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quarta-feira, 2 de maio de 2012

11-11-11



Se utilizar de uma data e de elementos da numerologia para tentar gerar uma premissa válida para um filme de terror/suspense não é, nem de longe, uma das grandes originalidades do mundo do cinema. Contudo, o diretor Darren Lynn Bousman, que possui no currículo os filmes de número II, III e IV da franquia Jogos Mortais, inovou a se utilizar de uma elemento mais realista e preciso quanto ao datamento do filme, lançando-o no dia correspondente e coisas assim, porém, a única coisa que este filme tem (teve na época do lançamento) de bom é o trabalho de marketing, porque o filme em si é uma lástima.

Há muito tempo eu não assistia a um filme que é contraditório em relação à sua premissa básica e norteadora do contexto. O filme defende em vários momentos o poder dos livros sobre as pessoas, mas abandona isso para finalizar seu andamento, e, além disso, o substitui por elementos retóricos e que não haviam sido sequer colocados até aquele momento. Como se não bastasse, o filme possui um psicologismo e um elemento religioso de nível muito baixo, e nem sequer consegue fomentar no espectador o interesse pelo elemento do número “11”, fazendo com que tudo aquilo pareça muito mais uma coincidência mesmo do que uma ação conectada, ou seja, erro primário de construção argumentativa. Os buracos são gigantescos, e a quantidade de joguetes mal encaixados e de remendos para gerar um possível andamento são visíveis e comprometedores. Chega a impressionar que Bousman tenha chegado a pensar que sua plateia fosse tão estúpida a ponto de não perceber tais circunstâncias.

Como se não bastasse, o filme é cheio de tentativas baratas de sustos que não funcionam de maneira alguma. A direção é bisonha em alguns momentos, errando feio na utilização das sombras e principalmente da iluminação (repare nas cenas chuvosas onde isso fica muito claro). A fotografia é exageradamente escura e parece querer esconder as imperfeições do filme, e pasmem, é claro que não consegue.

Por incrível que pareça, o que menos prejudica o filme são seus protagonistas, que possuem uma boa delimitação pessoal e são bem conduzidos pelos atores Timothy Gibbs (Joseph) e Michael Landes (Samuel). O trabalho dos dois, por mais que não se encaixem como primores interpretativos, comparados ao nível baixo do restante da fita se destacam.

Agora, é lógico que 11-11-11 não poderia fugir da moda pós O Sexto Sentido quase que dominante do gênero, em elaborar algum tipo de reviravolta mirabolante no final para surpreender o espectador. Eis então que Bousman se inspira naquilo que existe de mais cruel na produção artística dos seres humanos e nos mostra que “o buraco é mais embaixo”. O que já era ruim fica ainda pior, em um final estúpido, equivocado, deslocado e que não consegue se explicar, além é claro, como eu já disse, de contradizer toda a ideia até ali apresentada pelo filme.

Uma tragédia cinematográfica que me propiciou apenas um grande medo: o de uma sequência aproveitando o vindouro dia 12-12-12, o que nos levaria a lamentar demais o fato de que a profecia maia só se cumprirá no dia 21-12-12 (repare que 21 é 12 ao contrário hehehe). Lamentável.


(11-11-11 de Darren Lynn Bousman, Espanha/EUA - 2011) 


NOTA: 2,0

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O ROLO COMPRESSOR E O VIOLINISTA



Média metragem feito para a conclusão de sua faculdade de cinema aos vinte e oito anos de idade, O Rolo Compressor e o Violinista é um excelente embrião da nobreza que, futuramente se transformaria o cinema deste gênio da sétima arte que atende pelo nome de Andrei Tarkovsky. Centralizando na inusitada amizade entre um garoto violinista e um motorista de um rolo compressor que realiza um trabalho perto da residência do já citado garoto, Tarkovsky já dá mostras de um talento acima da média. Logicamente que esta pequena e primeira obra ainda é crua e mostra um Tarkovsky mais vacilante, contudo a beleza poética e a simplicidade com que o assunto é tratado só poderiam vir de uma mente que entende a verdadeira síntese e propriedade do cinema, e sabe consequentemente organizá-la e projetá-la sem retirar sua parte mais nobre.

