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domingo, 17 de abril de 2011

ESTRADA PARA PERDIÇÃO


Segundo filme do diretor Sam Mendes, que havia sido ovacionado merecidamente por seu filme de estréia Beleza Americana, Estrada Para Perdição é um drama de máfia, que se passa no início dos anos 30, em meio a Grande Depressão, e que tem resquícios e citações vagas ao famoso Al Capone e todos os seus aparatos, o que nos leva à sua sinopse.

Tom Hanks interpreta Michael Sullivan, um assassino da máfia, que tem sua família assassinada pelo filho de seu chefe, após seu próprio filho de 11 anos ter presenciado uma ação conjunta de Sullivan e do filho do chefe. A partir daí, segue-se uma briga interna entre os membros da máfia e Sullivan que pretende se vingar. Sam Mendes novamente analisa as relações familiares e como elas interferem em toda a vida externa, vamos dizer assim, das pessoas envolvidas nesta, focando fortemente desta vez na relação entre pais e filhos.

Deve-se firmar o seguinte: Estrada Para a Perdição tem todo o clima de filmes de máfia, tem aquele toque de noir que todo filme de máfia possui, porém ele não é um representante preciso de tal gênero, já que Mendes se utiliza deste fundo para guiar sua análise das relações paternais em suas várias instâncias. Existem pelos menos quatro relações deste tipo que são colocadas ao espectador por Mendes: a primeira é a do personagem de Hanks com seu filho mais novo e que acaba assassinado, a segunda é a do personagem de Hanks com o seu filho mais velho, a terceira é a do personagem de Paul Newman (o chefe da máfia) com seu filho, e a última é a do personagem de Newman com o personagem de Hanks.

Devido ao andamento do filme, a primeira relação citada, se mostra comum, e a terceira, se mostra uma clássica relação entre um pai sensato e um filho mesquinho, mimado e metido a futuro magnata. Estas duas relações, por mais que tenham funções no filme, não compõem a cereja no topo do bolo, esta característica fica então com as outras duas relações.

A segunda e a quarta relações, não só formam a cereja no topo do bolo, como permeiam e criam todo o corpo do filme de Mendes. A relação entre o personagem de Hanks e seu filho que sobrevive ao massacre da máfia é interessantíssima e mostra as angústias de um pai que de repente percebe que está falhando em sua posição e de um filho que é obrigado a lidar com algo que ele sempre quis, mas que tem medo, ou seja, o próprio pai. A afinidade entre os dois cresce a partir do momento em que eles percebem que somente juntos eles conseguirão superar todos os obstáculos. A partir disto, Mendes cria uma convivência e uma relação de confiança entre os dois muito singela, muito simples e muito sincera, aonde os dois vão, juntamente com o filme, mostrando que a máfia é um pano de fundo, e que o que realmente importa é tudo aquilo que os envolve enquanto seres que se amam, e que precisam um do outro. O preciosismo de Mendes é vital para o funcionamento de tal relação, já que se ela não funcionasse, o filme também não funcionaria.

A quarta relação tem um caráter todo especial, pois é a única que não possui laços de sangue, mas sim de consideração pura, além de unir dois dos maiores atores que já passaram pelo cinema estadunidense. Os diálogos de Hanks e Newman são sensacionais e só nos mostram o quão bons são estes dois homens quando interpretam. Esta relação é mais periférica e Mendes se utiliza dela muita mais no aspecto interno do que externo. É a partir desta relação que o filme vai explodindo, até chegar ao seu auge. Se a relação entre o personagem de Hanks e seu filho é sempre estável dentro de seu cerco, a de Hanks e Newman mostra o crescimento de uma tensão e caracteriza a explosão interna que ocorre neste grupo de mafiosos, culminando em uma cena emocionante perto do final, ou seja, Mendes destrói o grupo em um movimento explosivo, de dentro para fora.

Essas quatro relações transformam o roteiro do filme em algo complexo, porém muito seguro e gostoso de acompanhar. O roteiro do filme só não é mais interessante por possuir alguns furos, possuir alguns problemas de ritmo, já que fica muito lento em alguns momentos e muito rápido em outros e colocar alguns personagens chatos e com manias estúpidas como o caracterizado pelo inconstante Jude Law. O pessimismo de Mendes também se encontra no desenrolar do filme, e está bem representado por uma cenografia brilhante, um figurino preciso e uma deslumbrante fotografia em tons verde-escuros se escondendo atrás de um preto que recria toda uma época negra para o país e para os envolvidos na trama, aliados à sempre impactante visão de “pessimismo por atacado” que muitas vezes estragam os filmes de Mendes, deixando bem claro que Estrada Para Perdição não é um dos “estragados”.

Um filme duro, triste e emocionante, mostrando mais uma vez o talento de Mendes em analisar as relações familiares e atrelá-las ao mundo exterior, com seus modos e consequências. Não é superior ao clássico Beleza Americana, mas também não foi superado por nenhum posterior filme da carreira de Mendes, além do fato de que assistir Tom Hanks e Paul Newman contracenando juntos é uma oportunidade que não deve ser perdida.


(Road To Perdition de Sam Mendes, 2002)


NOTA: 7,5

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