas partes tenham sido inseridas quase que sem sua supervisão, transformando Thor em um filme cortado, repartido e que não consegue criar universos muito conectados.

Se Thor perde para outros filmes baseados em heróis de quadrinhos em sua parte normalmente mais forte (cenas de ação e efeitos especiais), ele ganha em plásticas e condução de atores. O filme tem uma fluência mais calma e se utiliza da mão forte, porém mais clássica de Branagh, para formar um clima menos explosivo e mais receptivo a uma parte menos específica para o gênero, porém mais altiva para espectadores em geral.

Falando deste jeito, parece que entro em contradição, pois até agora descrevi Thor como sendo diferente dos outros filmes do gênero, o que geraria um paradoxo com minha primeira frase deste texto. A questão é que, acidentes a parte, a essência do negócio é a mesma. Como quase todos os filmes baseados em quadrinhos, Thor funciona bem como entretenimento de domingo à tarde, mas deixa bastante a desejar quando o assunto é cinema de qualidade propriamente dito. O que faz Thor mais interessante que grande parte dos outros heróis, é a questão mitológica que o envolve. Tenho certeza que se Branagh fosse mais adequado e envolvido com o clima em geral, este aspecto teria sido mais bem desenvolvido, o que faria com que Thor tivesse, não apenas um atrativo a mais, mas um grande atrativo. 

Eu até gostei do filme, mas confesso também que, por gostar do herói envolvido e por possuir uma grande admiração pelo trabalho de Branagh estava inclinado a isto; contudo, admito que o filme seja mediano e que não possui muitas pretensões além de “ser mais um”. No final das contas, o Thor de Branagh me passou a mesma sensação que o Harry Potter de Alfonso Cuáron: é muito talento para pouco filme. Thor seria um filme melhor sem Branagh, assim como Branagh poderia ter se livrado dessa. Um filme meão, de puro entretenimento e sem muitas pretensões, e é apenas deste modo que o mesmo funciona, contudo àqueles que esperam dele mais que isso, melhor procurarem outra coisa.


(Thor de Kenneth Branagh, EUA - 2011)


NOTA: 5,5

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O REI LEÃO



Dezesseis anos separaram a primeira desta que se deu ontem. Ao longo destes dezesseis anos muitas coisas aconteceram inclusive outras trinta e uma vezes este mesmo momento, esta mesma situação. Ontem completei trinta e três vezes, e precisei de todas estas para realizar aquilo que pode sim ser chamado de um “pequeno sonho”. Ainda me lembro do longínquo ano de 1995 e da primeira vez que tive em minhas mãos, ainda pequenas por pertencerem a um pequeno e magro garoto de nove anos, uma hoje velha fita VHS de cor verde com um brilhante adesivo em uma das partes que dizia “Ao terminar o filme, favor rebobinar a fita”, com ameaça de multa caso tal ato não fosse realizado pelo sujeito alugador. Aguardava tal momento com muita ansiedade, pois o filme em questão já estava consagrado por sua grandiosa passagem pelas salas de grande tela.

O fato de ser ainda um garoto, e principalmente de residir na “grande megalópole” de Taiaçu, interior de São Paulo, município que não inclui em suas raras opções de lazer, uma sala de cinema, impediram este ser que vos declama agora de acompanhar as aventuras de Simba e sua turma no cinema, fato que já naquele momento me deixou chateado. Contudo, devido à minha jovialidade, não havia ainda percebido o quanto aquilo significava para mim, fato que com as várias investidas do VHS ou DVD em posteridade fui percebendo e clareando-o em minha mente, até que cheguei à devida conclusão. Não ter tido a oportunidade de acompanhar o clássico O Rei Leão no cinema era uma das grandes frustrações de minha vida cinematográfica ou até mesmo comum.