Tarkovsky varia de planos amplos para fechados, e utiliza-se da expressão dos atores e dos cenários para criar um clima fino, que consiga sintomatizar a relação de amizade que se constrói. O roteiro, muitas vezes baseado apenas nas imagens, é uma de beleza ímpar, e perpassa o espectador levando-o a uma análise de mais profunda de tudo o que se desenrola em cena. Utilizando-se das características marcantes de cada personagem, Tarkovsky realiza um movimento de assimilação entre público e filme, além de unir os dois personagens principais por estes elementos. Muito mais que uma simples amizade, os grandes momentos destes novos amigos, mostram-se exatamente no compartilhamento daquilo que cada um possui para oferecer, sendo no caso de Sergei (O Rolo Compressor) uma divertida “volta” na máquina de trabalho do mesmo e no caso de Sacha (O Violinista) uma suave música tocada em seu violino. A profundidade da amizade ultrapassa a vontade que cada um possui de conviver com a outra parte e se mostra totalmente desinteressada, desembocando em um triste, porém singelo final.

As interpretações merecem destaque, principalmente a do menino Igor Fomchenko que constrói um personagem simplesmente magnífico e que se enquadra exatamente naquilo que aparentemente era a intenção de Tarkovsky. As alterações de humor e as demonstrações de amizade partem das feições deste menino de forma intensa e simplesmente fenomenal.

Muito mais destacado pela beleza do que pela inovação técnica e estética que marcaria a obra posterior de Tarkovsky; O Rolo Compressor e o Violinista é uma obra obrigatória para os fãs de um cinema simples, belo e ao mesmo tempo marcante e pouco convencional. Uma história de amizade incrível, emocionante e que nos coloca frente a frente com os primeiros passos de uma dos maiores gênios da história do cinema. 


(Katok I Skripka de Andrei Tarkovsky, Rússia - 1960)


NOTA: 9,0

domingo, 22 de abril de 2012

CORAÇÃO DE CRISTAL



Werner Herzog é, ainda hoje, um dos grandes diretores que o cinema produziu. Dono de um estilo único, que mistura brutalidade com elementos poéticos para realizar grandes análises da natureza humana, o diretor alemão já nos presenteou com clássicos como Fitzcarraldo, O Enigma de Kaspar Hauser e o meu favorito, o estupendo Aguirre, a Cólera dos Deuses, todavia, Coração de Cristal é com certeza, entre os filmes do diretor que eu tive a oportunidade de assistir, o mais emblemático e o mais experimental trabalho de sua carreira.

O filme é extremamente simbólico e cheio de diálogos magistrais, que possuem em seu cerne, tanto elementos do teatro clássico quanto elementos poéticos de altíssimo nível. A fotografia é bárbara e a condução de câmera por parte de Herzog é algo para ser analisado em uma escala diferente. O diretor realiza inúmeros movimentos ao longo do filme, o que o torna um trabalho extremamente imprevisível. Herzog inverte planos, expande e retrai os mesmos ao seu bel-prazer, mas nunca de forma arbitrária, coloca a câmera em sua mão quando julga necessário e até verticaliza alguns planos, tudo com um toque clássico de alguém que realmente sabe o resultado que quer adquirir. Um exemplo claro dessa grandiosidade é a sequência final, que se passa em uma ilha e que dura alguns minutos, em que Herzog dá uma aula de direção e com ângulos e movimentos ousados cria planos maravilhosos e cenas inesquecíveis.

Apesar de possuir uma linearidade, Coração de Cristal possui vários fragmentos em sua execução, fragmentos estes que, por mais que possuam relação com o todo, se auto explicam através de aspectos existenciais e teses elaboradas em tons proféticos, materializando-se na pessoa do “vidente” Hias, responsável pela maioria dos grandes diálogos que o filme possui.

A busca da fórmula secreta do “vidro-rubi” perdida com a morte do único homem que a conhecia, faz com que um vilarejo se perca em obsessão e lamúria, pois os mesmos vivem desta especialidade. Personagens se alteram, definham, crescem, e tudo isto sem qualquer dano ou apelação ao alinhamento construído, ou seja, o desespero das pessoas com o alicerce perdido, o vislumbre de um futuro sem nada, culminando em atitudes e condições extremas dos personagens. Coração de Cristal é lento, pouco convencional, em alguns momentos desesperador e exige muita concentração do espectador, ou seja, é cinema de grande profundidade e de grande afetação. Visualmente e esteticamente experimental, é um filme único na carreira de Herzog, o que o torna pouco visto mesmo entre seus fãs, que na maioria das vezes são adeptos ao seu cinema mais “comum”.

