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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

MAMMA MIA! - O FILME


Musical baseado em uma peça da Broadway e que tem como músicas para o pano do desenvolvimento de seu roteiro os sucessos do grupo mundialmente conhecido ABBA. A sinopse é o seguinte:  jovem garota que está prestes a se casar convida três homens para a cerimônia e o motivo é básico; já que qualquer um deles pode ser o seu pai. É a partir da busca de Sophie (Amanda Seyfried), que a ação do filme acontece.

Entretanto pode haver alguma confusão, já que o centro do filme não é só Sophie, e sim sua mãe Donna (Meryl Streep), e as armadilhas que a presença dos três homens com quem se envolveu em um longínquo verão criam. Dito isto, temos que as músicas do grupo ABBA (muitas delas clássicos de uma geração), se encaixam muito bem, em um roteiro que tem qualidades interessantes, porém defeitos bem chatos de se aguentar.

Musicais são filmes difíceis de se fazer, pois beiram o exagero o tempo todo e Mamma Mia cai nesses exageros em vários momentos. Acredito que uma boa parte da responsabilidade por estes exageros é da estreante diretora Phyllida Lloyd, que apesar de não ter feito um trabalho ruim como um todo, peca em alguns momentos, basta ver como é mal filmado o número de The Winner Takes It All, que tinha tudo para ser um dos grandes momentos do filme, mas não ficou tão interessante assim.

A parte técnica e artística leva tranquilo. Os figurinos são bem escolhidos, assim como os trabalhos simples de maquiagem e direção de arte. Destaque também para o ótimo trabalho de edição e de fotografia, proporcionando belas imagens e ótimo momentos ao longo da fita.

O elenco é ao mesmo tempo um triunfo e um problema. Enquanto Meryl Streep mostra o por que tem o nome que tem, esbanjando talento e cantando com emoção e qualidade (percebendo isso, Lloyd foi esperta e atribuiu a Streep o maior número de partes musicais do filme), o restante do elenco se torna problemático, pelo menos em sua maioria. Dos três possíveis pais de Sophie o único que se salva é Colin Firth, que de certo está acostumado a este tipo de personagem, e mesmo aparecendo pouco, faz seu trabalho direitinho. Stellan Skarsgard é um bom ator, porém não se encaixou em um personagem canastrão como o que lhe atribuíram; porém, mesmo desconfortável Skarsgard ainda está bem melhor que Pierce Brosnan, que é de longe o pior do elenco. Brosnan está preso, sem motivação, duro e o pior: não sabe cantar, o que torna seus momentos ao longo do filme um negócio sofrível.

Entre as mulheres coadjuvantes, Julie Walters e Christine Baranski acompanham Streep nos melhores momentos do filme, cantando muito bem e com bastante desenvoltura (basta ver o show que as três proporcionam do número de Dancing Queen, o melhor momento do filme), enquanto que Seyfried parece estar com pilha Duracell e não para de pular e sorrir um minuto, gerando até uma certa irritação no espectador, já que soa um pouco forçado.

Mamma Mia é um dos raros musicais da atualidade, e por mais que possui vários defeitos, pode ser recomendado para fãs do gênero, mas somente para estes, ou para fãs de ABBA, por que do resto acho difícil qualquer afinidade com a fita. É bem escrito, tem bons momentos, e um certo caráter de nostalgia que cria um ambiente interessante, porém é só isso. Um filme mediano, que alterna momentos bons e ruins e que dependerá da abertura do espectador ao gênero para conseguir exercer seu potencial, e mesmo assim ainda corre algum risco de não conseguir, basta ver que eu sou um fã do gênero, e ainda coloquei várias ressalvas no filme.


NOTA: 6,0

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

JORNADA PELA JUSTIÇA


Bom, o final do ano vem chegando. Antes de postar minha lista dos melhores do ano (afinal tem alguns filmes que pretendo assistir ainda), pretendo atualizar isso aqui com mais algumas opiniões sobre os filmes que pretendo começar a assistir com mais frequência agora que um ano extremamente cheio se foi. Sendo assim, começarei com este drama de presídio (será que pode ser chamado assim), desconhecido e completamente ignorado pelas pessoas (pelo menos até onde eu sei).