Nunca deixe de declarar minha admiração por tal obra, fato, que ainda hoje sempre a postulo como um de meus filmes favoritos, adentrando de forma simples e rápida às minhas listas de “10 filmes favoritos”; todavia, jamais imaginei que teria outra chance; jamais imaginei que teria a chance de superar uma frustração fixada em mim por minha, na época jovialidade e má localização geográfica, mas eis que eu vi a luz, ou melhor, eu vi a oportunidade.

Graças ao advento da tecnologia 3D que eu tanto critiquei (e ainda critico), tive a oportunidade de acompanhar o relançamento de O Rei Leão no cinema; isto mesmo; de um dia para o outro, este “pequeno sonho” se transformou em uma grande realidade. Dirigi-me até o cinema com um sorriso no rosto, algo que me acompanhou o dia todo antes da sessão, e que se mostrava sempre acompanhado de uma grande ansiedade. Ao meu lado, minha aspirante a esposa e atual namorada, acompanhante certeira e precisa em minhas cinematográficas, e que estava muito mais feliz por participar da realização de um sonho pessoal de seu namorado do que pelo próprio filme em si. Imaginei que demoraria um pouco para me emocionar, mas estava enganado; pois com apenas cinco minutos de filme e soar alto dos acordes de Circle Of Life em versão dublada, desabei e me entreguei às nostalgias de uma época ultrapassada e ao mesmo tempo infinitamente presente em mim.

O 3D nada mais foi que um detalhe, e não interferiu em nada na superação de uma frustração. Tudo estava ali, grande, forte, alto, como eu sempre quis e imaginei. A cada passo do pequeno Simba, a cada soar da voz poderosa de Mufasa, a cada ironia do malévolo Scar, a cada gargalhada espantosa do trio de hienas formado por Shenzi, Ed e Banzai, a cada resmungo do calau Zazu, a cada brilho dos olhos azulados da leoa Nala e dos olhos amarelados da matrona Sarabi, a cada ensinamento do babuíno ancião Rafiki e a cada peripécia da famosa dupla formada por um suricate e um javali e que atendem pelos nomes de Timão e Pumba respectivamente, a emoção retumbava e se fazia estourar dentro de uma criança que ainda sobrevive em um corpo de vinte e cinco anos de idade, algo que, aliás, eu nunca fiz questão de esconder.

Poucos filmes produzem isso, poucas coisas te elevam a sensações que ultrapassam fronteiras temporais e espaciais e conectam intervalos que até poucos momentos pareciam simplesmente incongruentes e impossibilitados de qualquer convivência; à baila disso, surge um elo, uma conexão, que age como um movimento de destreza, indo e voltando de acordo com seu bel-prazer pelo minúsculo espaço mimético de nossa mente. O Rei Leão sempre foi muito mais que um filme, sempre foi um marco, e ajudou a moldar o ser humano que hoje julgo ser, e devido a isso, não poderia deixar passar mais uma oportunidade de homenagear e agradecer tudo o que esta obra fez e ainda faz por mim, pois tenho absoluta certeza, com o perdão da possível redundância, que terei ainda meu momento trinta e quatro, trinta e cinco e assim por diante. Sendo assim, por tudo aquilo que me ensinastes, por todos os grandiosos momentos que passei contigo, por todas as visões e emoções maravilhosas que me provocastes, e principalmente; por dezesseis anos de presença, onde sempre pude contar contigo, sempre que quis, ofereço meus singelos agradecimentos a você O Rei Leão, e que se siga assim o eterno ciclo da vida. Muito Obrigado.


(The Lion King de Roger Allers e Rob Minkoff, EUA - 1994)


NOTA: 10,0

segunda-feira, 18 de julho de 2011

HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE PT. II


Sem dúvida alguma, ontem, em uma tarde calorosa de domingo, estava eu à frente do filme mais esperado do ano. Por fãs pelo simples fato de serem fãs, pelos não-fãs, por terem mais uma oportunidade de criticarem a série, e pelos curiosos (como eu), que simplesmente tinham vontade de ver o final desta história que se tornou fenômeno no mundo todo.