Como última ressalva, vale o destaque de que, segundo o que eu li, Herzog utilizou técnicas de hipnose em alguns atores, principalmente nos coadjuvantes, para que os mesmo realizassem cenas em estado alterado, com a intenção de realizar o mesmo movimento no espectador, fincando sua presença através da loucura e do exagero imposto a estes atores e no final das contas, ele conseguiu, pois com o perdão do trocadilho, o filme é realmente hipnotizante. Obrigatório.


(Herz aus Glas de Werner Herzog, Alemanha - 1976)


NOTA: 9,5

segunda-feira, 16 de abril de 2012

MIKEY


Qualquer fã de filmes de terror já se interessaria por este filme só pela frase de chamada na capa do DVD: “Lembre-se, Jason e Freddy já foram crianças também”. Uma chamada de efeito que busca referências nos dois maiores ícones do cinema de terror, além de dois dos maiores assassinos da história do cinema em geral. Como se isso não bastasse, isto é feito para apresentar um filme sobre um menino de oito anos, em outras palavras, nada de adultos ensandecidos matando tudo e todos; já que em Mikey, e percebe-se isso logo na primeira sequência, o assassino é a criança.

O grande barato é o fato de o filme dispensar explicações estúpidas sobre os motivos que levam a criança a cometer tais crimes, limitando-se apenas aos clichês do órfão que passa de família em família. Em nenhum momento o filme tende a explicações psicológicas de falta de amor dos pais ou traumas e coisas assim, sendo que as citações a este tipo de situações são extremamente manipuladas pelo personagem infantil. O menino é mal e ponto, não há tentativas atuais “politicamente corretas” e moralistas para tentar manter a criança em um esquife impenetrável de pureza. O filme só trabalha com a ideia que trabalha, por que foi produzido em uma época que aceitava tal possibilidade, contrastando com a época atual, onde médicos, psicólogos e seres afins tentam “isentar” pessoas simplesmente más e que cometem crimes de acordo com a sociedade, através de apelações e argumentos muitas vezes mal explicados, retóricos e dogmáticos.

A atuação do jovem Brian Bonsall como Mikey é bárbara, e tenho certeza que não gerou nenhum trauma ou seqüela no menino a interpretação de tal personagem (ou alguém vai querer vir com o papo furado de que os problemas que o mesmo teve com a polícia por agressão ou violação de condicional vem daqui?). O roteiro é bem amarrado e algumas cenas são de uma felicidade rara (como a cena da mesa de jantar), contudo, o filme poderia ter uma direção menos vacilante e uma trilha sonora mais bombástica. Todavia são pequenos empecilhos perante um filme perturbador, intrigante, em alguns momentos extremamente empolgante e que trabalha com boas idéias e perspectivas, mesmo que as mesmas sejam abomináveis perante à ideia cristã-moralista da pureza e bondade eterna das crianças. Aliás, provavelmente este moralismo cristão exagerado impediu o filme de ser lançado no Brasil, ou seja, dificuldade de acesso de novo, algo cada vez mais comum para não-fãs de filmes de super heróis, Transformers ou Crepúsculos da vida.

Fica aqui novamente uma dica para cinéfilos que possuem facilidade para fuçar na internet e encontrar tais obras, para aqueles que não possuem tal facilidade, resta ter um amigo com essa facilidade e que ele consiga tal filme pra você, e por aí vai, o que venhamos e convenhamos é algo bem triste, pois priva muitas pessoas do acesso a filmes muito interessantes, categoria que Mikey se encaixa facilmente.





(Mikey de Dennis Dimster, EUA - 1992)




NOTA: 8,0

segunda-feira, 9 de abril de 2012

FLORESTA NEGRA


Atualmente parece surgir no cinema e no entretenimento em geral uma onda de transformar aqueles clássicos contos de fadas que povoaram gerações e mais gerações em obras mais assustadoras e insinuantes. Só no campo dos seriados temos dois claros representantes desta temática; Grimm e Era Uma Vez, série às quais não assisti nenhum capítulo, mas que tive a oportunidade de me deparar com os resumos de seus episódios e daí retirar este meu comentário. Além disso, no próprio cinema, tivemos o desastroso A Garota da Capa Vermelha no ano passado e neste 2012 assistiremos (ou não) ao lançamento de duas novas versões da clássica história de A Branca de Neve, contudo, não acredito na possibilidade de nenhuma das duas serem superiores a esta surpreende adaptação do conto compilado pelos Irmãos Grimm.

