ENCONTRE AQUI

quinta-feira, 10 de março de 2011

CARAVAGGIO


Geralmente, um filme que se propõe a tratar/relatar a vida de alguém, ou seja, uma obra biográfica, se espera desse filme uma reconstrução quase perfeita da vida desse alguém, se for de época, que retrate o mais parecido possível com a tal época, que tenha ricos detalhes da figura em que o filme repousa. E Caravaggio é um filme biográfico, trata sobre a vida do famoso artista Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571 - 1610). No entanto, me parece quase impossível narrar a vida de alguém ou um acontecimento de algo, sem que quase não haja fontes nenhuma para tal feito, como calhou à Caravaggio. Contudo, o diretor Derek Jarman se arriscou e apostou alto.

Exposto que quase não há dados biográficos sobre o primeiro pintor moderno, além das obras e algumas histórias duvidosas do mesmo, é de se perguntar se a fita consegue realizar aquilo que se propõe, se de uma centelha consegue-se fazer uma fogueira. A resposta, por incrível que pareça, é sim. Jarman, apesar de tais dificuldades, entre outras como o baixo orçamento, reinstituiu a figura Caravaggio a partir desses poucos elementos e rumores que se tem, explorando-os no ultimo para abordar impetuosamente sua vida religiosa e homossexual, intrínsecos à sua obra de arte.

Michelangelo Caravaggio (Nigel Terry) pintava quadros religiosos, cenas bíblicas com um peculiar toque mundano (lembrando que suas obras estavam intimamente ligadas ao seu modo de vida). Mas a característica mais marcante, e o que o consagrou como o pai das obras renascentistas, certamente são seus jogos de luz bruscos que imprimia em sua pintura: geralmente, o fundo quase negro, e luz ressaltando expressões ou detalhes mais importantes na obra. E Jarman tomou cuidado especial para que, assim como as telas do pintor, o próprio filme ganhasse um ar à lá Caravaggio, luz e sombra quase o tempo todo, nos proporcionando uma sensação de contato com a própria obra de arte. Conforme Caravaggio pinta suas telas, Jarman vai inserindo uma história de sua vida pessoal ligada a tal obra, e assim relata seu triângulo amoroso com dois de seus modelos, dando ênfase o tempo inteiro a sua homossexualidade; também incrementa aqui e ali partes de sua vida promiscua com brigas de bares e até mesmo quando matou um dos amantes.

É explicitamente manifesto que o filme é mais uma própria interpretação do diretor do que construído em bases de dados concretos. Uma prova disso é quando o espectador está inserido num ambiente medieval e se depara com alguns trajes contemporâneos, um caminhão e um telefone. Mas certamente que é proposital por parte de Derek Jarman, que tem a clara intenção de transcender a figura de Caravaggio, mostrar a imortalidade de um gênio.

E apesar dessa boa construção, dessa certeira interpretação do diretor, e menciono aqui também as boas atuações, que ressalto a de Sean Bean, interpretando um dos amantes de Caravaggio, e das muitas 'sacadas' genias como a trilha sonora (recheada de Johann Sebastian Bach), a já mencionada fotografia e até mesmo certos detalhes misturando a época medieval com a contemporânea, em alguns momentos (mais especificamente da metade da película rumo ao fim), me parece que a fita tem problemas de andamento, às vezes ela se perde no roteiro, nos jogos de câmera, mudança de cenário sem propósito e custa um pouco para achar seu ritimo novamente (que se dá no fim). Mas no todo, ainda com esses problemas, é um bom filme, que não à toa, ganhou em 1996 o urso de Ouro no Festival de Berlim.


(Caravaggio -1986)


NOTA: 8,0

Nenhum comentário:

Postar um comentário