Concordando ou não, o fato é que a saga Harry Potter é um dos maiores fenômenos da história do cinema, mesmo quando verificamos muito mais o âmbito do apelo popular do que propriamente da inovação ou da contribuição técnica para o desenvolvimento da sétima arte. Contudo, faltava a cereja no topo do bolo. Ao que tudo indicava, e eu acreditava nisso, a saga do bruxinho deixaria o palco cinematográfico sem sequer ter produzido um grande filme, desconfiança que aumentou após a problemática primeira parte de As Relíquias da Morte. Entretanto para a alegria de todos, incluindo a minha, e para desespero dos críticos mais “cegos” da saga, eles conseguiram: se faltava um grande filme para colocar de vez a odisséia de Harry Potter entre as grandes sagas da história do cinema, aos 45 do segundo tempo o gol saiu. Harry Potter e As Relíquias da Morte Pt. II é, de longe, o melhor filme entre os oito anteriormente produzidos.

Poucas vezes eu vi um filme de aventura e fantasia com um ritmo tão alucinante. Yates consegue um ritmo tão frenético e ao mesmo tempo tão sensato (algo muito difícil de fazer), que a atenção do espectador não se desvia da tela um minuto. Minha única crítica a direção e talvez ao próprio filme, é o fato de que o diretor não consegue sequenciar muito. Com isto eu quero dizer que, eu não gosto do modo como Yates em alguns momentos está acompanhando uma cena, e ao invés de continuar no mesmo plano, ele corta e às vezes fica quase que na mesma tomada, isso prejudica um pouco o andamento da coisa, todavia admito também, que tal observação é muito mais um capricho e uma preferência minha do que uma falha propriamente dita. Acho necessário voltar a frisar que quem escreve aqui é um espectador não fã, já que ao contrário de As Relíquias da Morte Pt. I, esse novo filme funciona e muito bem, para qualquer espectador, e o livro não é mais necessário para uma compreensão precisa da fita. Não há cenas desnecessárias e muito menos aquela sensação de que o filme está se arrastando única e exclusivamente para gerar corpo para acoplar minutagem.

O roteiro é bem enxuto e consegue sempre se fixar naquilo que realmente importa, não há desvios ou peças deslocadas. Yates consegue amarrar todos os nós que vinham se desenvolvendo ao longo dos outros sete filmes, e faz isso com uma precisão milimétrica. Eu não li todos os livros (estou terminando o terceiro), porém vi todos os filmes e mais de uma vez, e não consigo me lembrar de nenhum aspecto que ficou mal amarrado ou que tenha sido necessária uma hipótese ad hoc (considerando-se aqui a inclusão de novas, pois a saga em si, utiliza-se de muitas), em outras palavras, a saga foi realmente finalizada e em todas as suas nuances.

O elenco merece atenção especial, tanto o trio de protagonistas e principalmente os “coadjuvantes”. O filme resgatou vários personagens e proporcionou aos respectivos atores oportunidade para se divertirem e melhorarem a qualidade de suas interpretações em relação aos últimos filmes. Julie Waters como a mão dos Weasley e Maggie Smith como a Profa. Minerva possuem cenas sensacionais, isso para ficar em apenas dois exemplos. Alan Rickman sempre foi um destaque com sua peculiar interpretação do misterioso Severo Snape, porém sua melhor atuação no personagem foi quando este último revelou seus mistérios, fazendo com que aqui encontremos sua melhor colaboração com a saga. Fenômeno parecido ocorre com Ralph Fiennes que constrói um Voldemort sensacional e com uma garra não vista nos filmes anteriores. Assim como Rickman, Fiennes também nos proporciona aqui sua melhor atuação como Voldemort.