O diretor Michael Cohn cria uma incrível roupagem para esta adaptação. Tudo é muito obscuro, muito misterioso, muito penumbroso. O suspense é forte e circunda todo o filme, caminhando ao lado do mesmo de seu início até os momentos do ótimo desfecho. As poucas deturpações na história ajudam o espectador a se identificar com o clima proposto, porém, o grande acerto do diretor é eliminar ou suplantar elementos da história original que a transformam em um conto infantil, fazendo com que a fita ganhe em “público idade”. O príncipe encantado aqui não é bem lá um poço de bondade e pureza, e os sete anões são substituídos por uma espécie de grupo de renegados e marginalizados, dos quais vários possuem seus rostos deformados ou cicatrizados.

O elenco está muito bem, desde o grupo desconhecido de coadjuvantes, passando por uma concisa atuação do normalmente burocrático Sam Neil e desembocando na ótima atuação de Sigourney Weaver como Lady Claudia, ou para associá-la ao conto original, como a Madrasta.

Floresta Negra (não vou nem comentar o título em português) é sim um filme de terror, e de terror psicológico, muito mais puxado para o suspense do que para o terror explícito, e muito mais do que sustos, o filme se apóia nas relações pouco harmoniosas e humanas entre os personagens, e no incrível elemento perturbador proporcionado pelo ótimo trabalho artístico, com destaque para a belíssima fotografia em tons azulados e uma ótima maquiagem. Contudo, como ressalva, vale comentário o pouco capricho com os efeitos especiais em algumas cenas, que, se causados pela falta de dinheiro se torna algo perdoável, todavia, se o motivo for a incompetência dos profissionais responsáveis pelos mesmos, não há razão alguma para se esquivar de tal percepção, nada que estrague o bom resultado final, mas é nítido que o trabalho nesta parte específica da obra está abaixo do restante.

Um filme muito interessante e que deveria ter recebido um reconhecimento maior, o que infelizmente não aconteceu. A fita se perdeu na passagem do VHS para o DVD e não foi lançada no Brasil neste segundo formato (pelo menos não em grande tiragem e que pudesse gerar um fácil acesso à mesma), característica que o transforma em um trabalho de difícil acesso, ainda mais para aqueles espectadores que já não suportam mais os chiados e tremidas clássicas de uma VHS. Entretanto, VHS ou não, esqueça por alguns momentos a Branca de Neve de sua infância e se coloque em um conto de mesma estrutura, porém com uma roupagem totalmente diferente. 


(Snow White: A Tale Of Terror de Michael Cohn, EUA - 1997)


NOTA: 7,5

segunda-feira, 26 de março de 2012

SENTIDOS DO AMOR


Para nossa sorte, nem só de cinema (espaço físico) vive o mundo da sétima arte. Cada vez mais, devido ao advento do cinema barulho e comercial, grandes filmes passam longe dos cinemas e repousam nas locadoras e lojas de DVD´s de forma desconhecida, sem pôsteres e em prateleiras nos fundos. Cada vez mais, você, que se julga um verdadeiro fã de cinema, deve bisbilhotar estas prateleiras, pois em alguns momentos cai em suas mãos uma obra como este Sentidos do Amor.

Ignore o título em português que tenta resumir o filme a um romance de Nicholas Sparks e se coloque na presença de uma inebriante obra, que consegue ser um romance, ser um belo filme, sem ser piegas e sem se esbaldar em clichês pré-determinados, infundados e que não enganam mais ninguém. Sentidos do Amor, do diretor escocês David Mackenzie, se utiliza de um mundo pré-apolíptico que vai se “apocaliptizando” ao longo da fita como um pano de fundo para o romance entre um chef (interpretado de forma intensa por Ewan McGregor) e uma epidemiologista (interpretada de forma igualmente forte por Eva Green). O mais interessante é o modo como o diretor desenvolve o romance e o coloca à prova dos acontecimentos ao redor do casal. Conforme o mundo vai desmoronando, o romance se enraíza, ultrapassando o simples amor romântico e se tornando praticamente um escape para toda a tragédia que os envolve no que toca ao restante de suas vidas.