A chamada do filme é simples: " Você dedicaria 20 anos da sua vida para provar a inocência de um estranho?" Responder a esta pergunta pode passar a ter um novo sentido após passarmos pelos quase 90 minutos desta fita. Dirigido por Collen McLoughlin e contando apenas com Julia Ormond em seu elenco, no quesito nomes conhecidos, o filme é nitidamente uma história que queria ser contada porém de forma rápida, apenas para "o mundo tem que ter um filme sobre esta história."

Para entendermos o negócio, a sinopse é basicamente esta: Julia Ormond é uma assessora jurídica, que acaba se envolvendo com o caso de um afro-americano preso, acusado injustamente de estupro infantil. O processo se alonga por 22 anos, até que chagamos ao desfecho do negócio. O que torna o filme um pouco mais interessante é o fato de ter sido baseado em fatos reais, algo que é provado no final do filme, com imagens reais tanto da assessora quanto do preso em questão, que atende pelo nome de Calvin Willis.

A pergunta é: o filme é ruim? Não chega a ser ruim, mas deixa tantos buracos, existem tantas coisas que poderiam ser aproveitadas e explicadas de forma mais correta e contundente, que tiraria um pouco essa sensação de que tudo flutua, e diminuiria a super velocidade do filme, que só é quebrada em alguns momentos pelas cenas mais dramáticas. Do resto o filme é um comum drama que envolve superação e que tenta convencer o espectador pela sensibilidade (fato que acontece em alguns momentos).

No final das contas, o esquecimento e o desprezo de crítica e de público por este filme se justifica pelo fato de que o próprio filme não é ambicioso. Tudo soa muito simples, e em alguns momentos até um pouco mal feito, como se o diretor e a produção estivesse com uma pressa descomunal para terminar o filme. Jornada Pela Justiça poderia ser um filme bem interessante se fosse mais bem trabalhado, ou se pelo menos tivesse sido feito com um pouquinho mais de ambição e desejo de ser grande; como falta isto, a nota é condizente com as características e as propostas do próprio filme. Leve e simples, um filme fácil e dependendo do momento totalmente "assistível", porém deixa uma sensação de "relaxo" que poderia ter sido evitada.


NOTA: 5,5

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A HORA DO PESADELO (2010)


Refilmagem de um dos maiores clássicos do cinema de horror e que cravou no imaginário dos fãs a figura do jardineiro assassino, sádico e desfigurado Freddy Krueger, além de revelar o hoje superstar Johnny Depp. O filme de 1984 contava com todo o charme da melhor década para o horror de todas, e um diretor e roteirista com a criatividade lá em cima, no caso Wes Craven, o que já não acontece com este novo. Primeiramente a criatividade larga do zero, já que o argumento é o mesmo, não importa o fato de existir algumas alterações nos personagens e no andamento da fita ( que aliás só contribuíram para piorar o negócio) e o gênero do terror já não anda tão bem assim das pernas, e como se já não bastasse, esse negócio de 3D veio para ajudar a afundar um pouco mais a coisa.

Samuel Bayer, o diretor dessa refilmagem, não tem o mesmo feeling e nem o mesmo time de câmera de Wes Craven, e os poucos sustos que esse novo A Hora do Pesadelo nos causa, não é por mérito seu, mas sim por mérito da inteligente trama que Craven criou a 26 anos atrás e que mostra o por que é um clássico indiscutível, já que mesmo em outra roupagem e sem seu criador, o roteiro consegue se manter e salva essa nova investida.

Em termos mais simples, a história é boa, porém no de 84 haviam outras coisa boas, como a direção, a forma como o terror era feito com aquele elemento B sempre interessante, e um elenco que se não era genial, pelo menos se mostrou acima da média no quesito filmes de horror. O de 2010 ao contrário, mantém a boa história com algumas diferenças que a diminuem um pouco, não conta com uma boa direção, tropeça nessa necessidade de sangue batendo na tela para justificar o 3D e o elenco é sofrível. Os jovens protagonistas são ruins e não conseguem cativar o espectador, já no papel de Krueger temos um efeito interessante. Jackie Earle Haley, que ficou famoso por sua atuação em Pecados  Íntimos (valendo-lhe até uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante) e que interpreta Krueger na versão atual é um ator muito mais interessante que Englund, o Krueger clássico; todavia, não dá para comparar o Krueger de Englund com o de Haley. Freddy Krueger não é como Jason que poderia ser interpretado por qualquer ator já que utiliza uma máscara; ele tem trejeitos e maneiras de agir, além de expressões clássicas e uma voz condizente com uma maneira psicopata e assustadora de agir, coisas que Englund nos proporcionou, e que por mais que Haley tenha se esforçado, não consegue substituir.Em resumo, mesmo Haley sendo um ator melhor, Krueger é Englund e acabou.