O trio principal evoluiu muito ao longo dos anos, logicamente que isto não os transforma em grandes atores, porém é possível que algo bom surja dali (puro achismo). Radcliffe finalmente vive Harry Potter ao invés de simplesmente atuar, e consegue se relacionar muito bem tanto com o espectador como com os outros atores do elenco. Em um efeito meio Denzel Washington/Robert Downey Junior, Radcliffe se transforma aqui em um ator espaçoso e que ocupa as cenas com muita força. Vale ressalva que esta é uma característica do personagem e não do ator, e isso era sempre um problema nos filmes anteriores, pois Radcliffe não conseguia ocupar os espaços que o personagem por si só precisava ocupar, algo que “antes tarde do que nunca” acontece aqui. Ponto para o jovem ator, que assim como os dois veteranos acima citados, empresta a este último capítulo sua melhor atuação, só que neste caso, estamos diante da melhor de sua até o momento curta carreira. No final das contas, me parece que todo o elenco sentiu que tudo terminava ali, e que eles precisavam deixar uma boa impressão, fato que fez com que todos palpitassem com o filme como nunca havia acontecido antes.

A parte técnica que sempre foi impecável, não perderia a mão aqui para estragar tudo. Efeitos especiais precisos, uma fotografia com tons sombrios que se mostra muito engenhosa e condizente com o clima do filme, além da já conhecida e ótima trilha sonora e de uma edição de som de arrepiar em alguns momentos (os sussurros de Voldemort são simplesmente assombrosos); ou seja, tudo nos conformes.

Chega então ao fim uma saga que merecia um filme como este. Uma saga que viu grandes atores como parte dela, em participações pequenas (Kenneth Branagh, Jim Broadbent, Richard Harris, Gary Oldman entre outros citados ou não neste texto) ou mesmo acompanhando toda a saga (Robbie Coltrane, Jason Isaacs, Fiona Shaw e outros citados ou não neste texto), uma saga pela qual passaram quatro diretores diferentes e que passou por altos e baixos. Harry Potter e As Relíquias da Morte Pt. II se une ao quarto filme e ao sexto como os meus favoritos (o segundo também), com o lembrete de que aqui estamos falando de um filme com um algo mais, um algo mais que pode ter vindo de vários lugares, e que encontra sua importância em um resultado final que superou todas as minhas expectativas. A saga Harry Potter terminou, porém se manterá viva, sendo vista e revista ao longo de muitos anos, por fãs, não-fãs e curiosos, ou seja, por todo tipo de amante de cinema. Parabéns aos envolvidos e aos fãs também, já que nunca desistiram da saga, e a recompensa veio, mesmo que, como dito antes, aos 45 do segundo tempo, mas qualquer adepto do futebol sabe que mesmo nos acréscimos, se estiver dentro das regras o gol é legal, e ganha o jogo.


(Harry Potter and the Deathly Hallows Pt. II de David Yates, EUA - 2011)
 
 
 
NOTA: 9,0

terça-feira, 5 de julho de 2011

EM NOME DO REI


Quando comecei a assistir Em Nome do Rei já tinha em minha mente que se tratava de um filme que havia concorrido ao Framboesa de Ouro de pior filme, além de ter recebido críticas pesadíssimas dos críticos e ter gerado uma ira nos fãs ortodoxos do game no qual o filme foi baseado, que atende pelo nome de Dungeon Siege e que eu não sei nem se tem nome em português e também não tenho a menor idéia como é este jogo.

Fica claro então que eu não faço parte dos fãs cruéis que massacraram Em Nome do Rei por não representar bem o jogo, porém eu faço parte daqueles que entendem as críticas pesadas e também a indicação ao Framboesa de Ouro. É lógico que eu já vi coisa pior, inclusive outro filme do diretor Uwe Boll, no caso o terrível Alone In The Dark, agora o filme foi cercado de expectativa, e um dos grandes pontos a favor de um filme para este concorrer ao Framboesa de Ouro é a decepção que causa, muito mais até que a baixa qualidade.