O romance se desenvolve em meio a uma epidemia, que após acessos extremos de um determinado tipo de emoção (dor, raiva entre outros) gera a perda de um dos sentidos do ser humano, algo que inicia com o olfato, vai para o paladar e segue seu curso, sem qualquer vislumbre de cura ou de explicação para tudo aquilo. A grande sacada de Sentidos do Amor é não cair no caminho mais fácil de “embelezar” uma tragédia, somente pelo fato de a mesma propiciar (ou conviver com) a existência de um grande amor. Mesmo nos momentos mais belos do romance entre os dois, o clima da fita é sombrio, drástico e extremamente soturno, resultado de uma fotografia acinzentada, lúgubre e que parece expelir fuligem ao longo de toda a fita. A trilha sonora é precisa, e o roteiro consegue escapar (outro grande mérito) de momentos “songs of love” carregados e que tentam forçar um grande amor. Mackenzie acerta a mão, nos brinda com enquadramentos e cenas maravilhosas (com destaque para a união do casal, na imagem que estampa o pôster do filme no início deste texto) e constrói tanto um romance quanto uma catástrofe que segue seu curso de força extremamente natural, triste, porém natural, de tal forma, que no momento em que amor entre os protagonistas se torna o centro, você aceita e torce por isto, tamanha a simpatia que se adquire pelo amor do casal, mediante à tristeza do restante. Se um grande romance é aquele em que torcemos pelo casal principal, os momentos finais da fita corroboram a ideia e te fazem sentir o impacto deste surpreendente filme.

Da mesma forma que outros filmes que, por mais que tenham diferenças, seguem a mesma linha de tendência, como Ensaio Sobre a Cegueira, A Estrada e Não Me Abandone Jamais, o pessimismo e a dureza do filme podem não agradar muitas pessoas, pois a esperança aparece em pequenos detalhes, sendo que estes muitas vezes se mostram pouco seguros, contudo, é inegável o tom de qualidade, de audácia e de originalidade deste ótimo filme, que não estreou nos cinemas brasileiros e que corre o risco de nunca receber o reconhecimento que merece. Enquanto Crepúsculos e comédias estúpidas banalizam o amor e enchem de besteira a cabeça daqueles que vão ao cinema, Sentidos do Amor passa despercebido, chegando apenas às mãos daqueles que buscam um pouco mais no cinema do que mero entretenimento. Em resumo, se você ainda não sabe o que assistir no próximo fim de semana, ou no seu próximo fim de noite, aceite minha dica e capte toda a beleza desta incrível obra. Imperdível.


(Perfect Sense de David Mackenzie, Alemanha/Dinamarca/Reino Unido/Suécia - 2011)



NOTA: 9,0

segunda-feira, 19 de março de 2012

AS VÁRIAS FACES DE GARY OLDMAN

Inicio com este grande ator minha intenção de ampliar os horizontes do blog para além dos filmes apenas:



1 - LUDWIG VAN BEETHOVEN (MINHA AMADA IMORTAL - 1994)


2 - CONDE DRÁCULA (DRÁCULA DE BRAM STOKER - 1992)


3- COMISSÁRIO JIM GORDON (BATMAN BEGINS - 2005, BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS - 2008, BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE - 2012) 


4 - SIRIUS BLACK (SAGA HARRY POTTER - 2004, 2005, 2007, 2011)


5 - GEORGE SMILEY (O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS - 2011)

quinta-feira, 15 de março de 2012

OS INOCENTES


Um dos grandes clássicos do terror e do suspense de todos os tempos, Os Inocentes é uma obra de peculiaridades claras, que consegue como poucos filmes dosar tensão e sustos, sem perder seu elemento clássico, além de conseguir fazer tudo isso sem descambar para maneirismos ou situações absurdas que poderiam ser utilizadas (e neste tipo de filme muitas vezes são) para amarrar e resolver o enredo de forma mais rápida, porém normalmente mais falha.

Os Inocentes conta a história de uma governanta recém-contratada para cuidar de duas crianças na casa de campo onde elas vivem. A partir de tal ponto, a governanta começa a perceber eventos estranhos na casa, o que a faz, muito mais que colocar em cheque a sobrenaturalidade destes fatos, começar a questionar a aparência e as atitudes angelicais e dóceis das crianças.

