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segunda-feira, 28 de março de 2011

COMO APRENDI A PARAR DE ME PREOCUPAR E AMAR O 3D



Num desses dias acordei com o espírito desbravador de mundos, uma vontade digna de Colombos, Copérnicos e Marco Pólos. Dizem que toda grande viagem ou maldição começa com a dúvida, esta vulva berçário do desconhecido que enlaça-nos em seus convites de novas e dantescas aventuras. No cinema uma coisa que recentemente me seduziu foi esta bendita revolução 3D – e na espreita de trocar minha LCD por uma LED pintou a intragável questão de tê-la ou não tê-la. Juro de pé junto que, a despeito da minha cinefilia, nunca em toda minha vida tinha visto esse troço modernoso que dizem fazer saltar aos olhos ibagens, ibagens & mais ibagens.
 
Apesar de ser uma prática canastrona bastante antiga nos filmes de monstros da Hammer de 1940 parece que a coisarada toda evoluiu num sentido estético sem precedentes. Então desci do meu esnobe mausoléu de filmes antigos e adentrei bravamente em terreno totalmente desconhecido. Para averiguar cientificamente a potência do novo gênero decidi apelar para o primeiro título das manchetes, o pior dos piores (e quanto mais quente melhor baby). Uni-duni-tê o escolhido foi você: Justin Bieber 3D. Sim, sim, sim. Para que eu pudesse, de peito aberto, julgar a qualidade da novíssima estrutura não poderia de jeito nem maneira ser afetado pela grandiosidade da cinematografia antiga. Era necessário esquecer a tríade composta por roteiro, personagens e direção. Escolhi, portanto, o mais baixo espécime possível dentre todos os horríveis títulos possíveis. Se o ilusionismo de Cameron fosse capaz de tornar Justin Bieber interessante eu certamente me renderia aos seus lampejos de genialidade tecnológica.

Vovó já dizia “se precisa fazer algo ruim, ao menos faça com estilo”. Então, munido do meu melhor Ray-Ban, camiseta Bad-Boy, Tic-Tac sabor laranja e fardinho de budweiser caminhei os corredores do shopping-center à procura do alvo perfeito. Não existe nada mais bad-ass que usar óculos de sol dentro de locais fechados. Levem isso para a vida e para os corações de vocês meninos e meninas. E cá estava eu no cinema, local sacro-religioso que meus pés não tocavam desde a criação do Napster. Estranhamente o lugar fedia a perfumes da giovanna-baby e talco para pés, gritos histéricos ecoavam como trovoadas de domingo. Confesso que para quem espera na fila do Emule enfrentar uma legião de garotas de 12 a 15 anos para conseguir meu tão sonhado ingresso tridimensional foi fichinha. Apesar de se tratar do mesmo papel amarelo com o número e nome da sala arrisquei aproximá-lo à ponta no nariz afastando-o aos poucos, paulatinamente desenvesgando os olhos. Uma baita perda de tempo, diga-se de passagem, pois se nunca consegui ver os malditos barcos ou bustos daqueles livros em 1990 e não era agora, em 2011 e com o astigmatismo piorado, que conseguiria. Então deixei de lado esta primeira pusilânime tentativa e parti feito raio para a câmara escura. Para minha surpresa ganho sem mais nem menos outro par de óculos – desta vez com a finalidade de possibilitar que as imagens ganhassem profundidade – de modo que nem pensei muito antes de colocá-los por cima dos anteriores, num episódio que julgo ser o mais “sou foda” de toda minha vida. Double ray-ban forever.

Começa a sessão. Os letreiros anunciam o título do filme e as meninas, excitadas que só elas, não se agüentavam e soltavam peidinhos constrangidos devido o esforço de tapar o riso metálico com as mãos. Não via tamanha euforia num documentário desde a estréia de “O Triunfo da Vontade” de Leni Riefenstahl. E as semelhanças não param por ai: são duas histórias muitíssimo parecidas estas do Bieber e dos Nazis. Além de narrarem o nascimento de dois ícones em ascensão também agora, com o cantor mirim, os membros da tradição, família, igreja e propriedade e agentes da Ku Klux Klan- cansados de ver o vício do RAP dos subúrbios consumirem seus jovens e mulheres – investiram pesado em uma nova promessa que simbolizasse fidedignamente a direita branca. Justin surgiu como uma estrela nesta aurora ariana, um anjo loiro enviado por Deus para salvar a humanidade da black music de Shugarhill Gangs, Outkasts & Bar-Keys. E com uma frase similar à infame música do Wild Cherry disseram-lhe “play that funky music white boy”, dando inicio a um dos maiores nomes da música contemporânea. Se Hitler tinha seu bigode quadrático plágio de Charles Chaplin, Justin também adotou um cabelo digno do mitológico Chewbacca. Evidentemente aquilo é o mais próximo que um ser humano chegou da caracterização do personagem de Star Wars sem a utilização de cola quente e pelúcia. Podemos dizer que ele é 25% Chewbacca e provavelmente 38% judeu, dada a facilidade de ganhar dinheiro. Afirmo que fiquei encantado com esta nova descoberta.