Em Nome do Rei tem tantos problemas, que se eu resolvesse detalhar todos, tenho certeza que me alongaria excessivamente para um texto que fará parte de um blog, assim sendo, me aterei àquelas que considero mais fortes e mais imperdoáveis. Começo pela análise da direção do alemão Uwe Boll, que, de diretor não tem nada. É impressionante como Boll não consegue criar profundidade em nenhuma cena. Tudo é muito corrido, a câmera parece pendurada em algum lugar enquanto os atores pulam na sua frente. Ele erra nos enquadramentos e não consegue sequer criar o clima necessário para o decorrer do que se propõe. Para resumir em poucas palavras, ou melhor, em uma, lastimável, já que nem quando ele tem a chance de se utilizar dos planos abertos que encaixariam melhor as batalhas e esconderiam um pouco à falta de criatividade do diretor o resultado é diferente, o que me leva a perguntar como um cara desses consegue emprego no cinema?

O elenco, recheado de nomes conhecidos, porém poucos confiáveis demonstram o porquê de tal condição. Jason Statham até briga bem, mas querer que ele demonstre emoção é querer demais, simplesmente não dá. Leelee Sobieski parece uma pedra andando e não consegue desenvolver uma personagem que no final das contas não possui função nenhuma. Burt Reynolds não se livra em nenhum momento de sua cara de canastrão o que faz com que seu “rei justo e bondoso” pareça até uma piada. Agora, nada se compara as atuações irritantes e cruéis dos vilões do filme. Ray Liotta e Matthew Lillard nos proporcionam interpretações que beiram o amadorismo. Para não jogar tudo no lixo quanto às atuações, John Rhys-Davies, Will Sanderson e Claire Forlani até se esforçam, mas esbarram em personagens mal utilizados e mal construídos pelo roteiro, se é que se pode chamar uma história tão bobinha, tão clichê e tão sem imaginação de roteiro. Previsível, cheio de buracos e de saídas fáceis, o argumento do filme se transforma em uma união de tentativas de cenas de ação mal feitas, com dramas e aventuras medievais misturadas a elementos de fantasia, com direito a monstros e magia agregados ao mesmo.

Como se não bastasse, os efeitos especiais do filme são péssimos e a edição de som usa e abusa de tilintes e de “sons da natureza”, insistindo nestes, mesmo quando uma música se faria mais precisa. Aliás, se podemos salvar algo desta baderna cinematográfica, este algo é a trilha sonora, e com um ou outro deslize, o figurino também não faz feito, mas venhamos e convenhamos que é muito pouco, para um filme que possuía pretensões não muito modestas, ainda mais por estar incluído na turma das adaptações de um dos elementos mais fortes e de fãs mais radicais que existem, no caso, os fãs de vídeo games.

Tenho certeza que para os fãs do jogo citado em nosso primeiro parágrafo a decepção foi grande, e também tenho certeza que estes fãs torcem para Boll não resolver “adaptar” outro jogo para o cinema, eu pelo menos torceria, pois, se Alone In The Dark já era um filme de qualidade muitíssimo questionável (sendo bonzinho), Em Nome do Rei segue uma linha bem parecida, por mais que seja “menos pior” que o citado antecessor. Nem mesmo a boa Skalds and Shadows da banda alemã Blind Guardian tocando no menu e nos créditos salva isto aqui.



(In The Name Of The King: A Dungeon Siege Tale de Uwe Boll, Alemanha/Canadá/EUA - 2007) 



NOTA: 3,0

terça-feira, 21 de junho de 2011

X - MEN:PRIMEIRA CLASSE


Os filmes de super heróis tem dominado, ou pelo menos marcado forte presença, todo ano da parte mais comercial do cinema, ou seja, vários dos blockbusters que enchem as salas de cinema de nosso país e do mundo todo possuem suas origens nos quadrinhos que outrora divertiram gerações não tão cinematográficas. Em sua grande maioria, os filmes de super heróis esbarram na falta de contundência para adaptar o quadrinho como um todo, ou por tentar uma adaptação mais ipsis literis do quadrinho, acaba se tornando um filme de público muito limitado e dependente da assimilação do quadrinho em si pelo público.