Os Inocentes é um filme único, pelo fato de trilhar por caminhos muito diferentes do que a maioria das fitas de seu gênero. A personagem de Deborah Kerr, ou seja, a governanta, ao começar perceber a presença de fenômenos sobrenaturais na casa, não apela para resoluções mirabolantes ou correrias desenfreadas para que de repente uma pista salte à sua frente para lhe criar uma visão epifânica. Por mais que elementos deste tipo até se apresentem, eles acontecem em uma escala tão baixa e tão coadjuvante que nem fixam raízes, dando espaço para uma resolução mais centrada, mais pautada nas desconfianças da personagem do que propriamente em pudores ou moralismos. Colocar as crianças como elementos de presença dos fantasmas, e associá-los a maldade é algo pouco visto atualmente, muito devido ao elemento hipócrita politicamente correto de nossa sociedade atual. Aqui a coisa é diferente, e a governanta não desvia suas desconfianças das crianças e as associa a maldade sem qualquer tipo de freio ou ficcionismo.

Falando do filme em si, Os Inocentes não tem estrutura de terror/ação, mas sim de terror/drama, ou seja, não possui aquele clima desenfreado onde sustos pululam de todos os lugares sem qualquer compostura, mas sim aquele clima mais ameno, onde o suspense e o terror vão se desenvolvendo com o tempo para alcançar seu clímax a longo prazo. O resultado disto é um filme que em seu início é bem tranqüilo, mas que após algum tempo gera uma tensão no espectador que ultrapassa a existência de sustos. Filmes onde os sustos são mais dispersos ao longo do roteiro funcionam melhor, pois o espectador não sabe muito bem onde e quando eles acontecerão. A tensão é tão grande que você termina o filme meio perdido, efeito que ainda se alonga por algum tempo após o término da fita. Tal ressalva feita, que fique claro outro aspecto: com os poucos sustos que o filme tem, ele consegue simplesmente gelar a espinha do espectador (poucas vezes passei tanto pavor na frente de um filme quanto na cena em que o menino Miles está de costas para uma janela e um vulto aparece atrás da mesma dando risadas).

A direção é precisa, o elenco é ótimo e a direção de arte brilhante, unida a uma fotografia estupenda, onde as sombras são utilizadas de maneira assombrosa (com o perdão do trocadilho) para ajudar na criação do penumbroso clima que percorre toda a fita. A lamentar, apenas a dificuldade de acesso ao filme atualmente. Fora de catálogo no Brasil há bastante tempo, depende-se de boas almas que disponibilizem o filme, elemento que o encarece bastante, justamente, diga-se de passagem devido a seu caráter de raridade. Devido a isso, por exemplo, levei um bom tempo para ter acesso a esta grande obra.

Lamentos deixados de lado, Os Inocentes é com certeza um filme que deve ser visto por qualquer fã de cinema, independente de peculiaridades genéricas de gosto, pois o filme é muito mais que um mero suspense ou filme de horror, é uma grande obra feita pelo cinema, que potencializa características e técnicas que ultrapassam as limitações de seu gênero. Imperdível.


(The Innocents de Jack Clayton, Inglaterra - 1961)


NOTA: 9,0

terça-feira, 13 de março de 2012

CASSINO


Uma das mais aclamadas obras do mestre Scorsese é uma descida aos abismos do mundo pobre e desregrado não só da famosa Las Vegas, mas de todo o circuito envolvido em um mundo muito mais profundo que meras jogatinas e promiscuidades.

Cassino acompanha o desenrolar, o enrolar, o desenrolar e o enrolar de novo e assim sucessivamente de personagens envolvidos em tal meio, explorando suas idiossincrasias e exemplificando com formulações diferentes de cada um dos personagens, quais são os tipos de seres aos quais se transformam àqueles totalmente embrenhados deste âmbito e tudo aquilo que o mesmo pode proporcionar. Assim sendo, encontramos chefões de jogos e máfias, prostitutas, cafetões, simples apostadores, corruptos e por aí vai, todos eles analisados e apresentados com as características estéticas scorsesistas da potencial capacidade bestial do homem.

Scorsese consegue como ninguém, buscar e expor a capacidade que o homem tem de se tornar simplesmente uma besta, e explora tais elementos com uma inteligência única, se apoiando em elementos de temática violenta, porém que nunca se afastam de um forte realismo, por mais que em alguns momentos este realismo seja um pouco exagero. A câmera de Scorsese é sempre muito bem centrada e o desenvolvimento do roteiro é brilhante, por mais que demore alguns minutos acima do recomendável para funcionar. Além disso, estão presentes aqui o exótico gosto de Scorsese por figurinos exagerados e aquela perturbadora fotografia em tons avermelhados que parece nos impulsionar para dentro do ambiente do Cassino mesmo quando lutamos contra tal força.