Mais uma tentativa cruel e desnecessária, de expor clássicos a novas experiências para a obtenção do nosso velho e querido dinheiro. A única intenção de refilmar terrores é susbstituir aquela coisa suja e bruta que a falta de dinheiro obrigava os filmes do gênero a ter por elementos tecnológicos mais "condizentes com o bom cinema". O que as pessoas esquecem, é que filmes como A Hora do Pesadelo, Halloween, Sexta-Feira 13 e muitos outros se tornaram clássicos exatamente por este "quê a mais" que eles insistem em substituir por efeitos exagerados e essa porcaria de 3D. Todavia, estes produtores atuais não perceberam outra coisa também: os antigos continuam clássicos e estes novos não passam de meras cópias do que sempre será bom, e em sua maioria cópias mal feitas.

NOTA: 4,0

MAIS UM GRANDE QUE SE VAI: BLAKE EDWARDS


Complicações causadas por um pneumonia levaram o diretor Blake Edwards à morte no dia de ontem 16/12/2010 aos 88 anos. Conhecido como um dos maiores gênios da comédia de todos os tempos, é famoso por filmes como Bonequinha de Luxo, Um Convidado Bem Trapalhão e a série de filmes da Pantera Cor-de-Rosa. Destaco ainda o esquecido e hilário A Corrida do Século.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

MAR ADENTRO



 O texto que se segue abaixo não é necessariamente uma das críticas comuns que eu coloco neste blog, mas sim um trabalho mais detalhado, pois se trata de uma avaliação que eu escrevi para uma disciplina optativa de Bioética que frequentei neste ano de 2010 como parte de minha graduação em filosofia. Espero que vocês apreciem e tenham paciência para lê-lo, pois levando-se em consideração os textos que publico aqui, este é bem mais longo.