Como raras exceções, temos os ótimos dois primeiros filmes do Homem-Aranha, Os Batmans de Tim Burton e Christopher Nolan (isso para ficar apenas da produção mais “moderna” do cinema de super heróis) e os dois primeiros filmes de Bryan Singer na primeira trilogia da própria trupe de mutantes comandados pelo enigmático professor Xavier. Contudo, após dois filmes interessantes, a franquia X-Men desandou e produziu um terceiro filme que não acompanhava o mesmo ritmo dos dois primeiros (Bryan Singer deixa a franquia e dá lugar a Brett Ratner e a diferença é gritante entre a filmagem dos dois) e um X-Men Origens: Wolverine simplesmente patético. De tal maneira, a maioria das pessoas ao saber da produção de X-Men: Primeira Classe conviveu com um embate de esperança (com a retomada de bons filmes sobre os mutantes) e de medo (afinal, a coisa poderia ficar ainda pior). Pois bem, sai do cinema com a certeza de que existe uma luz no fim do túnel para os mutantes de Charles Xavier, já que X-Men: Primeira Classe provavelmente é o melhor filme que envolve estes personagens tão famosos e idolatrados por alguns.

O filme é dirigido por Matthew Vaughn, o mesmo diretor de Kick Ass, e isso interfere muito. Vaughn dá uma roupagem ao filme totalmente nova se considerarmos os filmes de super heróis, já que ele transfere o eixo principalmente do contexto para um elemento mais dramático. Muito mais que o desenvolvimento do caráter heróico ou maléfico dos personagens, e a construção de sua identidade como mutantes, Vaughn trabalha as necessidades e vicissitudes dos seres humanos que se vêem perante uma situação nova. O enquadramento e os ângulos de Vaughn, que privilegiam as expressões dos atores e suas facetas, ao invés de voos e elementos parafernálicos, mostra claramente que a intenção do diretor é mostrar que por trás de tudo aquilo, existe algo interessante, existe algo a ser trabalhado e que aposta na cognição do filme em si. O resultado é que X-Men: Primeira Classe muito mais que um filme de super herói, e acima de tudo um filme, já que Vaughn consegue superar em vários momentos as limitações e clichês do gênero, mas sem perder a identidade.

A proposta de Vaughn necessita então de suporte interpretativo, em outras palavras, de bons atores, afinal, aqui ao contrário de grande parte dos filmes do gênero tem que se saber atuar. O tripé então se fecha com as atuações e caracterizações inspiradas de James McAvoy como Charles Xavier e Michael Fassbender como Magneto. Este último é de longe, a melhor atuação de um ator na franquia dos mutantes. Ao mesmo tempo em que encontra nos protagonistas atuações primordiais, o elenco de coadjuvantes é comum, e não se mostra tão forte assim. Não que as atuações sejam ruins, mas não possuem o brilho da dos protagonistas, e às vezes não seguram a bronca que exige o trabalho de Vaughn. Em outros filmes de super heróis as atuações dos coadjuvantes seriam boas, mas para este aqui são normais.

O trio básico de construção de um bom filme, no caso direção, atuação e roteiro atua aqui de forma espantosa, e cria um efeito até engraçado, já X-Men: Primeira Classe se sobressai onde os filmes deste gênero normalmente falham e falha onde estes mesmos normalmente se sobressaem. Os efeitos especiais e a edição de som da fita possuem momentos problemáticos, além de um problema de caracterização de época e de figurino bem forte. Alguns personagens não estão bem caracterizados como a Mística de Jennifer Lawrence, que está muito chorosa e aquém de suas peripécias do gibi, e o Fera, que em alguns momentos parece mais um filhote de gato do que qualquer outra coisa, ponto negativo para a maquiagem também.