Mesmo com seu habitual talento para dirigir e contar histórias de tal envergadura, nada funcionaria tão bem quanto funciona se não fosse o ótimo elenco. Robert DeNiro deve toda sua carreira a Scorsese, e aqui está novamente ótimo nas mãos do diretor. Sharon Stone nos mostra a melhor atuação de sua carreira em um papel difícil, porém feito com muita vontade, todavia o destaque maior vai para Joe Pesci, outro que cresce nas mãos de Scorsese, que nos brinda com uma atuação fenomenal e cheia de entusiasmo.

Cassino não é o melhor filme de Scorsese, mas desde sempre circulou entre os grandes, algo mais que merecido. Como filme propriamente dito já é um gigante, agora, como estudo do comportamento e da formalização humana, Cassino é mais uma obra-prima deste gênio do cinema chamado Martin Scorsese. Imperdível.


(Casino de Martin Scorsese, EUA/França - 1995)


NOTA: 8,5

terça-feira, 6 de março de 2012

NAPOLEON DYNAMITE


Tentar rotular ou simplesmente encaixar Napoleon Dynamite em padrões comuns do cinema é uma tarefa no mínimo dura e criteriosa. A originalmente comédia de Jared Hess acompanha a vida de Napoleon, um estudante do meio-oeste americano preso em um mundo de certo modo geek e que não consegue se relacionar em nada, mais absolutamente nada fora disso, melhor dizendo, sua dificuldade de relacionamento de transpõe até mesmo a membros daquilo que seria o seu meio, porém com algumas diferenças; em resumo, um jovem extremamente excêntrico e preso em si mesmo e em seu mundo particular. As coisas mudam um pouco, quando ele conhece Pedro, um clássico adolescente mexicano que migrou para os EUA. Clássico tanto na maneira, quanto no perfil que o filme dá ao personagem.

Em primeiro momento, Napoleon Dynamite parece uma comédia de adolescente de jargões comuns e pouco inventividade; contudo ao longo da fita o negócio descamba para um estilo muito diferente, que pode causar estranheza em muita gente, porém inegavelmente original. Com toques de drama, e poucas cenas realmente engraçadas (a melhor delas é com certeza quando Napoleon se apresenta para a campanha de seu amigo Pedro para presidente dos estudantes), Napoleon Dynamite apóia-se muita mais na ideia de ser diferente do que necessariamente ser engraçado, e o resultado final depende da inserção do espectador neste movimento do filme. Em outras palavras, muito mais que gostar de comédia, para gostar de Napoleon Dynamite você deve gostar de comédias excêntricas, que misture humor negro, muitas vezes sutil, toques de escatologia e abra mão, em sua grande parte, daquele humor explícito e vulgar da maioria das comédias atuais deste gênero.

A direção de Hess também é diferente para este tipo de filme. Ele usa muita mais elementos de road movie do que de comédia. A fita é repleta de planos vazios, e a câmera de Hess normalmente fica estática esperando as ações dos personagens passarem por ela. Se no roteiro a inovação de Hess ajuda a fita, na direção nem tanto. O filme perde agilidade, o que para uma comédia é algo ruim, e temos uma fita muitas vezes lenta e de pouca explosão, algo que faz com que seus curtos 82 minutos pareçam bem mais tempo.

As atuações são ótimas e constroem os estereótipos (claramente proposital) de forma impressionantemente precisa, além de um intrigante trabalho de direção de arte, maquiagem e figurino de incrível mau gosto (também proposital). A trilha sonora em alguns momentos muito dura, faz seu papel, mas também colabora para o elemento road movie do filme.Além disso, tenho outra colocação: eu entendo que o fato de o filme se passar em Idaho merece tal aspecto, mas minha pergunta é se a fita precisava potencializar tanto o aspecto caipira da região, por assim dizer, algo que às vezes me soa um pouco exagerado demais (pois exagerado o filme já é por si só).

No final das contas, Napoleon Dynamite é um filme interessante, original e com boas sacadas, todavia, confesso que, devido a algumas opiniões que já ouvi sobre o mesmo eu esperava um pouco mais. É bom, porém nada fora de série como muitos dizem por aí.


(Napoleon Dynamite de Jared Hess, EUA - 2004)


NOTA: 6,5