A cena em que Bieber joga tridimensionalmente de lado seu cabelo num slow-motion cinético fio a fio, ocasião que mais parecia vir de propaganda da Garnier Frutis que da tela do cinema, impregnou no meu cérebro de forma violenta. E não sei se foram as buds ou as imagens alucinógenas do 3D, mas acabei desenvolvendo uma afixação por aqueles cachos chewbaccianos de modo que não demorou muito para que meu espírito se ajuntasse ao das jovens meninas num mesmo grito condescendente. Senti que em meu rosto eclodiam minúsculas espinhas, e atentei ao estranho fato de ter desenvolvido no transcorrer da exibição uma pequena calosidade na região dos mamilos, à maneira de limõezinhos. Sentia o estrogênio percorrendo minhas veias a todo vapor, estava kafkanianamente me transformando numa colegial. Enquanto fugia para casa de medo fui acometido por outro bizarro acontecimento: era só correr ou apertar o passo que minha visão era atravessada por infinitas fitas de luz branca como nas viagens mileniumfalconesticas à velocidade da luz. Por dias sonhei com Bieber, Chewbacca e incríveis aventuras musico-intergalácticas.

Hoje amo tanto o Justin que torço para que algum dia algum fã maníaco lhe dê um tiro bem na testa igual fizeram com John Lennon. No entanto não vamos encarar isso como uma atitude cruel de minha parte: não o quero morto. Não, não. Com o avanço da medicina e toda essa história de células-tronco ele provavelmente sobreviverá miraculosamente ao ferimento - afinal se trata dum garoto rico e importante, e para tipos assim o mundo sempre disponibiliza todo seu intelecto e afeição. Sim, todos serão gentis com ele neste terrível momento: cientistas, mulheres jovens, apresentadoras de televisão, párocos, jogadores de basquetebol e eu inclusive. Justin Bieber estará nas minhas orações mais sinceras, e sabem por quê? Porque o me interessa, meus caros, é justamente a conseqüência dessa sobrevida. Já viram caras que tomaram um tiro na testa e sobreviveram? É triste, muito triste. Sempre existem danos cerebrais de impossível restauração: às vezes não conseguem fechar um olho, movimentar uma perna, mas o mais comum mesmo é desenvolverem alguma deficiência de fala, sabem? Os médicos chamam isso de disartria, que ocorre devido à fraqueza ou falta de coordenação dos músculos envolvidos na operação da fala depois de um trauma cerebral.
Isso é terrível quando acontece com pessoas boas e entes queridos, mas imaginem agora um cara com esse cabelo obrigado a se comunicar com o mundo através das vocalizações arbitrárias "rrrrrrrrrrrrrnnnnnnnnnnhhhh, raawwwaw awawaw". A puberdade viria e junto dela as inevitáveis barbas por fazer. Antes que vocês caçoem de minha conjectura lembrem-se que um problema similar transformou Tom Cruise de um singelo cientologista homossexual para um fiel cosplay de ZZ Top em “Nascido em 4 de Julio”. É necessário entender a grandiosidade disso, esta será a melhor transformação humana desde o “vamos morfar” dos Power-Rangers.

imagem ilustrativa de Bieber jogando baseball após o acidente

Sim, meus companheiros, pela primeira vez as pessoas normais como eu e você poderemos comemorar tamanha desgraça sem sermos taxados de amorais. Pois o mundo, oras! o mundo contemplará o surgimento dum novo espécime muito mais evoluído, perfeito e icônico que todos os homens que já pisaram neste solo de meu Deus. Se trata de um half hitler/half bieber/half chewbacca. Eu até... eu até beberia as lágrimas do Justin Bieber em seus momentos de conflito interno de tão feliz que ficaria com a notícia.

Hoje posso dizer que Justin Bieber 3D me fez acreditar num mundo melhor.

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