 
X-Men: Primeira Classe não é um filme perfeito, mas busca superar as barreiras de um gênero que angaria fãs normalmente ortodoxos, realizando esta superação de forma muito coerente e precisa. Confesso que fiquei feliz com o resultado do filme de Vaughn, já que realmente prefiro um filme que falhe na parte técnica e artística, mas que se mostre excelente no clássico trio acima neste texto citado, do que o contrário. Se isso já é bom, em filmes que buscam este aspecto, imagine em um gênero que não preza muito por este lado, digamos assim, mais “clássico” do cinema. Uma grata surpresa e um bom filme.


(X-Men: First Class de Matthew Vaughn, 2011 - EUA)


NOTA: 7,5

sexta-feira, 10 de junho de 2011

HERÓIS FORA DE ÓRBITA


Um filme como este Heróis Fora de Órbita é sempre complicado de se analisar, já que é difícil entender os propósitos e o real intuito de uma fita como esta. De tal modo, é necessário que se tome um partido e meio que se adivinhe o porquê um filme deste foi feito e por que foi feito de tal maneira "x" e não "y". Heróis Fora de Órbita é uma comédia sobre um seriado de TV no estilo Jornada nas Estrelas que fez muito sucesso em uma determinada época. O sucesso foi tanto que até o presente os atores deste seriado sobrevivem aparecendo em shows e convenções sobre o mesmo seriado, já fora do ar tem muito tempo. O que eles não imaginam é que um povo de um planeta longínquo captava o seriado e acredita que àqueles atores eram reais e criaram todo um sistema de defesa e navegação baseado no seriado para combater um alienígena dominador. Esse povo seqüestra os atores para que os mesmos guiem esta nave e salve seu planeta.

Partindo desta ideia que em grande parte soa bem bobinha, cria-se um entretenimento leve, sem qualquer pretensão de grandiosidade e que acaba se transformando naquele filme estilo “sessão da tarde”. O filme não é ruim, pelo contrário, possui momentos bem divertidos até, mas não procure por aqui momentos de genialidade técnica, nem piadas inteligentes ou críticas; o humor aqui é básico, atinge uma classe determinada (no caso o público mais nerd) e procura fazer seu papel de uma forma coesa, porém sem brilho.

Heróis Fora de Órbita não inova em nenhum momento e explora com todas as forças aquilo que tem de melhor, que é seu elenco, desde o principal (com destaque para Alan Rickman em mais um papel ranzinza, que ele sempre faz muito bem e para Sigourney Weaver interpretando uma daquelas personagens deste tipo de seriado que não possui função nenhuma e transformando isso em algo bem divertido) até o coadjuvante (com um Sam Rockwell em início de carreira que está muito legal, um Justin Long frenético no papel do hiper-fã do seriado e ainda a presença de Tony Shalhoub o eterno Monk), apoiando em suas capacidades interpretativas um roteiro simples, sem grandes propostas, mas que funciona com uma pequena dose de boa vontade do espectador.

Esqueça os momentos de psicologia barata e excesso de moralismo, pois os mesmos são poucos e não prejudicam o filme, e se deixe levar pelo clima agradável de um filme que é puramente para entretenimento e diversão. Por mais que exija que o espectador “compre a ideia”, se feito, Heróis Fora de Órbita se torna um bom passatempo, mas nada mais que isso, o que eu acredito já gerar uma sensação de sucesso em seus realizadores, pois não acredito que o filme aspirava ser mais do que isso, ou seja, um bom passatempo.