A questão da eutanásia na obra cinematográfica Mar Adentro de Alejandro Amenábar

O presente texto tem por intenção, mesmo que de forma simples e resumida, realizar uma análise de uma das questões mais importantes e debatidas das pautas atuais de Bioética e do Biodireito: a eutanásia. Entretanto, não partiremos nossa análise de um texto ou de um livro que retrate o assunto, utilizando-se destes apenas como pano de fundo teórico; nossa análise então, parte da obra cinematográfica Mar Adentro do diretor espanhol Alejandro Amenábar, que possui no cerne de seu roteiro, todo um aparato de desenvolvimento sobre a questão da eutanásia. Todavia, julgo necessário antes de adentrar as questões que embatem nossos dois pontos, realizar uma pequena e comum definição da eutanásia e de informar uma pequena sinopse do filme que será debatido.
A eutanásia, como definição etimológica, provém do grego, e significa algo como “boa morte”. De tal modo, a eutanásia é uma prática pela qual um doente em estado irreversível (incurável) tem sua vida encurtada através de maneiras regulares, por assistência e autorização de um especialista. Como nossa intenção é apenas realizar menções à eutanásia ao longo de nosso texto, ignoraremos ideias como a de distanásia[1] e ortotanásia[2], conceitos que são importantes para o debate bioético em geral, mas não para nosso intuito.
A eutanásia desperta vários questionamentos, sendo estes de ordem social, religioso, médica e filosófica como: Pode um ser humano atentar contra a própria vida, mesmo em condições extremas de dor e sofrimento? O que é uma morte digna? Vale à pena manter vivo, alguém que já não possui consciência disso? O que é uma vida digna? Qual o valor da vida? Entre muitas outras, que serão evocadas de forma simples, porém precisa ao longo de nosso texto.
Porém, como já informado anteriormente, o pano de fundo de nosso texto é o filme Mar Adentro, assim sendo as respostas a estas e outras perguntas, serão dadas com base nas discussões e no caso apresentado pela obra cinematográfica espanhola em questão. Acredito então ser válida uma pequena sinopse do filme, que se encontrará no parágrafo a seguir.
O ator Javier Bardem interpreta Ramón Sampedro, um homem que em sua juventude sofreu um acidente e ficou condenado a tetraplegia. Sampedro então inicia uma longa batalha pelo direito de tirar a própria vida condenada a uma cama em um dos quartos da casa de seu irmão; batalha que duraria 28 anos e que seria vencida de uma forma burlada pela lei e contestada pela religião, sociedade e alguns amigos e familiares. Vale ressaltar, e este aspecto se demonstrará totalmente relevante em nosso posterior discussão, que o personagem protagonista do filme, no caso Sampedro é um homem totalmente lúcido e com pleno funcionamento de suas faculdades mentais, mesmo após tantos anos preso a uma cama; fazendo com que sua intenção de eutanásia seja pelo princípio de uma morte digna, assim como havia sido a sua vida até o fatídico dia do acidente.
Apresentados nossos aparatos teóricos e dissertativos para a construção de nosso texto, iniciaremos então nossa relação e discussão dos princípios da eutanásia recorrentes e presentes na obra cinematográfica de Amenábar e todas as suas implicações éticas, sociais, familiares, legais e religiosas.
O caso de Sampedro ficcionado no filme é um tipo de eutanásia que Ronald Dworkin, por exemplo, chamaria de consciente competente (DWORKIN, 2003 p.257), ou seja, em que a morte é um desejo de um paciente que não se encontra em estado vegetativo e que goza de plena lucidez de suas capacidades, em outras palavras, de um paciente que sabe o que está fazendo, ainda mais como no caso do filme, após 28 anos de vida à tal maneira.
O grande problema, é que Sampedro não consegue se desfazer de sua vida sem a ajuda de um externo, como diz Dworkin (2003, p.258): “ Contudo, muitas pessoas gravemente doentes ou incapazes, apesar de plenamente conscientes, são incapazes de suicidar-se sem ajuda.” Assim sendo, o protagonista do filme necessita de uma ajuda especializada para por fim à sua vida. Com a ajuda de uma associação pró-eutanásia, iniciam os tramites legais para o consentimento da eutanásia através da legislatura do estado (no caso do filme, a Espanha), o que desperta a atenção de vários meios, como mídia, religião e sociedade, fazendo com que o filme então transite entre os embates do personagem central e seu desejo de morte, com os aparatos componentes do todo social. Presenciamos então diálogos entre o personagem Sampedro e a religião, a família, amigos, mídia, autoridades do estado, cada qual à sua maneira, gerando cada qual uma posição e uma concepção da questão.
A necessidade de uma ajuda externa causa toda a repercussão, afinal como diz Dworkin (2003, pg. 258):

(...) Daí se segue, porém, que, uma vez ligadas a aparelhos que ajudam a mantê-las vivas, tais pessoas tenham o direito legal de pedir que esses aparelhos sejam desligados, pois tal procedimento implica a assistência de outras à sua morte, e o direito da maioria dos países ocidentais proíbe o suicídio assistido.

O suicídio assistido é a prática pela qual uma pessoa “ajuda” outra a morrer, pelo desejo desta segunda. Como o desejante da morte não consegue tirar a própria vida por si só, ele necessita da ajuda de outras pessoas, esta segunda pessoa é a que caracteriza o ato do suicídio assistido. Na película de Amenábar, entretanto, o personagem de Sampedro não está ligado a aparelhos, mas apenas deseja a morte por não considerar mais uma vida como aquela digna, entretanto, o suicídio assistido não se caracteriza apenas pelo “desligar de aparelhos”, como afirma o próprio Dworkin (2003, p. 259): ”Contudo, as leis de todos os países ocidentais (com exceção, na prática, da Holanda) ainda proíbem que médicos, ou outros, matem diretamente pessoas que lhes peçam para fazê-lo, injetando-lhes um veneno letal, por exemplo.” Dessa forma, percebemos que o suicídio assistido no quesito de provocar a morte do paciente não apenas pelo desligar de aparelhos, também é proibido por lei, e como Sampedro não está na Holanda, seu problema com a lei perpassa toda a sua luta, já que o caso de Sampedro se encaixa na citação de Dworkin que se encontra imediatamente acima em nossos textos.
A vontade de morrer do personagem central de Mar Adentro, se pauta em uma premissa evidenciada de forma muito forte ao longo do filme: a que a vida de tetraplégico não é digna. A questão então se prende ao fato de que, associa-se normalmente a dignidade a certa proposição de autonomia e liberdade, sendo esta segunda no sentido mais senso comum, ou seja, a ideia de ir e vir a qualquer momento, consolidando-se como uma liberdade dependente da vontade, sendo que esta segunda no que diz respeito a do querer, em outras palavras, a incapacidade do personagem Ramón Sampedro o tira a liberdade, como afirma em suas próprias palavras, ao discutir com um padre que tenta fazer com que ele desista da ideia.
A liberdade então aqui se confunde com dignidade, e faz com que Sampedro, muito mais que uma mera morte, deseje esta de forma ideológica, como uma libertação, em outras palavras, a morte simboliza o retorno a liberdade perdida com o acidente que o deixou tetraplégico, e consequentemente a recuperação de sua dignidade. Essa liberdade e da mesma forma esta dignidade, é para Sampedro a única coisa que lhe resta, encontrando confortos exatamente onde muitos à sua volta enxergam um problema sério, afinal não é qualquer pessoa que consegue conviver com alguém que deseje a morte.
Os diálogos do filme acontecem de forma bem precisa, explicitando as ideias prós e contras a eutanásia, porém o que julgo mais interessante é a ideia exposta pelo personagem de Sampedro. Ele é um homem que deseja ter controle do seu corpo, e que vê esse controle negado de todas as formas, e que quando não negado, o vê com ressalvas e colocações, colaborando ainda mais para a ideia de uma total falta de privacidade e liberdade. Desse modo, temos que o caso de Sampedro explicitado no filme cai em uma situação estranha para a qual Dworkin chama a atenção:

