ENCONTRE AQUI

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A ÁRVORE DA VIDA


Malick não produzia um filme desde o criticado e ao mesmo tempo amado O Novo Mundo em 2005. A mística em torno do recluso e misterioso diretor colabora e muito para que seus filmes sejam sempre badalados, ou pelo menos aguardados com expectativas, tanto por público (mesmo que um pouco restrito ao mais alternativo) quanto por crítica.

Confesso que eu nunca acompanhei de perto a carreira de Malick, constando em meu currículo apenas Além da Linha Vermelha e uma olhada bem grosseira por seu último trabalho já acima citado, mas devo admitir que após A Árvore da Vida, meu interesse por seu trabalho aumentou e muito, pois tive a oportunidade de acompanhar neste sábado último, o que para mim, é um dos grandes momentos do cinema neste ano.

O filme em seus primeiros cinquenta minutos, um pouco mais, um pouco menos, me deixou em puro êxtase. A sequência de imagens e planos que caracterizam a visão de Malick da criação do mundo, e a impostação de cenas e movimentos que perpassam ideias como o divino; o natural; a relação entre os mesmos; o humano; o animalesco; entre outros e que me pareceram representar a criação da própria vida em suas mais variadas instâncias me deixou simplesmente hipnotizado. Em alguns momentos me lembrei da obra Fonte da Vida de Darren Aronofsky (que, aliás, é um filme pelo qual eu possuo um gosto afeiçoado), mas principalmente, Malick parece unir a perspicácia de Tarkovsky em relação ao subliminar e ao subjetivo com a paranóia e a genialidade que Kubrick possui com imagens que em primeiro momento soam desconexas, mas que representam a poesia de seu próprio autor, ou você espectador, vai negar a semelhança entre este filme e algumas partes específicas do grandioso 2001 – Uma Odisséia no Espaço? Em resumo, A Árvore da Vida possui uma influência clara destes dois gênios do cinema, e uma influência muito boa e correta.

A beleza das imagens e do filme em si é praticamente indescritível. A fotografia é estupenda e possui tons alvos que combinam demais com a sensação de pureza e de magia que Malick parece querer colocar à disposição da vida. É interessante perceber a utilização que o diretor faz do sol, sendo que este sempre aparece, mas aparece alongado, sempre iluminando ao fundo, para não prejudicar essa sensação de brancura. Os movimentos de câmera são intensos, sendo que Malick filma de todos os ângulos, usa câmera na mão quando lhe convém e coloca uma câmera lenta em várias cenas que contribuem demais com o clima da película. O filme passa uma sensação de paz, e sua trilha sonora que só não é mais estupenda que suas imagens que tocam o fundo da alma de qualquer espectador. Cinema em seu auge pleno.

Como se não bastasse toda a beleza do filme, A Árvore da Vida ainda é roteiristicamente profundo e sublime. Cheio de metáforas, ecos e simbolismos (incluindo a boa e velha relação da árvore com a vida e seu desenvolvimento), Malick realiza um retrato subjetivo e muito particular de suas concepções sobre a vida, o ser humano e o lugar de tais na construção deste mundo. Não é correto se perguntar o que o filme quer dizer, mas sim o que o seu diretor que dizer, já que a fita é nitidamente uma obra de arte pessoal, e que refletem sentimentos muito particulares e íntimos. A Árvore da Vida é minimalista, detalhista e se parece com um tipo de obra bem peculiar, onde por mais que existam diversas interpretações externas, existe um “algo” oculto, inacessível a quem vê de fora, e que toca somente a seu realizador. Existe algo de Malick no filme que compete somente ao mesmo, e que não possui nenhuma objetividade inerente, ou seja, não é um problema do espectador, é uma característica interna, potencial e que, em muitos casos, passa despercebida até mesmo de seu próprio criador.

Destaco também a ótima interpretação de Brad Pitt em um personagem emblemático e muito complexo, além do ótimo elenco mirim. Destaque também para a linda, precisa e enigmática cena final, que juntamente com a sequência que representa a criação e a vida em si, sequência esta que, como já dito, simplesmente me hipnotizou, se mostram como o ápice de um filme que só não é perfeito pelo seu ritmo um pouco irregular e uma atuação um pouco exagerada de Jessica Chastain no papel da esposa de Brad Pitt e mãe de seus três filhos.

Sussurrante em quase toda a sua extensão, e gerador de um reducionismo ao qual eu não me atrevo, caso haja intenção de descrevê-lo em sinopse, A Árvore da Vida, é um filme que merece e muito ser visto, e não apenas pelo público normalmente mais alternativo do diretor, mas por todos. Uma belíssima experiência que se torna cada vez mais emblemática e cativante com o passar dos minutos em que se tenta entendê-la melhor. Um exercício cinematográfico de contemplação e de inteligência, fato que talvez explique a desistência de algumas pessoas no meio da sessão. A Árvore da Vida possui no oculto e no simbólico seu ápice, deixando pouca coisa em seu exterior, fato que contribui e muito para seu resultado final. Palma de Ouro em Cannes merecida.



(Tree Of Life de Terrence Malick, EUA - 2011)


NOTA: 9,5

Nenhum comentário:

Postar um comentário