(Galaxy Quest de Dean Parisot, EUA - 1999) 


NOTA: 6,0

quinta-feira, 2 de junho de 2011

WATCHMEN - O FILME


Logo na capa do DVD de Watchmen, encontramos a seguinte frase: “Do visionário diretor de 300”. Visionário é uma palavra forte e que exige sustentação em qualquer contexto, contudo, no meio cinematográfico seu sentido é ainda mais forte, significando um elemento inovador, ou algo que consiga se lançar à frente do seu tempo, revolucionar, inovar e alterar de alguma forma a linguagem cinematográfica, mas não apenas em aspectos particulares, mas em âmbito, nos remetendo a sensações de que um filme nunca mais será visto da mesma forma, depois de tal experiência. Nomes como Fellini, Tarkovsky, Kubrick, Von Trier e tantos outros, realizaram tal proeza e hoje se colocam como gigantes do cinema. Dito isto, trago uma questão ao leitor: Após a experiência de quase três horas que Watchmen proporciona, é possível encaixar Zack Snyder, o diretor de tal obra como um visionário? E a resposta é: Não.

Em Madrugada dos Mortos já presenciamos um diretor, que por mais ousado que possa ser, é bem falho em preceitos básicos de direção, mesmo assim, o filme é até legalzinho, algo que também acontece em 300, obra ovacionada por público, mas que está longe de ser um grande filme. Não dá pra negar, que Snyder consegue como poucos se utilizar de efeitos visuais e especiais para criar todo o clima de seus filmes, agora é nítido também que seus filmes carecem de algo que pra mim ainda é muito importante; e este algo atende pelo nome de roteiro. Watchmen tem visual arrasador, efeitos especiais de cair o queixo e uma barulheira proporcionada pelo ótimo trabalho de som que chega a doer os ouvidos, todavia, ficam algumas perguntas: desde quando isto basta para se fazer um grande filme? O que aconteceu com o velho e bom tripé direção, roteiro e atuação? Não é possível se utilizar dos novos rumos cinema em união com este antigo e fiel tripé?

Tais perguntas são pertinentes, e a resposta para elas possa ser encontrada em um simples exemplo do ano passado. Christopher Nolan nos mostrou com o seu A Origem, que é possível unir bons efeitos com bons argumentos, profundidade com tecnologia, ou seja, filmes como Watchmen perdem seu apoio com o aparecimento de filmes como A Origem, já que é pra nomear e adjetivar prefiro dizer que Nolan é um visionário e não Snyder.

Watchmen é um filme extremamente vazio, sem conteúdo algum e que se aproveita de movimentos tecnológicos de última geração para esconder uma falta de cérebro poucas vezes vista nos últimos tempos, e o pior é que Snyder sabe disso e não faz nada para rebater, deixando claramente a imagem de o diretor em questão sabe que o público de seu filme e não quer nem saber do restante, em outras palavras; podemos dizer que Watchmen é um filme assumidamente sem roteiro, feito para um público que não se importa nem um pouco com isso, e quer ver mesmo é bordoada na tela, efeitos de última geração é barulheira.

Não li os quadrinhos, então não tenho a menor intenção de realizar uma comparação entre as fontes, me atendo apenas ao filme. Assim sendo, tenho apenas a dizer que Watchmen é uma experiência conturbada, cheia de buracos e que menospreza demais a capacidade cognitiva de seu público, praticamente jogando na cara que tudo aquilo só funciona devido ao baixo teor intelectual daqueles que o acompanham, ou, para não ser tão prepotente, devido ao descaso de seu espectador pela existência de um bom roteiro por detrás de todo o aparato tecnológico.

No final das contas, Watchmen se mostrou mais um produto de um estilo de cinema que se esquece de elementos artísticos e abusa de elementos tecnológicos. Peço desculpas por soar arcaico ou reacionário, mas a verdade é que muitos podem não ligar para a falta de compromisso com um bom roteiro de algumas obras, porém para este ser que vos fala um bom argumento ainda é o ponto mais importante de um grande filme, assim sendo, analisando a capacidade de Snyder com roteiros, direção de atores e outros aspectos menos tecnológicos (já que o aspecto tecnológico, incluindo som e efeitos especiais principalmente é o território que Snyder domina muito bem), para encaixá-lo na categoria de visionário e igualá-lo a nomes como os citados neste texto e muitos outros só nascendo novamente.

(Watchmen de Zack Snyder, EUA - 2009)


NOTA: 3,5