Assim, o direito produz o resultado aparentemente irracional: por um lado, as pessoas podem optar por morrer lentamente, recusando- se a comer, recusando-se a receber um tratamento capaz de mantê-las vivas ou pedindo para ser desligadas de aparelhos de respiração artificial; por outro lado, não podem optar pela morte rápida e indolor que seus médicos poderiam facilmente conseguir-lhes. (DWORKIN, 2003, p. 259)

Logicamente, devido ao fato de o filme conseguir ser bem abrangente, e discutir várias questões relacionadas à eutanásia, a questão da liberdade tolhida, se mostrou a mim mais interessante. Ramón Sampedro se utiliza de várias argumentações para convencer amigos, familiares e outros de que uma vida dependente de outro ser humano para tudo é uma vida sem liberdade, por tanto não é uma vida. Desse modo, Sampedro quebra com o ideal principalmente religioso de que a vida é a coisa mais importante que possuímos alterando essa ideia, no momento em que se submete a vida à liberdade, deixando claro que para ele, Sampedro, a vida só vale a pena se for livre, o que não se dá no caso analisado aqui, concretizando e justificando seu desejo de morte.
A questão que o diretor Amenábar nos deixa através do personagem Ramón Sampedro é simples: existe algo maior que a vida? Concordar ou discordar disso não é o intuito deste texto, porém, as autoridades possuem uma posição forte, sejam elas legais e principalmente religiosas (no âmbito do filme) sobre o assunto. A vida é um problema tão difícil de resolver como a morte, e por isso a passagem de uma para a outra se torna tão complexa, cabendo a cada um analisar a situação e opinar de acordo com suas crenças e convicções, agora; o que me vem à mente quando recordo o personagem Sampedro é uma ideia bem comum, porém difícil de responder sem a prática: e se fosse comigo, o que eu faria? Escolher entre a morte e a vida é algo complexo e que envolve questões mais complexas ainda. Realizar julgamentos pode ser então uma prática cruel e maldosa, devido a isso é que, neste texto, mantivemos sempre o tom de análise e nunca de opinião, mostrando a questão da eutanásia sem qualquer posicionamento pessoal, mantendo assim uma estrutura válida e interessante das questões tratadas na obra cinematográfica de Amenábar no que diz respeito a este tão polêmico tema que é a eutanásia.


BIBLIOGRAFIA

DWORKIN, Ronald. Domínio da vida – aborto, eutanásia e liberdades individuais; São Paulo: Martins Fontes, 2003.

FILMOGRAFIA

AMENÁBAR, Alejandro. Mar Adentro (Mar Adentro); Espanha, 2004.


[1] Termo oposto a eutanásia, é a prática pela qual se mantém um doente em estado irreversível (incurável), vivo através de meios artificiais, ou seja, através de aparelhos.
[2]  A ortotanásia, não seria necessariamente uma prática, mas sim uma nomenclatura à atitude dos especialistas em deixar o curso de uma doença correr de forma normal, sem intervenções absurdas ou de grande porte. Desse modo, a ortotanásia é uma morte natural, onde o paciente incurável não é “induzido” a morrer, porém também não existe uma “luta” para salvá-lo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

COMO TREINAR O SEU DRAGÃO


A Dreamworks que surgiu como a grande concorrente da Pixar no mundo das animações cinematográficas, vinha mal das pernas, e não emplacava um grande filme a bastante tempo. O  grande responsável por esta estagnação era o "efeito Shrek" que fazia (fez) com que o estúdio se utilizasse da sua "mina de ouro" até esgotá-la, o que fez com que a franquia Shrek, após o segundo que até legalzinho caísse em um ostracismo e uma falta de criatividade sem fim. Aliado a isso, vieram fracassos como a chatíssima continuação de Madagascar e a decepção Bee Movie. Nem mesmo Kung Fu Panda e Os Sem -Floresta que são até filmes interessantes conseguiram igualar a Pixar. Como se não bastasse a concorrente aliada a Disney ainda apelou e lançou Wall-E nesse meio. Assim sendo, desde Madagascar em 2005 que a Dreamworks não lançava algo realmente impressionante e cativante, mas como diriam os caras do Casseta & Planeta, "seus problemas acabaram", já que Como Treinar o Seu Dragão é um achado, além de ser o melhor filme Dreamworks desde Shrek (mesmo parecendo exagero para alguns). E olha que eu nem curto muito o Shrek, mas admito a sua importância e qualidade.

Como Treinar o Seu Dragão não é nem um pouco inovador, nem no roteiro e muito menos nas condições de animação, porém se utiliza tão bem das fórmulas comuns de animação e as eleva a um grau tão interessante, que ultrapassa isso, e transforma essa "mesmice" em qualidade. A animação é muito bem dosada, é engraçada quando necessário, bonita quando necessário, elétrica quando preciso, ou seja, é tudo muito bem feitinho e encaixado, nada soa exagerado e nem faltoso.

Os efeitos de animação são fantásticos e o uso das cores para a criação do ambiente é sensacional, fazendo com que tenhamos emoções impagáveis, principalmente nas cenas do dragão Banguela e seu companheiro Soluço unidos em voos rasantes e que nos levam a uma sensação de liberdade poucas vezes produzidas pelo cinema, principalmente nos filmes de animação, que corre um risco muito maior de soar "fake"

Os heróis, os vilões, as lições de moral, as mensagens para as crianças ( e para adultos também), tudo está ali, e o melhor, soa bem e combina com o filme. Soluço é um anti-herói clássico, cativante, abobalhado, mas que consegue exatamente devido a sua inocência perceber o que nenhum "brucutu" forte e respeitado na aldeia dos vikings onde se o roteiro se passa percebeu, que os dragões também podem ser bonzinhos, que depende de como você os trata. As analogias à vida real são claras, e podemos encontrar ainda várias outras mensagens de moral, que afetam tanto adultos quanto crianças, fazendo de Como Treinar o Seu Dragão um filme para toda a família.

Em suma, um ótimo filme, e que mostra ao mundo e à própria Dreamworks que "existe vida fora de Shrek" e que ousar um pouco as vezes é interessante e dá certo. Cheio de belas imagens, surpreendente e muito cativante tanto no geral como no quesito de seus personagens (o dragão Banquela é simplesmente um personagem incrível), Como Treinar o Seu Dragão é uma grata surpresa e que deve ser visto tanto por adultos quanto por crianças. Um achado!


NOTA: 9,0

terça-feira, 30 de novembro de 2010

HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE PT. 1


Todo filme baseado em livros, deve partir de uma premissa máxima invariável, que ultrapassa popularidade da obra, aceitação pelo público e coisas desse tipo, formando o norte da obra; esta premissa é simples: "A maioria de seus espectadores não fizeram a leitura do livro, ou seja, o filme não pode depender do livro para a compreensão do público. Tudo bem, agora qual o motivo que levaria este ser a começar uma resenha sobre o mais novo filme de Harry Potter dessa forma? Igualmente simples a resposta: o novo Harry Potter não respeita essa máxima.

Mais uma vez o dinheiro venceu o bom cinema. Dividir o último livro em dois filmes com a desculpa esfarrapada de aproveitar melhor o livro, fez com que As Relíquias da Morte Pt. 1 se transformasse no pior filme da série até o momento. É claro que o livro foi bem mais presente na obra, afinal o negócio tem que ter força para dois filmes, não havia outra alternativa. Entretanto, essa divisão gerou vários problemas, e começamos a elencá-los agora. O primeiro deles é exatamente o excesso de livro. Tudo foi colocado ali, fazendo com o filme caía em uma monotonia após os 20 primeiros minutos, capaz de despertar sono até em quem sofre de insônia, voltando a despertar apenas no final, ou seja, As Relíquias da Morte possui um seríssimo problema de andamento. David Yates não consegue dosar as coisas aqui como conseguiu em O Enigma do Princípe e volta a ter lapsos de A Ordem da Fênix. Com exceção do começo e do final que são super velozes, o filme é um amontoado de briguinhas e perseguições sem sal, envolvendo os já costumeiros Harry, Rony e Hermione, e pra dizer bem a verdade, quase nada acontece de relevante para o restante do andamento do contexto principal, além do fato de aparecerem enxurradas de novos personagens inúteis e que só complicam o andamento do filme e a compreensão do espectador, tudo em nome de "ser mais fiel ao livro", ou como também é conhecido, tudo em nome do velho e querido "dinheiro", afinal por que produzir apenas sete filmes se podemos produzir oito e ganharmos muito mais dinheiro não? E o cinema que se lasque.

Outro problema é o pouco aproveitamento dos outros personagens que não sejam o "trio mocinho". Personagens importantes como Snape e Voldemort quase não aparecem, assim como personagens interessantes como Umbridge e Hagrid. Por outro lado, a maioria das ações ficam a cargo do trio principal, que não conseguem segurar muito a barra, e falham em várias cenas.

Os efeitos especiais, fotografia, maquiagem e estas coisas mais artísticas e técnicas continuam impecáveis, e seguindo a tendência iniciada com o obscuro trabalho de Cuáron em O Prisioneiro de Azkaban, tudo é mais adulto e fica cada vez mais amadurecido, porém,  depois de ter ido ao cinema, não sei se isso é muito bom, pois pelas atitudes presenciadas por mim na sala, percebi que a maioria do público do bruxinho ainda é bem infantil, mesmo que for apenas na capacidade mental e intelectual.

Acredito que a questão que envolve este Harry Potter é tranquila de se definir e se mostra da seguinte maneira: De um lado aqueles que adoraram o filme, ou seja, os fãs da saga que acompanham com afinco, que leram os livros e gostaram da fidelidade do filme, mesmo este tornando-se lento e chato. Todavia, do outro estão aqueles que não são fãs da saga, não leram os livros, e acompanham Harry Potter como a qualquer outro filme lançado no mercado. Se você faz parte da primeira turma, provavelmente Harry Potter e As Relíquias da Morte Pt. 1, lhe agradará e muito, agora se você for da segunda, já sabe o que vai encontrar. Assim sendo, após ler esta resenha, fica fácil perceber a qual turma eu em particular pertenço, caso você possua alguma dúvida ainda é só dar uma verificada na nota logo abaixo. E que venha o oitavo filme, mesmo existindo apenas sete livros para serem adaptados.


NOTA: 5,0

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

TRISTEZA NO CINEMA - O ADEUS DE LESLIE NIELSEN E DE IRVIN KERSHNER

O cinema está de luto. Quando li que Irvin Kershner estava morto, pensei comigo: "Lá se foi o diretor que filmou o que pra mim é a cena mais marcante da história do cinema". Conhecido por ser o diretor do Episódio V da saga Guerra Nas Estrelas; o diretor de O Império Contra-Ataca foi encontrado morto em sua residência, aos 87 anos de idade.
Agora, choque mesmo eu tomei quando vi anunciada a morte de Leslie Nielsen. Um dos maiores comediantes de todos os tempos, Nielsen encontrava em mim um grande fã de seu trabalho. Aquele que nunca riu de seus trabalhos como Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu; Drácula Morto Mais Feliz e principalmente a série de filmes da saga de comédia Corra Que a Polícia Vem Aí, que atire a primeira pedra. Mais um grande que se vai, e nos priva de seu talento. Nielsen faleceu ontem (28/11/2010) aos 84 anos de idade, vítima de pneumonia.


IRVIN KERSHNER



LESLIE NIELSEN

domingo, 28 de novembro de 2010

HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE


Depois de assistir ao chato e denso A Ordem Da Fênix, eu confesso que havia desanimado totalmente de uma saga que nunca chegou a me animar de verdade, entretanto David Yates conseguiu se recuperar, e me surpreendeu com um interessante e ótimo trabalho, o que transforma Harry Potter e o Enigma Do Principe em um dos melhores filmes da saga, superado, para mim, apenas pelo Cálice de Fogo.

Yates achou o seu tom na saga e conseguiu dar dinâmica e precisão a um roteiro difícil, talvez o mais difícil da saga. Apesar de ainda pecar um pouco nas cenas periféricas, o diretor conduz muito a câmera, e cria um cenário obscuro e poderoso, sem parecer forçado e nem adulto demais. Os movimentos e a preciosidade de sua condução, levam o espectador a uma grande viagem, e em nenhum outro momento da saga, estivemos tão bem à vontade para presenciar as aventuras do bruxinho e de seus amigos. Apesar de o filme não ser o melhor em minha opinião, Yates produz aqui a melhor direção da saga sem dúvida. 

Entretanto, alguns defeitos existem, como a pouca importância para um personagem, que segundo minhas fontes sobre o livro, possui vital participação, além de uma rapidez no desfecho, com a morte de um dos personagens mais presentes da saga, e que poderia ser muito melhor explorado. Fora isto, e aquelas historinhas românticas e picuinhas paralelas que continuam a encher o saco na saga, o filme é bom exemplar do cinema de fantasia em geral.

O elenco está bem leve e solto, resultado da precisão de Yates, que consegue arrancar ótimas atuações de todo o elenco, e que contribuíram demais para todo o aparato sombrio e misterioso que nos contorna durante toda a película. Isso sem contar a brilhante trilha sonora (também a melhor da saga), e toda a parafernália técnica e artística que está brilhante.

A verdade é que David Yates recuperou e por que não dizer reviveu a saga depois do fracasso de A Ordem Da Fênix. Harry Potter e o Enigma do Príncipe, possui o mérito de buscar sempre aquilo que os atores e o roteiro tem de melhor, e de ser ousado, coisa que faltou muito em A Ordem Da Fênix. Um belo trabalho e que colocou novamente a saga do bruxinho na mente de vários cinéfilos, incluindo este que vos fala, e olha que a resistência foi grande.


NOTA: 8,5

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

HARRY POTTER E A ORDEM DA FÊNIX


O quinto filme da série, e também o primeiro nas mãos do diretor David Yates, pode até não ser o pior filme da série, mas é com certeza o mais chato ( lembrando que existe um abismo enorme entre um filme ruim e um filme chato).

O grande problema do filme é o número absurdo de historiazinhas paralelas e que muitas vezes não contribuem em nada com o bom desenrolar da fita. É de irritar por exemplo, o modo como Yates perde tempo em romancezinhos e intrigazinhas de adolescente, para depois passar voando pela morte de Sirius Black, agora a pergunta é simples; qual é o mais importante? É claro que Yates ainda estava se adaptando a série, e sua direção melhorará de forma considerável no próximo filme, porém aqui a coisa é complicada. Muitas vezes falta o tom certo para dosar todos os elementos do filme, e para colocar cada coisa em seu lugar.

Além disso, pela primeira vez encontramos uma involução na saga. O Prisioneiro de Azkaban é em minha opinião um caso a parte e que divide opiniões por ser muito diferente do restante da saga. Contudo, A Ordem Da Fênix é bem inferior ao seu antecessor, O Cálice de Fogo, e isso em todos os sentidos, seja na direção, nas atuações, na dinâmica e na consistência do roteiro, até mesmo os efeitos especiais e a produção artística não estão no tom certo aqui.

O grande achado deste filme fica por conta da veterana Imelda Staunton e sua brilhante atuação no papel de Umbridge, além da ótima inserção de Helena Bonham Carter no papel de Bellatrix, num personagem que lembra muito, pela construção, os dos filmes de Tim Burton. No restante, o elenco leva tranquilo, principalmente o pessoal da velha guarda, enquanto que os jovens ainda penam um pouco, mas se não brilham como em O Cálice de Fogo, também não atrapalham.

A Ordem da Fênix representa praticamente um erro ao longo da saga, e se transforma em um dos pontos mais negativos da mesma. Sem brilho e sem nada que chame realmente a atenção, está fadado a passar para a história como o episódio mais sem sal e sem brilho de um conjunto de filmes que ainda agradará muitas gerações.


NOTA: 6,0